"O grande valor do design é poder criar um futuro melhor"

Maior expoente em gestão de design da Finlândia, Koria considera que o grande valor de sua atividade está na criação de um futuro melhor.

É grande a chance de o jogo de copos que você usa no dia a dia ser finlandês ou inspirado no design da Finlândia, país que ocupa o primeiro lugar do Índice de Prosperidade Legatum de 2009, baseado no desempenho econômico e na qualidade de vida. A Fiskars, maior grupo empresarial desse país nórdico, que soa distante e tem temperatura de zero grau no final de março, começou produzindo uma tesoura há 360 anos que determinou o desenho do cortante indispensável. O celular Nokia e o SMS (Short Message Service) também combinam tecnologia e design made in Finland.

O maior expert em gestão de design desse país que há 60 anos contribui criando e reformulando inúmeros objetos de nosso cotidiano, o professor , finlandês, naturalmente, esteve no Brasil. Arquiteto de formação, professor de economia e gestão do design, Koria leciona business voltado ao design na Aalto University (www.aalto.fi), criada em janeiro último: “Unificamos a Universidade de Tecnologia, a Helsinki School of Economics e a Universidade de Design de Helsinque, que tem mais de 138 anos, para fundar a Alto University com foco em promover e unificar design, tecnologia e business. É uma nova área chamada service design.” A universidade homenageia o maior arquiteto e designer do país, Aalvar Alto (1898-1976), um dos papas da estética utilitária despojada, que já na década de 1930 havia criado alguns ícones aclamados até hoje, baseados no diktat da Bauhaus: a forma segue a função.

“Em 2012, Helsinque será a capital do design mundial”

WISA Wooden Design Hotel, em Helsinque, arquitetura de Pieta-Linda Auttila

Simpático, ele diz rindo que nasceu onde “onde Judas perdeu as botas”, mas se tornou um homem do mundo. Nos anos 1970, sua família se mudou para o Brasil (“meu pai trabalhava na Jaakko Poyry, maior multinacional finlandesa na área de engenharia”) e Koria cursou três anos de Faculdade de Arquitetura na FAU, em São Paulo. Sem sotaque, diz: “Também morei em Portugal, Moçambique, Espanha, Sri Lanka, Nigéria. Vivi 12 anos em países lusófonos com a família e depois profissionalmente. A cada quatro anos visito o Brasil, tenho muitos amigos aqui.”

Sobre o assunto que domina, revela: “Atualmente, o grande valor do design é poder criar um futuro melhor. Na Finlândia, design não é somente o objeto utilitário. Com design podemos desenvolver produtos inovadores que prestam serviços, criam bem-estar social e ajudam o meio ambiente. Entramos na era do service design, na qual o design está incorporado a todas as atividades da sociedade. Hoje é fundamental pensar ao redor dos produtos. Essa é a grande inovação: o que o raciocínio finlandês tem a oferecer à sociedade atual.”

Helsinque será eleita a capital do design mundial em 2012. Na ocasião, haverá uma série de eventos, exposições e debates sobre esta área que a Finlândia lidera e tem no professor Koria um de seus mentores contemporâneos.

“As indústrias sofisticadas não vendem mais apenas o produto, vendem o benefício”

O celular N97 mini-gold da Nokia

O que é service design?

É uma ferramenta abrangente de serviço de sistemas que propicia enormes benefícios para a sociedade. O service design se baseia na ideia de colocar o designer, o engenheiro e o empresário na mesma mesa para criar uma plataforma com competências multidisciplinares com approach sistêmico e holístico. O conceito surgiu na Europa do norte há uns anos e hoje, está na ordem do dia. Na Finlândia, estamos investindo e focando cada vez mais em service design com o objetivo de unir as áreas de design, tecnologia e business, antes vistas como áreas distintas, sem intercomunicação. Já estamos criando cursos de pós-graduação nessa novíssima área.

Explique mais sobre essa nova feição do design contemporâneo.

Na Finlândia, design tem um conceito mais amplo. Já passamos do estágio em que significava apenas o desenho de um objeto utilitário. Hoje, para nós, o design de objetos significa apenas 1/8 deste setor. Estamos voltados para o design que envolve o desenho de produtos de serviços e sistemas. É um design de altíssima tecnologia, embutido em sistemas que não se veem a olho nu e que custa milhões de dólares. Por exemplo, o sistema de comunicação que está atrás do iPhone inclui patentes da Nokia (tradicional marca finlandesa). A grande revolução tecnológica é essa, a dos produtos que oferecem serviços, como faz o celular.

Quando pensamos em um celular como o Nokia, estamos comprando um telefone? Não! O que estamos adquirindo é um serviço de comunicação. As indústrias sofisticadas não vendem mais apenas o produto, vendem o benefício. Outro exemplo de service design é o Imposto de Renda. Na Finlândia, ninguém faz seu imposto de renda. Ele é elaborado pelo próprio governo, que registra todas as movimentações econômicas de seus cidadãos. Uma vez ao ano o governo manda um e-mail informando quanto o cidadão deverá ser tributado no ano fiscal anterior. Se está ok, o cidadão manda um e-mail: concordo. Senão, manda um e-mail de volta e renegocia. É outro exemplo de como o design de sistemas pode revolucionar nossas vidas.

