Nova técnica revela tela perdida de Picasso

Técnica de aprendizado de máquina reconstrói pintura do artista espanhol que está por baixo de “O Velho Violonista Cego”, com as cores e o estilo que Picasso usava na época

A "Mulher Perdida" pintada por Picasso: obra recriada com nova técnica de aprendizado de máquina. Crédito: University College London

Já se sabia há bastante tempo que “O Velho Violonista Cego”, uma das principais telas da Fase Azul (1901-1904) de Pablo Picasso, ocultava um rosto feminino. Em 1998, o quadro foi fotografado com raios X e luz infravermelha pelo Art Institute de Chicago (EUA), onde ele está exposto, e a imagem resultante revelou de fato uma mulher sentada apoiada sobre seu braço esquerdo.

Os pesquisadores então combinaram essa pintura com uma composição que Picasso havia esboçado em uma carta a um colega na época. A descoberta causou sensação no mundo da arte.

Trabalhos feitos por baixo das pinturas conhecidas são comuns, em especial quando os artistas têm dificuldade para comprar as telas. Esse era o caso de Picasso nos primeiros anos do século 20, quando passou por um período de penúria em Paris.

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Como mostram apenas os contornos mais fracos, as imagens de infravermelho e raio X servem para inferir a quantidade de tinta usada pelo artista, mas não mostram cor nem estilo. Hoje, porém, novos recursos já permitem reconstruir essas pinturas de maneira mais realista.

Primeira reconstituição

Foi o que fizeram Anthony Bourached e George Cann, do University College London (UCL). Recorrendo a uma técnica de aprendizado de máquina chamada transferência de estilo neural (desenvolvida em 2015 por pesquisadores da Universidade de Tübingen, na Alemanha), eles reconstituíram em cores pela primeira vez a pintura perdida de Picasso. Sua abordagem encaixa a pintura na Fase Azul do artista.

Roteiro visual do trabalho de reconstrução da obra, segundo os pesquisadores do UCL. Crédito: University College London

“Apresentamos um novo método para reconstruir obras de arte perdidas, através da aplicação de transferência de estilo neural para raios X de obras de arte com obras secundárias internas sob um exterior primário, para reconstruir obras perdidas”, explicam Bourached e Cann em um texto intitulado “Caçadores da Arte Perdida”.

Naturalmente, é impossível saber se Picasso pintou a imagem da maneira apresentada pelos pesquisadores do UCL. Segundo Bourached e Cann, seu objetivo é simplesmente ampliar o entendimento das intenções, erros e reflexões de um artista, reconstruindo obras de arte escondidas sob camadas de tinta.

“Nosso método de combinar obras de arte originais, porém ocultas, contribuições humanas subjetivas e transferência no estilo neuronal ajuda a ampliar a compreensão do processo criativo de um artista”, afirmam os pesquisadores.

Esta não é a única imagem perdida que eles recuperaram. A equipe também reproduziu uma imagem que se acredita ter sido criada pelo artista espanhol Santiago Rusiñol e posteriormente pintada por Picasso em 1904.