O Chip da Moda

Os implantes subcutâneos de hormônio - mais conhecidos como chips - ganham destaque pelos resultados estéticos obtidos por algumas mulheres.

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Muitas vezes se evita tomar uma medicação devido às suas contraindicações. Poucos são os casos, entretanto, em que os possíveis efeitos colaterais acabam se tornando atrativos e ofuscando os propósitos originais do remédio. É o que acontece com os implantes hormonais – mais conhecidos como “chips da beleza”. Com frequência eles ganham espaço na mídia com declarações de usuárias que perderam peso, viram as celulites diminuir e a massa muscular aumentar, potencializando também a libido. Entre as adeptas da moda dos chips subcutâneos destacam-se as frequentadoras assíduas de academia, modelos e manequins.

Apesar de resultados propagados, o uso é controverso. Entidades médicas questionam a real eficácia de coquetéis de hormônios para fins estéticos, principalmente pela ausência de estudos científicos nesse sentido. E alertam para possíveis efeitos colaterais negativos do método criado décadas atrás como anticoncepcional e que hoje é usado em diversas frentes.

O método

Os chips são tubinhos flexíveis, de três milímetros de diâmetro e três centímetros de comprimento, feitos para ser implantados por baixo da pele, no braço ou na nádega. Cada um contém uma dose fixa – em torno de 1 mg – liberada diariamente na corrente sanguínea, durante um ano ou mais. Há seis tipos de chips, cada qual com um hormônio: elcometrina, nomegestrol, gestrinona, estradiol, testosterona e progesterona.

A paciente recebe a quantidade de tubinhos de cada hormônio necessária para somar à dose e à combinação indicadas no seu caso. Existem no mercado tubinhos de silicone e tubos biodegradáveis. Esses funcionam como uma injeção, porque a cápsula desmancha e seu conteúdo fica depositado no corpo. Em caso de uma reação negativa do organismo, não é possível retirá-lo. Já os de silicone podem ser retirados por profissionais devidamente treinados. Os tubinhos de silicone custam de R$ 200 a R$ 800, e a isso se soma o valor da consulta e da aplicação.

A vantagem do chip é introduzir a medicação diretamente na corrente sanguínea. Dessa forma, as doses de hormônio podem ser menores do que a dos anticoncepcionais orais, porque não passam pelo fígado nem pelo estômago. Além disso, ele evita que as mulheres esqueçam de tomar a medicação, garantindo um resultado mais efetivo. “O implante é a pílula moderna. Mas é preciso ter uma indicação médica para usar; eu não colocaria um implante numa paciente para combater celulite”, afirma o dr. Malcolm Montgomery, uma das referências na área e autor de nove livros sobre a saúde e o comportamento feminino.

O médico lamenta que o preço do produto restrinja o tratamento à elite, mas destaca que, além de anticoncepcional, hoje os chips de hormônio possuem diversas aplicações. Eles tratam e previnem problemas como ovário policístico e endometriose, protegendo a fertilidade da mulher; também são usados contra a osteoporose (perda óssea); anemia feminina (por excesso de perda de sangue); baixa libido; cólica e enxaqueca da TPM (tensão pré-menstrual); menstruação precoce; convulsões (nos casos de síndrome de Down) e reposição hormonal – no climatério, na menopausa e na andropausa.

A modelo Bianca Klamt, por exemplo, está há meses consultando as experiências de colegas e amigas que usam implante para decidir se adota ou não o método como anticoncepcional. “Descobri que algumas meninas tiveram ótimos resultados estéticos, mas outras tiveram péssimas experiências com os chips.” Já a atriz Carla Regina Cabral, que interpreta Bila em José do Egito, minissérie da TV Record, se convenceu a adotar os implantes para suspender a menstruação ao ver a mudança nas pacientes tratadas pelo namorado, o ginecologista dr. Montgomery.

