Nicolas Sarkozy: Monsieur polemique

Em um encontro com empresários em São Paulo, o conservador ex-presidente francês (que tem grandes chances de voltar a comandar seu país) abordou questões delicadas do mundo atual, como migração para a Europa, superpopulação e crise econômica

AFP PHOTO / MIGUEL SCHINCARIOL
Principal líder conservador francês, Nicolas Sarkozy defende uma posição mais rígida em relação à onda migratória para a Europa: “Não haverá real desenvolvimento da África sem o controle da natalidade”

No sempre fluido mundo da política, não é frequente encontrar líderes que se caracterizem por posições firmes e opiniões fortes. Um deles, certamente, é Nicolas Sarkozy, ex-presidente da França (2007-2012), líder do partido conservador Os Republicanos (antigo UMP) e candidato a substituir o socialista François Hollande no comando do país,­ nas eleições presidenciais de 2017. Ele sempre expôs com clareza, por exemplo, sua posição crítica quanto à imigração para a Europa ou à globalização e sua defesa intransigente de um maior papel da França no mundo.

fotos: Eugenio Marongiu / Shutterstock.com
Manifestação de migrantes africanos em Milão

Sarkozy esteve no Brasil no fim de agosto – uma semana antes, portanto, da histórica foto do garoto sírio Aylan Kurdi morto numa praia turca, que comoveu o mundo e mudou a perspectiva da União Europeia em relação à questão migratória. Nesse período, ele teve um encontro em “petit comité”, em São Paulo, com empresários brasileiros, ao qual PLANETA teve acesso. A seguir, destacamos alguns dos mais relevantes (e outros polêmicos) trechos do que ele disse na ocasião.

 

Imigração

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“A Europa está a 12 km da Africa, pelo Estreito de Gibaltrar. O desenvolvimento do continente africano é uma questão para nós, europeus. Mas não haverá um real desenvolvimento da África sem o controle da natalidade. O grande problema mundial sobre o qual ninguém fala, e que é decisivo, diz respeito a esta pergunta: quantos habitantes podem viver na Terra? Não adianta acolher todo mundo quando as culturas são diferentes. Muitos imigrantes conseguem se integrar à nossa sociedade. Mas eles não são algumas dezenas. São milhares. Não é uma brincadeira.”

 

Globalização e identidade cultural

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“Não existe árvore que consiga cobrir um jardim inteiro sem ter raízes. Porque quando sopra uma tempestade, e sempre sopra, a gente precisa ter raízes. Vocês vivem há 40 anos fora da França. Têm suas raízes, não são apátridas. Mesmo que não ponham os pés na França, têm uma cultura, família, parentes franceses. O ângulo para uma empresa é exatamente igual. Para mim, isso é um conceito central: ter a cabeça voltada para o mundo, mas apegar-se às suas raízes. A globalização não é o desaparecimento das identidades. É partilhar essas identidades. Se vocês não têm mais identidade, o que terão para dividir? Nada. Claramente, eu sou contra um mundo com uma só linguagem ou uma só cultura.”

 

Universidade da Biodiversidade

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“Temos 700 km de fronteira com o Brasil, na Guiana Francesa. E temos o direito de ter projetos fantásticos. Eu sonhei, em 2008, com uma universidade da biodiversidade, em parceria franco-brasileira. Quando eu quis fazer um grande programa de investimento, todo mundo caiu em cima de mim. O problema é o montante das despesas públicas. Mas se endividar para investir é enriquecer. A gente precisa de projetos dessa natureza, que mobilizem um país. Nós devemos investir. Não dá certo sempre, e o que um erro pode representar quando a gente tenta… Mas a morte é não tentar.”

 

Economia da União Europeia

“Nosso modelo econômico não funciona mais. Temos de ir na direção da convergência. Não podemos ter impostos diferenciando os lados do Reno (rio que, em parte do seu curso, separa França e Alemanha). Isso não funciona mais. Não podemos ter uma Europa de um lado do Reno e não ter no outro. Todos os países devem ter os mesmos direitos.”

