No Iraque em guerra A destruição da MEMÓRIA do mundo

A Guerra do Iraque não arruína apenas um povo e uma nação do mundo contemporâneo.

Em nome de uma justificativa que hoje se sabe falsa – o arsenal de armas de destruição em massa do ditador Saddam Hussein -, os Estados Unidos e seus aliados invadiram o Iraque e depuseram o regime. O resultado foi tornar o país um caldeirão de instabilidade política (com brigas intermináveis entre muçulmanos xiitas, sunitas e curdos), facilitar a vinda de guerrilheiros extremistas islâmicos e infernizar a vida da população civil, perdida e atônita diante de atentados suicidas diários.

Essa é a parte mais visível da Guerra do Iraque. Há diversas outras em segundo plano, e uma delas significa um golpe profundo na história mundial. País que abriga a antiga Mesopotâmia, região onde começou a civilização, com sumérios, caldeus e babilônios, o Iraque está perdendo suas riquezas arqueológicas num processo de pilhagem raramente visto.

Na entrada do Museu Arqueológico de Bagdá, um tanque de guerra norteamericano vigia para impedir os saques. À direita, uma das obras de arte sumeriana guardadas no museu.

Há cerca de dez mil sítios arqueológicos no país, todos sob risco. As pilhagens ocorrem com maior intensidade no sul iraquiano, onde especialistas consideram que quase todos os locais de interesse estão nas mãos de saqueadores. Nem os museus escaparam: pelo menos 13 deles tiveram seu acervo roubado. O principal deles, o extraordinário Museu Arqueológico de Bagdá, tem de ser protegido atualmente por tanques de guerra, soldados e armas pesadas para que sejam evitados novos saques.

De acordo com a arqueóloga libanesa Joanne Farchakh (responsável por uma avaliação sobre os saques), apenas na área de Nassariyah existem em torno de 840 sítios sumérios, todos pilhados. “Eles (os saqueadores) sistematicamente destruíram os restos dessa civilização em sua insaciável busca por objetos que possam ser vendidos, cobrindo uma área estimada de 20 km2, a qual – se fosse escavada apropriadamente – poderia ter fornecido novas e abrangentes informações a respeito do desenvolvimento da raça humana”, afirma.

Joanne, que colaborou na investigação do roubo de artefatos do Museu Arqueológico de Bagdá logo após a invasão do Iraque, considera que o país poderá perder em breve todos os vestígios da história – e não se conforma com isso. “Até mesmo quando destruía uma cidade, Alexandre Magno sempre construía outra”, conta ela. “Mas agora os ladrões estão destruindo tudo porque escavam até o leito rochoso dos sítios arqueológicos.”

Em um país drasticamente empobrecido pelo conflito e sem poder central forte, não há ninguém para coibir uma atividade responsável pelo contrabando de tesouros de valor incalculável. Para as sociedades rurais iraquianas, lembra Joanne, o conceito de história como o conhecemos não existe. Importa-lhes apenas o que se refere ao passado de seus ancestrais e de sua tribo. “Assim, para eles, o ‘berço da civilização’ nada mais é do que terra do deserto com ‘campos’ de cerâmica do qual eles têm o direito de se aproveitar porque, afinal, aquela é ‘sua terra'”, explica a arqueóloga.

Peças como um selo cilíndrico, uma escultura ou um tablete com escrita cuneiforme podem valer US$ 50 – a metade do salário mensal de um funcionário público médio do governo iraquiano. Portanto, para essas pessoas, achar e vender artigos de milhares de anos não tem nada de crime arqueológico. É, na verdade, um meio de subsistência.

Após o grande saque no final de 2003, no início da Guerra do Iraque, funcionários do Museu de Bagdá levaram anos para reclassificar o imenso acervo que escapou aos roubos. Abaixo, muitas salas e depósitos do museu, como a da foto, viraram um caos pela ação dos saqueadores.

