Nikola Tesla: a vida extraordinária de um Prometeu moderno

A história mostra que Tesla foi um gênio indiscutível, mas ele morreu pobre e sozinho

O inventor sentado em seu laboratório de Colorado Springs, com uma bobina de Tesla em funcionamento (graças a uma dupla exposição), em foto de 1900. Crédito: Dickenson V. Alley, Wellcome Collection, CC BY

Compare as seguintes figuras – Albert Einstein, Thomas Edison, Guglielmo Marconi, Alfred Nobel e Nikola Tesla – com estes fatos biográficos:

  • Falava oito línguas
  • Produziu o primeiro motor que funcionou com corrente alternada
  • Desenvolveu a tecnologia subjacente para comunicação sem fio em longas distâncias
  • Detinha aproximadamente 300 patentes
  • Alegou ter desenvolvido uma “superarma” que acabaria com todas as guerras

A correspondência para cada um, é claro, é Tesla. Surpreso? A maioria das pessoas já ouviu seu nome, mas poucos sabem muito sobre seu lugar na ciência e tecnologia modernas.

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O lançamento de um filme biográfico sobre Tesla (Tesla, com Ethan Hawke, de 2020) oferece uma ocasião oportuna de revisar a vida de um homem que veio do nada, mas se tornou mundialmente famoso; afirmava ser dedicado exclusivamente à descoberta, mas apreciava o papel de showman; atraiu a atenção de muitas mulheres, mas nunca se casou; e gerou ideias que transformaram a vida diária e criaram fortunas múltiplas, mas morreu quase sem um tostão.

Primeiros anos

Tesla nasceu no que hoje é a Croácia em uma noite de verão em 1856, durante o que ele alegou ser uma tempestade com raios. Isso levou a parteira a dizer: “Ele será um filho da tempestade”. Sua mãe contra-atacou profeticamente: “Não, da luz”. Como estudante, Tesla exibia habilidades tão notáveis para calcular problemas matemáticos que os professores o acusavam de trapacear. Durante sua adolescência, ele adoeceu gravemente, recuperando-se quando seu pai abandonou sua exigência de que Nikola se tornasse padre e concordou que ele poderia frequentar a faculdade de engenharia.

Tesla em foto batida por volta de 1893 por Napoleon Sarony

Embora fosse um aluno excepcional, Tesla acabou deixando a escola politécnica e acabou trabalhando para a Continental Edison Company, onde se concentrou em iluminação elétrica e motores. Desejando conhecer o próprio Edison, Tesla imigrou para os Estados Unidos em 1884, e mais tarde alegou que recebera uma oferta de US$ 50 mil se ele pudesse resolver uma série de problemas de engenharia que a empresa de Edison enfrentava. Tendo alcançado o feito, Tesla disse que então foi informado de que a oferta tinha sido apenas uma piada, e deixou a empresa depois de seis meses.

Tesla então desenvolveu um relacionamento com dois empresários que levou à fundação da Tesla Electric Light and Manufacturing. Ele entrou com uma série de patentes elétricas, que atribuiu à empresa. Quando seus sócios decidiram que queriam se concentrar estritamente no fornecimento de eletricidade, pegaram a propriedade intelectual da empresa e fundaram outra companhia, deixando Tesla sem nada.

Tesla relatou que então trabalhou como escavador de valas por US$ 2 por dia, torturado pela sensação de que seu grande talento e educação seriam desperdiçados.

Sucesso como inventor

Em 1887, Tesla conheceu dois investidores que concordaram em apoiar a formação da Tesla Electric Company. Ele montou um laboratório em Manhattan, onde desenvolveu o motor de indução de corrente alternada, que resolveu uma série de problemas técnicos que atrapalhavam outros projetos. Quando Tesla demonstrou seu dispositivo em uma reunião de engenharia, a Westinghouse Company fez acordos para licenciar a tecnologia, fornecendo um pagamento adiantado e royalties sobre cada cavalo-vapor gerado.

A chamada “Guerra das Correntes” estava ocorrendo no final da década de 1880. Thomas Edison promovia a corrente contínua, afirmando que era mais segura do que a corrente alternada. George Westinghouse apoiava a corrente alternada, uma vez que ela podia transmitir energia a longas distâncias. Como os dois estavam reduzindo os preços um do outro, Westinghouse carecia de capital. Ele explicou a dificuldade e pediu a Tesla que vendesse suas patentes para ele por uma única quantia, com a qual Tesla concordou, renunciando ao que teria sido uma vasta fortuna se ele as tivesse mantido.

Luzes elétricas em corrente alternada iluminavam a noite durante a Feira Mundial de 1893, em Chicago: exemplo do talento de Tesla

Com a Feira Mundial de 1893, em Chicago, aproximando-se, Westinghouse pediu a Tesla para ajudar no fornecimento de energia; eles teriam uma plataforma enorme para demonstrar os méritos da corrente alternada. Tesla ajudou a feira a iluminar mais lâmpadas do que as encontradas em toda a cidade de Chicago, e impressionou o público com uma variedade de maravilhas, incluindo uma luz elétrica que não exigia fios. Mais tarde, Tesla também ajudou a Westinghouse a ganhar um contrato para gerar energia elétrica nas Cataratas do Niágara, ajudando a construir a primeira usina de energia de corrente alternada de grande escala do mundo.