 

Poluição e superpopulação

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“Todos falam da COP 21 (Conferência do Clima, no mês de dezembro, em Paris) . É um evento cretino. É muito bom lutar contra a poluição, mas você não consegue lutar contra ela se não resolver o problema da demografia mundial.”

 

“O grande problema mundial sobre o qual ninguém diz nada é: quantas pessoas podem viver na terra?”

 

Concorrência entre países

“Deixar na mão da Europa e dos EUA a solução desses grandes problemas? Há 200 países no mundo, e 160 deles são fortes concorrentes da Europa e da França que querem sua parte do bolo. Não dá para ignorar. Não é como o dia seguinte da Segunda Guerra Mundial. O que os EUA podem fazer hoje? Nada. Há três meses, encontrei o presidente da Mercedes-Benz e lhe perguntei quais são seus concorrentes mais ferozes. Ele me disse que eram os da Coreia do Sul. Isso significa que os carros sul-coreanos fazem concorrência direta com os da Mercedes-Benz.

Perguntei ao presidente de uma empresa de automóveis da Coreia do Sul quantos dias de férias ele dava a seus empregados. Ele, que perdeu os pais na guerra, disse que dá nove dias de férias por ano. Somente na Coreia do Sul, são 50 milhões de habitantes. Eles fazem um trabalho incrível. Aí você fala da China, que tinha subestimado vizinhos como Cingapura, com 6 milhões de habitantes. A Malásia tem 25 milhões de habitantes. Quando a Coreia do Sul e a do Norte se reunificarem – o que fatalmente acontecerá um dia, porque o outro louco lá… (faz uma careta ao aludir a Kim Jong-un, líder da Coreia do Norte). Não estamos mais em um mundo em que dez países dividem o crescimento mundial. Então, temos de reinventar o nosso modelo.”

 

Educação

“Cometi erros, como muitos outros. Propus uma reforma educacional que começasse na infância. Foi um erro. Porque a melhor reforma não é nada com um professor que não está nem aí, que está cansado, mal pago, não é formado e não é motivado. Isso não é uma reforma.”

 

Crise econômica

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“O mundo conheceu a crise de 2008 porque não tinha muitas regras. Toda dificuldade é achar esse ponto de equilíbrio. A liberdade precisa de regras. Se não há regras, é a lei da selva. O mais forte bate no mais fraco. Mas se a regra ganha importância demais, ninguém mais irá trabalhar. Tem que ter regra, mas não pode haver demais. (…) O presidente do banco Goldman Sachs, que conheço bem, me contou: ‘Pessoas vieram desfilar diante da minha casa nos EUA com cartazes dizendo: ‘Devolva meu dinheiro em ouro.’ Vocês, banqueiros (dirigindo-se aos banqueiros presentes), durante anos cultivaram o segredo. Vocês não têm de explicar o trabalho que fazem. Com isso, a crise sopra e as pessoas não entendem nada.”

 

Carreira política

“Outro dia eu falava numa reunião e pediram o direito à palavra. Eu disse não. O direito à palavra se merece. O direito ao voto é muito diferente do direito à voz. Para subir num palco, eu tenho 31 anos de trabalho por trás. Não há um centímetro do meu corpo sem cicatriz.”

 

“A COP21 É um evento cretino. Não se consegue lutar contra a poluição sem resolver a demografia mundial”

 

Estados Unidos

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“A gente ama os Estados Unidos quando eles são grandes. E não gosta deles quando são pequenos. O americano é um cara que põe um sapato imenso, pisa em cima do seu pé e você diz ‘ai’. Ele levanta o pé e olha você. E aí fala: ‘Nossa, como você tem sapatos bonitos!’ Essa é a alma dos Estados Unidos.”

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