O PREPARO PARA essa atividade veio, melancolicamente, com os próprios arqueólogos. Depois da Guerra do Golfo, em 1991, eles contrataram os antigos saqueadores e lhes ofereceram salários pagos pelo governo.

O esquema perdurou enquanto os arqueólogos estavam presentes nos sítios, mas a nova guerra os levou embora, e os saqueadores agora sabiam como escavar e o que recolher. Daí a treinar os fazendeiros e os pequenos agricultores para fazer esse trabalho foi um passo simples.

Extrair e contrabandear antigüidades é uma atividade bem organizada no Iraque atual, observa o jornalista Robert Fisk, do diário britânico The Independent. “Caminhões, carros, barcos e aviões transportam o saque do território iraquiano para a Europa, os Estados Unidos, os Emirados Árabes Unidos e o Japão”, assinala.

“Os arqueólogos dizem que um número cada vez maior de sites na internet oferece artefatos mesopotâmicos, alguns com até sete mil anos de idade”, prossegue o jornalista.

Os partidos religiosos iraquianos também jogam contra a manutenção do patrimônio arqueológico do país. Joanne relata o caso de Abdulamir Hamdani, diretor de antigüidades da província de Di Qar, no sul do Iraque, que não tem medido esforços – na maioria das vezes frustrados – para evitar que as cidades enterradas sejam destruídas durante a ocupação.

Em 2006, as autoridades locais informaram a Hamdani que fora aprovada a criação de fábricas de tijolos de barro perto de sítios arqueológicos sumérios. Logo ficou evidente a intenção dos fabricantes: escavar o sítio e vender os achados importantes para comerciantes de antigüidades.

Hamdani recusou-se a assinar a autorização, e por isso políticos ordenaram à polícia local prendê-lo por corrupção. Defendido pela Comissão Estatal de Antigüidades e Patrimônio e por sua tribo, ele foi solto após três meses e reconduzido ao cargo. Temporariamente, a estratégia das “fábricas de tijolos” está congelada em Di Qar, mas já se sabe que ela está bem disseminada.

EM OUTRO EPISÓDIO, ocorrido em 2005, a alfândega iraquiana capturou vários comerciantes de antigüidades de Al Fajr e apreendeu centenas de objetos arqueológicos. No caminho para Bagdá, onde o material seria entregue a um museu, o comboio que o levava foi parado numa emboscada. Oito agentes foram mortos, e todos os objetos transportados desapareceram.

Nos laboratórios do Museu de Bagdá, preciosos pergaminhos e antigos papiros são restaurados por especialistas de renome internacional. Abaixo, as entradas e saídas do museu são permanentemente vigiadas por soldados. Mas, infelizmente, os demais sítios arqueológicos do Iraque encontram-se totalmente desprotegidos e são alvos constantes dos saqueadores.

A catástrofe causada pela indústria da pilhagem é ainda ampliada pelas operações militares. Desde abril de 2003, os norte-americanos não se acanharam em erguer bases em sete sítios históricos, como Ur e Babilônia. Na primeira, a capital suméria criada por volta de 4000 a.C. e lar do profeta Abraão, o peso dos veículos militares está rachando muros milenares.

“É como pôr um sítio arqueológico sob um terremoto contínuo”, compara a arqueóloga iraquiana Zainab Bahrani, da Columbia University. Ela chegou a uma conclusão semelhante no segundo caso: “O dano causado à Babilônia é extensivo e irreparável, e, mesmo se as forças norte-americanas quisessem protegê-la, colocar guardas em torno do sítio teria sido muito mais sensato do que aplainá-lo e construir ali o maior quartel-general da coalizão na área.”

Joanne Farchakh prevê tempos sombrios, caso a situação permaneça assim. “Quanto mais tempo o Iraque estiver em estado de guerra, mais o berço da civilização estará ameaçado. Ele pode não durar nem até a época de nossos netos começarem a aprender a seu respeito.”

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