Novo detalhe bizarro do aie-aie de Madagascar: seis dedos em cada mão

Além de orelhas como as de morcego e dedos diferenciados, esse lêmure tem um “pseudopolegar” cuja função é motivo de debate

Aie-aie: decididamente, um animal incomum. Crédito: nomis-simon/Wikimedia

O aie-aie é uma das criaturas mais fascinantemente bizarras da natureza. Nativo de Madagascar, esse lêmure é o maior primata noturno do mundo e possui características únicas que o diferenciam. Possui orelhas como as de morcego que permitem fazer ecolocalização e incisivos até maiores que de roedores – ambos únicos entre os primatas.

Ele é mais famoso por seus dedos excepcionalmente longos e magros. Na verdade, esses dedos são tão longos que a mão do aie-aie representa cerca de 41% do comprimento total do membro anterior.

Esses animais também têm terceiros dedos extremamente longos e altamente especializados – dedos do meio, se quiser – que eles usam para encontrar comida. Eles os “batem” na madeira para gerar reverberações acústicas que lhes permitem encontrar larvas que perfuram a madeira. Estas são capturadas com uma destreza excepcional, porque o dedo pode girar como um ombro, e é tão fino que o animal habitualmente o repousa sobre o seu quarto dedo, ainda mais longo, para apoio.

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Meus colegas e eu descobrimos recentemente outra especialização única que diferencia o aie-aie de outros primatas: um sexto dedo em cada mão.

Antes não documentado, esse pequeno dedo extra – chamado de “pseudopolegar” – é uma estrutura em cada pulso feita de osso e cartilagem. Pensamos que ele pode ter evoluído para ajudar o lêmure a agarrar os galhos enquanto sobe pelas árvores e para agarrar objetos pequenos, já que seus outros dedos se tornaram tão longos e especializados.

A descoberta

Nos meus estudos com primatas, eu sempre quis examinar a estrutura excepcional das mãos dos aie-aies e recentemente pude dissecar algumas amostras para fazê-lo.

Pouco se sabe sobre o tamanho real da população de aie-aies, mas eles são difíceis de encontrar e uma perda em grande escala de seu habitat sugere declínio da população.

Meus colegas e eu dissecamos seis espécimes adultos e um espécime jovem. Obviamente, nenhum animal foi sacrificado para os propósitos desse estudo. Três espécimes foram criados em cativeiro, adquiridos no Duke Lemur Center nos EUA. Três eram adultos nascidos na natureza, alojados nas coleções do Muséum National d’Histoire Naturelle, em Paris. Um deles era um adulto nascido na natureza do Parque Botânico e Zoológico de Tsimbazaza, em Anatananarivo, em Madagascar.

Dissecações foram realizadas para analisar a anatomia da mão e do punho. Uma sétima amostra foi usada para criar uma reconstrução digital dessas estruturas anatômicas após a ressonância magnética e a segmentação manual – uma técnica semelhante a uma varredura médica que permite que a anatomia seja vista em três dimensões em um espaço digital.

Nossa descoberta do dedo extra foi praticamente acidental. À medida que identificamos o tendão de um dos músculos do antebraço para baixo após o pulso e na mão, vimos que ele inesperadamente se dividia em duas direções e o pedaço menor se estendia para uma estranha estrutura pouco perto do polegar.

Vista das estruturas do pseudopolegar em: (a) volume de ressonância magnética da mão direita do aie-aie; (b) superficial; (c) dissecções profundas. Azul = tendão do palmar longo. Crédito: Adam Hartstone‐Rose

Quando examinamos mais a estrutura, notamos um pequeno osso e uma extensão cartilaginosa que eram movidos em direções diferentes por três músculos diferentes. Percebemos que a pequena estrutura era um “pseudopolegar”. Tinha até sua própria impressão digital!

Todas as amostras de aie-aies observadas durante o curso desse estudo exibiram esse conjunto completo de estruturas anatômicas em cada mão: não é apenas uma anomalia, mas é claramente uma característica típica da espécie.

Por que o dedo extra?

É um tanto misterioso que ninguém tenha notado o dedo antes, mas isso pode ser porque ele está embutido na parte carnuda da mão e, portanto, é fácil deixar de notá-lo. Também poderia ser que os longos dedos chamam tanto a atenção que os anatomistas simplesmente nunca notaram essa pequena estrutura.

Coletivamente, os músculos associados ao pseudopolegar do aie-aie são posicionados para permitir adução (movendo-o em direção ao polegar), abdução (afastando-o do polegar) e oposição (movendo-o pela palma da mão em direção ao dedo mindinho). Essencialmente, ele se move da mesma maneira que o polegar real.

Meus colegas e eu propomos que haja três cenários evolutivos para o porquê do pseudopolegar.

Primeiramente, um pseudopolegar pode aparecer em espécies nas quais o polegar se tornou apenas mais um dedo. Foi o que aconteceu nos primeiros ursos: eles perderam a necessidade de um polegar grudado ao dedo do meio, pois isso só atrapalhava o caminhar do animal.

Em segundo lugar, pseudopolegares podem surgir se o animal precisar de mãos realmente amplas para cavar ou nadar – como no caso de algumas toupeiras.

Por fim, um pseudopolegar pode se desenvolver quando a mão se torna hiperespecializada e na qual a evolução de um pseudopolegar pode facilitar uma maior destreza manual. Esse cenário parece explicar a presença de um pseudopolegar dentro do aie-aie.

Sugerimos que as adaptações para buscar comida da mão do aie-aie resultaram na perda da destreza da empunhadura e, portanto, o pseudopolegar pode ajudar a resolver isso.

 

* Adam Hartstone-Rose é professor associado de Ciências Biológicas da Universidade Estadual da Carolina do Norte (EUA)

 

Este artigo foi republicado do site The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o artigo original aqui.