A área de saúde no mundo todo também está inicia ndo um novo ciclo. Como o design de sistemas pode contribuir com o serviço social?

No meu país, o serviço social está passando por uma profunda transformação. Em termos de área hospitalar, em vez de construir mais hospitais, na Finlândia, o raciocínio agora é o oposto: como promover o bem-estar na sociedade? Essa ação tem como efeito pessoas mais saudáveis, que precisam de menos hospitais. Assim, em vez de o hospital centralizar toda a saúde da sociedade, como se faz no modelo tradicional, o hospital se torna apenas uma parte do sistema de saúde.

A Finlândia é um dos líderes na preservação ambiental. Como a sustentabilidade pode se beneficiar com sistemas de design?

A Finlândia tem uma política ecológica muito desenvolvida, estamos focados na ecologia do cotidiano. No mundo todo, cerca de 40% das emissões de dióxido de carbono provêm das moradias. Estamos investindo pesadamente em pesquisas para desenvolver edifícios com emissão zero. Assim, teoricamente, eliminaremos 40% do dióxido de carbono. Devido ao frio, consumimos muita energia fóssil e nuclear para aquecer os prédios. Estamos implantando o sistema de aquecimento terrestre, que leva o calor do solo, através de tubulações subterrâneas, para as casas. Na minha casa, tenho um ar-condicionado que funciona à base de sistema reverso. O equipamento capta ar frio, faz uma inversão e o transforma em ar quente. Até -15ºC, mantenho minha casa aquecida nesse sistema de inversão de temperatura.

Empilhadeira Rocla PS20, para baixas alturas

 

Quais são as tendências em relação aos centros urbanos?

Aquecimento global e urbanização são problemas sistêmicos. Os pequenos componentes fazem par te de grandes sistemas. O foco é transformar as cidades em centros mais concentrados, com redes de transportes e esferas urbanas mais compactas para diminuir o consumo de energia, transporte e comunicação. São grandes tendências do redesenho da sociedade. Por exemplo, nos transportes, a França lançou o Vélib (serviço de bicicletas gratuitas para se pedalar por Paris), mas nós já temos esse sistema há anos, e mais, temos esse sistema para os automóveis. Em Helsinque, você não precisa ser dono de um automóvel para circular de carro. Basta pegá-lo em uma das centrais, circular e devolver em outra central.

O que levou a Finlândia, que foi uma sociedad e agrária com escasez de materiais, a se tornar um dos países mais ricos do mundo?

Fomos bemsucedidos na combinação de elementos importantes. Trabalhamos duramente e criamos sólidas indústrias madeireira e de celulose. Em 1900, participamos da Exposição Internacional em Paris (França) e o pavilhão da Finlândia foi um marco no evento. Até 1917, éramos um território autônomo da Rússia, mas a proximidade de São Petersburgo (atual Leningrado, a 300 quilômetros de Helsinque) favoreceu o comércio de nossos produtos. Em 1917, tornamo-nos um país independente e o nosso olhar se voltou para a Europa continental. Havia também um espírito nacionalista no povo, queríamos mostrar ao mundo que éramos capazes. Durante a Segunda Grande Guerra, houve um hiato nesse processo. Depois, vivemos um período de reconstrução da nação e, em seguida, na década de 1950, passamos a exportar nossas ideias e o design finlandês para o mundo.

“Estamos implantando o sistema de aquecimento terrestre, que leva o calor do solo, através de tubulações subterrâneas, para as casas”

Toca-disco para DJ, mais um exemplo de design finlandês. Acima, o modelo FT80 do Relógio Polar.

Quando se fala em Finlândia vem à mente o design no seu sentido mais tradicional, o design de objetos, área altamente desenvolvida no seu país e um dos pila res de sua economia desde os anos 1950. O que impulsionou o design finlandês no mercado internacional ?

Em 1951, começamos a participar das Triennales de Milão (Itália) e com isso passamos a exportar design e maquinários. A união desses dois fatores – design e tecnologia – surgiu nessa época e sedimentou o caminho para desenvolvermos uma sólida base industrial que resultou, hoje, em produtos vendidos no mundo todo, como o celular da Nokia. Passamos de uma sociedade agrária a uma sociedade de altíssima tecnologia em apenas 40 anos. Foi muito rápido. A nossa success story também se baseia no fato de sermos uma sociedade homogênea, sem problemas étnicos, com um sistema de governo com uma sólida ideia de justiça, e também ao fato de nossos vizinhos, Suécia e Dinamarca, terem criado modelos parecidos com o nosso.

 

Como é o designer do futuro?

A sociedade contemporânea é complexa, precisamos de indivíduos capacitados para solucionar essas complexidades. Os designers estão ferramentalizados para enfrentar essas questões. Para nós, o futuro está em ter o designer participando ativamente na gestão da complexidade da sociedade. O designer não será o único profissional a criar soluções, mas baseado no conceito holístico e sistêmico do service design, ele poderá trazer ao debate capacidades que resultam na valorização do bem-estar social. Esse é o futuro do design.

“Passamos de uma sociedade agrária a uma sociedade de altíssima tecnologia em apenas 40 anos. Foi muito rápido”

Powerkiss Jazz Chair, cadeira e mesa com sistema de recarregamento para wireless, design de Terhi Tuominen.

 

 

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