O desafio do reflorestamento

Foto: arquivo pessoal

Há cerca de 25 anos fui convidada a trabalhar para a Associação Nordesta Reflorestamento & Educação. Essa organização não governamental foi fundada em Genebra, Suíça, em 1985, com o objetivo de salvar uma floresta nordestina, situada entre Alagoas e Pernambuco. Fui designada para trabalhar na área social e fiquei ali por 30 dias; logo depois, fui promovida a coordenadora do setor socioambiental.

Foi uma época muito difícil, de mudança para uma área bem diferente, mas aceitei o desafio. A primeira atividade­ sob minha direção foi o lançamento do projeto Efeito Multiplicador em 14 Estados, simultaneamente. O grande sucesso dele nos levou a fundar a ONG Nordesta Brasil.

Naquela época, tudo era complicado nessa área. Não se falava em reflorestar nascentes ou margens de rios. Quando propúnhamos o reflorestamento aos proprietários – e de forma gratuita –, eles logo pensavam que iría­mos nos apossar das suas terras e desistiam. Tivemos um intenso trabalho para explicar que não queríamos a terra; fornecíamos um documento atestando isso. Esclarecíamos dúvidas sobre o Código Florestal e explicávamos que nossa atividade os beneficiaria no futuro, pois, de uma forma ou de outra, eles teriam de recuperar essas áreas. Também falamos sobre o problema da falta de água e o que mais ouvíamos dos fazendeiros era: “Não, a água não acaba nunca, sempre fizemos dessa forma”.

Com um trabalho intenso de conscientização ambiental, conseguimos aos poucos reverter esse cenário, direcionando nossos esforços – principalmente a partir de 2003 – para a bacia do rio São Francisco, que se encontrava intensamente degradada por décadas de exploração intensa e sem critérios.

De início fizemos projetos menores, para pequenas áreas. Em 2006, criamos nosso primeiro projeto de grande porte, e três anos depois fechamos com um importante parceiro, o Grupo Accor Hotels. Essa parceria continua até hoje e vem apresentando excelentes resultados, com mais de 500 mil mudas plantadas e uma área recuperada equivalente a 390 campos de futebol.

Em contraposto à dificuldade inicial para conseguirmos áreas para plantio, hoje existe uma grande demanda de proprietários interessados em recuperar suas­ áreas. Um fator que contribuiu para essa mudança de atitude foi uma grande seca que atingiu o Sudeste do Brasil nos últimos anos. Muitas das propriedades rurais dessa região ficaram com pouca ou nenhuma água, e aquela frase tão ouvida, “a água não acaba nunca, sempre fizemos dessa forma”, parou de ser dita. Os fazendeiros ficaram assustados e mais interessados pelas causas ambientais.

Outra decisão importante para o sucesso foi a de montar nosso próprio viveiro. Anteriormente as mudas eram adquiridas de viveiros terceirizados, inclusive de outras regiões do país, que nem sempre eram de boa qualidade – as perdas chegaram a ultrapassar 40%. Além disso, um aspecto que nos preocupava muito era a preservação da genética local: um erro nesse caso poderia acarretar um problema ambiental.

Desde a fundação das ONGs Nordesta e Nordesta Brasil, já plantamos mais de 5 milhões de árvores e recuperamos cerca de mil nascentes e 3 mil hectares de terras. Hoje temos vários parceiros, dentre os quais a agência Pur Projet, o Grupo Accor, a Metal Light Gôndolas, a linha de sabonetes Ushuaia, da L’Oreal, e a Coo­perativa de Cafeicultores em Guaxupé (Cooxupé), além de diversas instituições de proteção ambiental, nacionais e internacionais. M

Neuza Falco Galvão, assistente social de formação, é presidente da Nordesta Brasil, sediada em Arcos (MG)

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