“Chipada” há seis anos, Carla Regina comemora que desde então não sente mais nada e que não teve efeitos negativos. “Eu ficava extremamente inchada, tinha muita enxaqueca, variação brusca de humor e enjoo. Ficava debilitada mesmo, atrapalhava muito no trabalho. Eu tomava anticoncepcional oral antes, mas não tratava a parte médica dos problemas que a menstruação me trazia”, conta. Ela percebeu ainda que o corpo ficou mais durinho, com menos celulite.

“É importante destacar que o implante subcutâneo é uma das vias possíveis para contracepção, reposição hormonal e outros tratamentos. “Para reposição hormonal, por exemplo, existem outras opções como os géis e os adesivos, que também não passam pelo fígado e costumam causar menos efeitos indesejáveis, quando comparados com as medicações por via oral”, afirma a Dra. Dolores Pardini, diretora do Departamento de Endocrinologia Feminina e Andrologia da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia de São Paulo.

Entre os efeitos colaterais negativos identificados nas usuárias dos chips estão voz grossa, pele oleosa, aumento de pelo, além do maior risco de aumento da pressão e tromboembolismo, em pessoas pré-dispostas. Na clínica da Dra. Dolores já chegaram pacientes insatisfeitas com os implantes. “Mas elas desconheciam o conteúdo das cápsulas, porque não tinham a bula do composto implantado. Por isso não recomendo os manipulados. Os remédios industrializados têm essa vantagem: passam por maior controle de qualidade”, diz.

Particularidades locais

No Brasil, o uso dos implantes ganha especial proporção porque, além dos chips importados – como o Implanon, da Organon –, existem os implantes preparados pela farmácia de manipulação do endocrinologista Elsimar Coutinho, em São Paulo. Formado em farmácia e depois em medicina pela Universidade Federal da Bahia, Coutinho atua com reprodução humana há cerca de 50 anos. Durante sua carreira, desenvolveu anticoncepcionais masculinos e femininos e reclama para si a autoria desses implantes. “Eu criei o implante quatro décadas atrás e não pude patentear.”

De fato, a primeira lei de patentes robusta do Brasil data de 1996 – antes disso existiu o Código de Propriedade Industrial de 1971, que previa o patenteamento de produtos e de processos, com exceção de alimentos, produtos farmacêuticos, ligas metálicas e microrganismos.

“Atendo de 20 a 30 pacientes por dia e 90% da minha clientela usa o implante para questões médicas. Minhas pacientes querem parar de menstruar. Sou precursor da ideia de que a mulher
pode escolher não menstruar, porque isso é um desperdício de sangue precioso que elas podem usar em doação”, argumenta. Mas explica que alguns hormônios, como a testosterona e a gestrinona (que é anabolizante de proteína), podem gerar efeitos estéticos, pois facilitam o desenvolvimento de músculos e a queima de gordura. “Eu pessoalmente não uso na área de beleza porque não sou esteticista. Mas os implantes poderiam ser indicados para estética, contanto que o médico lembre que seu primeiro dever é não fazer mal. Usar medicação para estética pode fazer mal. Além do que a beleza é muito subjetiva, vai da moda”, argumenta.

O Conselho Regional de Medicina de São Paulo também não recomenda o uso de implantes hormonais para fins estéticos, uma vez que se desconhecem muitas reações e os riscos para algumas doenças poderiam aumentar. A indicação de hormônios para a finalidade estética de conter o envelhecimento, aliás, está proibida pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) desde outubro passado. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) não aprova a comercialização de gestrinona e elcometrina em farmácias. Mas é permitido importar os sais para fabricação de produtos no Brasil.

Apesar das advertências, não faltam interessadas em colocar o corpo em forma para os padrões de beleza atuais. “Existem dezenas de trabalhos no Brasil e no exterior sobre o uso anticoncepcional dos implantes. Mas não há trabalhos científicos sobre os efeitos estéticos”, destaca Dolores. A classe médica teme que o “bem-estar” das mulheres com implantes tenha um efeito próximo ao dos anabolizantes usados nas academias, que cobram seu preço mais tarde.

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