Desafios ao longo do caminho

Tesla encontrou muitos obstáculos. Em 1895, seu laboratório em Manhattan foi devastado por um incêndio, que destruiu suas anotações e protótipos. No Madison Square Garden em 1898, ele demonstrou o controle sem fio de um barco, uma proeza que muitos rotularam de fraude. Logo depois, ele voltou sua atenção para a transmissão sem fio de energia elétrica. Ele acreditava que seu sistema poderia não apenas distribuir eletricidade ao redor do globo, mas também fornecer comunicação sem fio em todo o mundo.

Procurando testar suas ideias, Tesla construiu um laboratório em Colorado Springs. Lá, ele certa vez extraiu tanta energia que causou uma queda de energia regional. Ele também detectou sinais que alegou serem provenientes de uma fonte extraterrestre. Em 1901, Tesla persuadiu o banqueiro J.P. Morgan a investir na construção de uma torre em Long Island que ele acreditava que justificaria seu plano de eletrificar o mundo. No entanto, o sonho de Tesla não se concretizou, e Morgan logo retirou o financiamento.

Em 1909, Marconi recebeu o Prêmio Nobel pelo desenvolvimento do rádio. Em 1915, Tesla processou Marconi sem sucesso, alegando violação de suas patentes. Naquele mesmo ano, havia rumores de que Edison e Tesla dividiriam o Prêmio Nobel, mas isso não aconteceu. Especulações infundadas sugeriam que sua animosidade mútua era a causa. No entanto, Tesla recebeu inúmeras homenagens e prêmios ao longo de sua vida, incluindo, ironicamente, a Medalha Edison do Instituto Americano de Engenheiros Elétricos.

Um homem singular

Tesla era uma pessoa notável. Disse que tinha memória fotográfica, o que o ajudou a memorizar livros inteiros e a falar oito idiomas. Ele também afirmou que muitas de suas melhores ideias lhe ocorreram em um piscar de olhos e que ele viu imagens detalhadas de muitas de suas invenções em sua mente antes mesmo de começar a construir protótipos. Como resultado, ele inicialmente não preparou desenhos e planos para muitos de seus dispositivos.

O escritor Mark Twain segura uma lâmpada de vácuo experimental de Tesla, em 1894

Com 1,88 metro de altura, Tesla era uma figura arrojada e popular entre as mulheres, embora nunca tenha se casado, alegando que seu celibato desempenhou um papel importante em sua criatividade. Talvez por causa de sua doença quase fatal quando adolescente, ele temia os germes e praticava uma higiene muito rigorosa, provavelmente uma barreira para o desenvolvimento de relacionamentos interpessoais. Ele também exibia fobias incomuns, como aversão a pérolas, o que o levou a se recusar a falar com qualquer mulher que as usasse.

Tesla sustentava que suas maiores ideias vinham a ele na solidão. No entanto, ele não era um eremita, socializando-se com muitas das pessoas mais famosas de sua época em jantares elegantes que oferecia. Mark Twain frequentou seu laboratório e promoveu algumas de suas invenções. Tesla gozava da reputação não apenas de grande engenheiro e inventor, mas também de filósofo, poeta e perito. Em seu 75º aniversário, ele recebeu uma carta de congratulações de Einstein e apareceu na capa da revista “Time”.

Tesla na capa da revista “Time”, por ocasião do seu 75º aniversário
Últimos anos

Na imaginação popular, Tesla desempenhou o papel de um cientista louco. Ele afirmou ter desenvolvido um motor que funcionava com raios cósmicos; que ele estava trabalhando em uma nova física não einsteiniana que forneceria uma nova forma de energia; que ele havia descoberto uma nova técnica para fotografar pensamentos; e que ele havia desenvolvido um novo raio, alternadamente rotulado como raio da morte e raio da paz, com potencial militar muito maior do que as munições de Nobel.

Com o dinheiro perdido muito tempo atrás, Tesla passou seus últimos anos indo de um lugar para outro, deixando para trás contas não pagas. Por fim, ele se estabeleceu em um hotel em Nova York, onde seu aluguel foi pago por Westinghouse. Sempre morando sozinho, frequentava o parque local, onde era visto regularmente alimentando e cuidando dos pombos, com os quais afirmava ter uma afinidade especial.

Na manhã de 7 de janeiro de 1943, ele foi encontrado morto em seu quarto por uma empregada de hotel, aos 86 anos.

Nome em circulação

Hoje, o nome Tesla está em circulação. O aeroporto de Belgrado (Sérvia) leva seu nome, assim como o carro elétrico mais conhecido do mundo, e a força do campo magnético dos aparelhos de ressonância magnética é medida em teslas.

Tesla era um Prometeu da vida real: o titã grego mítico que invadiu o céu para levar fogo à humanidade, mas como punição foi acorrentado a uma rocha onde a cada dia uma águia comia seu fígado. Tesla escalou grandes alturas para trazer relâmpagos para a terra, mas seu raro tipo de mente e hábitos incomuns posteriormente levaram à sua queda, deixando-o sozinho e quase sem nenhum tostão.

 

* Richard Gunderman é professor titular de Medicina, Artes Liberais e Filantropia da Universidade de Indiana (EUA).

** Este artigo foi republicado do site The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o artigo original aqui.

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