O jardim das zoés

Dispersa na floresta luxuriante do norte do Pará, uma sociedade de 270 índios mantém a salvo uma cultura poligâmica e poliândrica: cada mulher possui quatro ou cinco maridos.

Rogério Assis

A vaidade é uma marca ostensiva do povo zoé, que logo desde a primeira dentição, usa o eber’pot como adorno de identidade: um cravo de madeira, perfurado e pendurado no lábio inferior. Para eles, uma das mais preciosas inovações dos kihari (os não índios) é o espelho. O utensílio introduzido pela Fundação Nacional do Índio (Funai) ajuda as mulheres a embelezarem os corpos com a tintura vermelha de urucum e a conservarem as tiaras de penugem branca de urubu-rei.  

Além de vaidosa, a sociedade zoé é poligâmica e poliândrica. As mulheres se casam com vários homens. Normalmente, uma mulher tem de quatro a cinco maridos ao longo da sua vida e convive  com dois ou três ao mesmo tempo. O parceiro sexual do momento é chamado de pare; quando vira cônjuge efetivo (até uma gravidez), chama-se deru; a partir do nascimento de um filho, vira papa; e o cônjuge mais velho, parceiro mais antigo e pai do filho mais velho, é o tamo. O ciúme é um dos motivos mais frequentes de tensão social.

Os zoés são uma sociedade de 270 indivíduos que vivem em 12 aldeias itinerantes na Terra Indígena Zoé, em uma área de 6,4 mil quilômetros quadrados de florestas no noroeste do Pará, às margens do rio Cuminapanema. Falam tupi, embora estejam perto do tronco linguístico Caribe, do planalto das Guianas. Cada aldeia agrupa duas ou três casas, às vezes uma. As famílias gostam de visitar os parentes circulando pelos inúmeros caminhos que atravessam a floresta.

Até 1982, os zoés viviam isolados, fugindo do contato com castanheiros, seringueiros e missionários. Em 1989, atingidos por uma mortal epidemia de gripe, procuraram missionários protestantes na região e pediram a ajuda da Funai. Em março de 1989, uma equipe da Coordenação-Geral de Índios Isolados aterrissou, de helicóptero, em uma de suas aldeias. O fotógrafo paraense Rogério Assis estava nesse primeiro voo “histórico”. Vinte anos depois, em 2009, voltou à área e fez as fotos desta reportagem, integrantes do livro Zoé (Editora Terceiro Nome, 2013). 

Entre as duas viagens, o território zoé foi identificado e demarcado. Desde então, a etnia vive sob os cuidados da Frente de Proteção Etnoambiental Cuminapanema, que garante a integridade cultural indígena de acordo com a Constituição Federal de 1988. Os índios dispõem de vacinação e assistência médica, acesso controlado a bens como facões, enxadas, anzóis e um posto de comunicação por rádio. 

Com sua cosmologia e cultura protegidas, os zoés ganharam um tempo para se alinhar com o “Brasil”. De fato, as sociedades são muito diferentes. Uma primeira observação, recorrente, é a constante disposição dos zoés para rir. “Câmera, boné, relógio, tudo eles apontam e repetem ‘nome, nome’, querendo saber as palavras para em seguida repetilas e cair na gargalhada”, diz Assis. 

A antropóloga francesa Dominique Gallois, que estuda o grupo, lembra que, “desde o primeiro contato, os zoés foram apresentados ao mundo por reportagens que enfatizavam a ‘pureza’ e a ‘fragilidade’ do povo, descrito como um dos últimos grupos intactos na Amazônia”. Trata-se de uma das raras etnias não atingidas nem pela sociedade branca nem pela mensagem cristã – uma espécie de sonho antropológico.

Com muitos maridos, mas nenhum pajé ou cacique, a vida social dos zoés é regulada por sua intrincada rede de relações familiares. Troca-se muito de cônjuge, mas as opções obedecem a padrões rígidos, condicionadas ao registro minucioso das trocas matrimoniais ocorridas entre os grupos, de maneira a garantir a reciprocidade e o equilíbrio. 

Toda vez que uma mulher contrai um novo casamento, o esposo e sua família mudam-se para o pátio da família dela – onde todos convivem. Quando é recém-casado, o homem anda nos passos do seu sogro. Quando o casal já tem filhos, desloca-se visitando as residências do grupo da esposa e do marido. Como as famílias são poligâmicas, os deslocamentos entre as aldeias dos sogros e dos pais dos esposos se multiplicam de acordo com o número de cônjuges. O convívio é sempre marcado pela etiqueta e pela distância respeitosa. 

Não há confusão alguma. Trocar de cônjuge é um ideal geral. Casar fora da própria geração permite “reservar” um cônjuge da mesma idade para mais tarde. Casamentos entre gerações diferentes permitem aos mais velhos “criar” parceiros jovens, que, por viverem no mesmo pátio do cônjuge, também criam seus futuros parceiros. Os idosos, os caçadores e pais e mães de muitos filhos gozam de prestígio social.

Dividir a caça entre todos, garantindo a retribuição posterior dos benefícios, é uma norma. A alimentação baseia-se no beiju de farinha de mandioca e na castanha-do-pará. As oferendas de caça ou da bebida fermentada do se’py são retribuídas nos encontros entre as famílias. O caçador começa a distribuição de carne pelos parentes mais próximos, que recebem os melhores pedaços, enquanto as pessoas com as quais não se tem proximidade são chamadas por último. A carne de macaco é a iguaria preferida.

O ato de comer conecta todos os pátios de um assentamento, ensejando a troca de informações sobre caçadas, namoros e casamentos. As negociações para um casamento são o assunto predileto dos zoés, seja entre membros de um mesmo pátio, seja em encontros de famílias de outras aldeias. Nisso, eles não parecem diferentes dos brancos. 

Não há “especialização” social. Qualquer indivíduo é capaz de realizar todas as tarefas atribuídas ao seu sexo e idade. Com isso, a diferença de status é marcada por critérios tradicionais, como idade, capacidade de liderança ou sucesso na caça. Possuir menos ou mais bens não é motivo para diferenciar alguém, já que todos são capazes de executar as mesmas tarefas e, portanto, de confeccionar os mesmos bens.

Os zoés tampouco “preservam” seus padrões culturais. Eles os reproduzem, pouco importa onde – no pátio de uma aldeia, num acampamento na floresta ou no posto da Funai –, sem discriminar a origem dos artefatos que usam, adquiridos dos antigos, dos inimigos ou dos brancos. “É graças a essa poderosa dinâmica de atualização da cultura”, diz Dominique Gallois, “que os zoés mantiveram sua tão peculiar vitalidade”

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