Novas evidências aumentam mistério em torno dos denisovanos

Os humanos modernos não cruzaram com espécies cujos vestígios foram encontrados em ilhas do Sudeste Asiático – mas a ancestralidade denisovana na região é alta

Réplica de crânio de Homo erectus encontrado em Java: sem traços de cruzamento com a espécie humana moderna. Crédito: Trustees of the Natural History Museum

Um grupo internacional de pesquisadores liderados pela Universidade de Adelaide (Austrália) conduziu uma análise genética abrangente e não encontrou nenhuma evidência de cruzamento entre os humanos modernos e os humanos antigos conhecidos a partir de registros fósseis em ilhas do Sudeste Asiático. Eles encontraram mais evidências de DNA de nossos misteriosos primos ancestrais, os denisovanos. Isso pode significar que há grandes descobertas por vir na região. Seu estudo foi publicado na revista “Nature Ecology and Evolution”.

Os pesquisadores examinaram os genomas de mais de 400 humanos modernos para investigar os eventos de cruzamento entre humanos antigos e populações humanas modernas que chegaram às ilhas do Sudeste Asiático entre 50 mil e 60 mil anos atrás. Em particular, eles se concentraram na detecção de assinaturas que sugerem cruzamento de espécies profundamente divergentes conhecidas do registro fóssil da área.

A região contém um dos mais ricos registros fósseis (de pelo menos 1,6 milhão de anos) documentando a evolução humana no mundo. Atualmente, existem três humanos antigos distintos reconhecidos a partir do registro fóssil na área: Homo erectus, Homo floresiensis (conhecido como hobbits da Ilha Flores) e Homo luzonensis.

Altos níveis de ancestralidade

Sabe-se que essas espécies sobreviveram até aproximadamente 50 mil-60 mil anos atrás, nos casos do Homo floresiensis e Homo luzonensis, e aproximadamente 108 mil anos, no Homo erectus. Isso significa que podem ter se sobreposto com a chegada das populações humanas modernas.

Os resultados do estudo não mostraram evidências de cruzamento. No entanto, a equipe conseguiu confirmar resultados anteriores que mostram altos níveis de ancestralidade denisovana na região.

O autor principal e pesquisador associado do Conselho de Pesquisa Australiano (ARC) na Universidade de Adelaide, dr. João Teixeira, disse: “Ao contrário dos nossos outros primos, os neandertais, que têm um extenso registo fóssil na Europa, os denisovanos são conhecidos quase exclusivamente pelo registro de DNA. As únicas evidências físicas da existência denisovana são um osso de dedo e alguns outros fragmentos encontrados em uma caverna na Sibéria e, mais recentemente, um pedaço de mandíbula encontrado no planalto tibetano.”

Teixeira prosseguiu: “Sabemos por nossos próprios registros genéticos que os denisovanos se misturaram com humanos modernos que vieram da África 50 mil-60 mil anos atrás, tanto na Ásia quanto enquanto os humanos modernos se moviam através das ilhas do Sudeste Asiático em seu caminho para a Austrália. (…) Os níveis de DNA denisovano em populações contemporâneas indicam que um cruzamento significativo aconteceu nas ilhas do Sudeste Asiático.”

Janela importante para a evolução humana

“O mistério então permanece: por que não encontramos seus fósseis ao lado de outros humanos antigos na região? Precisamos reexaminar o registro fóssil existente para considerar outras possibilidades?”, perguntou-se o pesquisador.

O coautor Chris Stringer, do Museu de História Natural de Londres, acrescentou: “Embora os fósseis conhecidos de Homo erectus, Homo floresiensis e Homo luzonensis possam parecer estar no lugar e na hora certos para representar os misteriosos ‘denisovanos do sul’, seus ancestrais provavelmente estiveram nas ilhas do Sudeste Asiático pelo menos 700 mil anos atrás. O que significa que suas linhagens são muito antigas para representar os denisovanos que, a partir de seu DNA, eram mais intimamente relacionados aos neandertais e aos humanos modernos”.

Outro coautor, o professor Kris Helgen, cientista-chefe e diretor do Australian Museum Research Institute, disse: “Essas análises fornecem uma janela importante para a evolução humana em uma região fascinante e demonstram a necessidade de mais pesquisas arqueológicas na região entre a Ásia continental e Austrália.”

Duas possibilidades empolgantes

Helgen prosseguiu: “Esta pesquisa também ilumina um padrão de sobrevivência ‘megafaunal’ que coincide com áreas conhecidas de ocupação humana pré-moderna nessa parte do mundo. Grandes animais que sobrevivem hoje na região incluem o dragão-de-komodo, o babirussa (um porco com notáveis ​​presas voltadas para cima), e os tamaraos e anoas (pequenos búfalos selvagens). Isso indica que a exposição de longo prazo à pressão da caça por humanos antigos pode ter facilitado a sobrevivência da espécie megafaunal em contatos subsequentes com humanos modernos. Áreas sem ocorrência humana pré-moderna documentada, como Austrália e Nova Guiné, viram a extinção completa de animais terrestres maiores que os humanos nos últimos 50 mil anos.”

Teixeira acrescentou: “A pesquisa corrobora estudos anteriores de que os denisovanos estiveram nas ilhas do Sudeste Asiático e que os humanos modernos não se cruzaram com grupos humanos mais divergentes na região. Isso abre duas possibilidades igualmente empolgantes: ou uma grande descoberta está a caminho, ou precisamos reavaliar o registro fóssil atual das ilhas do Sudeste Asiático. Seja qual for a maneira que você escolher para olhar para as coisas, tempos emocionantes estão à frente na paleoantropologia.”

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