O Brasil na imprensa alemã (27/01)

Mídia da Alemanha aborda a gestão da pandemia de covid-19 pelo governo brasileiro e os protestos populares contra Bolsonaro. Tragédia de Brumadinho também tem destaque.Der Spiegel – Sabotagem de cima (23/01)

Enquanto a segunda onda do coronavírus varre o país com furor, Jair Bolsonaro fomenta dúvidas quanto às vacinações. Como salvar o Brasil de seu presidente?

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Ao longo de meses, Bolsonaro fizera de tudo para minar a confiança na “vacina chinesa de João Doria”. A melhor proteção, disse ainda em dezembro, é se expor à doença. Por último, contudo, quando a pressão pública se tornou grande demais, depois que o clamor por um impeachment voltou a ficar mais alto, ele mudou de discurso.

Bolsonaro queria fazer parecer que ele próprio tinha trazido a vacina para o país. Por isso, a maior crise humanitária da história do Brasil se transformou numa briga particular com seu rival mais perigoso.

A vacinação de [enfermeira do Hospital das Clínicas de São Paulo Mônica] Calazans foi o fim provisório de um bizarro showdown entre o presidente e um poderoso governador. Contudo os verdadeiros problemas estão apenas começando. Nestes dias em que começam as vacinações, o Brasil dispõe de exatos 6 milhões de doses prontas para a aplicação do imunizante Coronavac, da farmacêutica chinesa Sinovac.

Cientistas brasileiros avaliaram em pouco mais de 50% a eficácia da droga, bem abaixo da de outras, como por exemplo a vacina da firma alemã BioNTech. Até abril, o governo brasileiro pretende elevar para 46 milhões de doses seu estoque de Coronavac. Em julho deverão chegar cerca de 100 milhões de doses da vacina da AstraZeneca, se as matérias-primas para produção forem entregues como planejado.

Além de que isso não basta para uma população de 211 milhões, até o momento não existe nenhum plano detalhado para distribuição pelo país das doses disponíveis. Ninguém sabe ao certo qual será a sequência, nem se haverá injeções suficientes.

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Como combater uma pandemia, se o homem que deveria liderar essa luta é um adepto de teorias de conspiração e não tem a menor intenção de lutar?

Tampouco João Doria, o governador de São Paulo, sabe responder a essas perguntas. “Ele não tem empatia”, diz ao telefone, referindo-se a Bolsonaro. “Acho que ele não entende o que essa pandemia significa, no cerne.”

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Semelhante a um vírus, Bolsonaro se alimenta das crises que ele próprio cria. O caos, o ódio e o “ser do contra” fazem tão parte de sua identidade, que muitos brasileiros interpretaram as imagens da invasão do Capitólio, em Washington, como um sinistro vislumbre de seu próprio futuro. De início, Bolsonaro se calou. E então comentou que no Brasil a coisa pode ser pior ainda, caso haja dúvidas sobre o resultado da próxima eleição.

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Essa é a essência da imagem de mundo de Bolsonaro, em que cada indivíduo arca com a responsabilidade pela própria sobrevivência. O fato de os mais fracos ficarem pelo caminho não é uma inconveniência para ele. A utilidade de uma pandemia é ser uma espécie de seleção natural. Do ponto de vista da sociedade – assim o veem Bolsonaro e seus ministros – trata-se de um processo de limpeza.

Essa é a principal razão do desinteresse de Bolsonaro numa vacinação em massa. Por isso, seus adversários protestam novamente com mais frequência, batendo panelas em suas varandas. Eles o chamam de fascista, que em meio à pandemia aumenta a taxa de importação sobre o oxigênio e corta a sobre as armas.

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Die Tageszeitung – Queixa contra a TÜV Süd (25/01)

No segundo aniversário da catástrofe de Brumadinho, os processos contra os responsáveis se arrastam. Outras barragens ameaçam a região.

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O estado brasileiro de Minas Gerais tem centenas de minas. O minério de ferro lá extraído para fabricação de aço vai para todo o mundo. Quando, naquele dia de janeiro de 2019, a barragem em Brumadinho se rompeu, uma mistura letal de 12 milhões de metros cúbicos de água, rejeitos e lama se abateu sobre casas e moradores.

Assim como outras minas, a de Brumadinho era também operada pela Vale S.A., a maior exportadora de ferro do mundo. Onze de seus representantes respondem a processo no Brasil por homicídio doloso e graves infrações ambientais. Estão também sendo acusados cinco funcionários de uma outra empresa: a TÜV Süd.

Pois quatro meses antes do rompimento, uma sucursal da firma alemã classificara a barragem como estável, apesar de sérias considerações de segurança. Do auto de acusação do Ministério Público brasileiro consta ter havido um conflito de interesses, já que a TÜV Süd tinha outros contratos e negociações com a Vale para atividades internas de consultoria.

A certificadora alemã teria expedido um atestado de favor, para deixar a cliente contente e não perder contratos? Mara Pricoco, da TÜV Süd rechaça a imputação como “infundada”, explicando que a multinacional não arca com qualquer responsabilidade jurídica pelo rompimento da barragem. O certificado de estabilidade expedido teria “obedecido as leis e normas brasileiras em vigor na época”.

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Em outubro de 2019, cinco vítimas brasileiras apresentaram também na Alemanha queixa contra a certificadora alemã, juntamente com o Centro Europeu de Direitos Constitucionais e Humanos (ECCHR) e a organização humanitária Misereor. […] A Promotoria Pública de Munique avalia no momento se será aberto processo.

“Como a TÜV Süd é uma empresa alemã, ela deve ser responsabilizada também aqui”, afirma Claudia Müller-Hoff, do ECCHR. E acrescenta que a Alemanha tem ligações estreitas com a indústria de mineração do Brasil.

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Süddeutsche Zeitung – Cafezinho e arruaça (26/01)

Na Holanda e em Israel os cidadãos protestam contra as medidas governamentais anti-coronavírus. No Brasil, manifestantes exigem um processo de impeachment contra o presidente Bolsonaro.

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Também no Brasil houve protestos nos últimos dias, em parte de grande porte. No domingo, pelo segundo dia seguido, milhares exigiram a destituição do presidente Jair Bolsonaro. Desde o começo da pandemia, o político de direita tem sempre minimizado os perigos da covid-19.

Quase 9 milhões de brasileiros já se infectaram, mas de 200 mil morreram, em muitos locais a situação é tensa, e na metrópole amazonense Manaus o sistema de saúde entrou em colapso. Pacientes têm que se evacuados, falta oxigênio para respiração artificial. Paralelamente, não se dá a partida para a campanha nacional de imunização, o governo até mesmo adverte contra os efeitos colaterais de certas vacinas.

Em meio a esse caos, voltam a se inflamar os protestos que, já no início da pandemia, levaram dezenas de milhares de cidadãos de todo o país a se postarem nas janelas de seus apartamentos ou nas varandas para fazer barulho contra o governo, com frigideiras, panelas e colheres de pau.

Além disso, no fim de semana carreatas atravessaram as metrópoles do país. Os manifestantes seguravam para fora das janelas dos automóveis faixas onde se lia “Fora Bolsonaro” e “Impeachment já”. Pela primeira vez, não só grupos de esquerda convocaram os protestos, mas também partidos conservadores que até agora apoiavam o presidente.

Um processo de destituição presidencial ter êxito, contudo, é no momento antes improvável. Bolsonaro goza altos índices de aprovação.

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