O jeito americano de viver entra em crise

Não é só o mercado que mudou por conta da crise econômica.

A década passada foi um pesadelo para os norte-americanos. A crise econômica que tomou conta dos Estados Unidos em 2008 pode mudar o rumo dos negócios e, por que não, do sistema que comanda a sociedade. Setores e instituições que sustentavam o país, como a indústria automobilística (General Motors), a política (Congresso), a economia (Wall Street), o esporte (Major League Baseball, a principal liga de beisebol), a religião (Igreja Católica) e a mídia começaram a entrar em uma queda sem fim. A má administração e a corrupção puseram em xeque o orgulho e a confiança que a população tinha em seus pilares de sustento.

Muitos membros da sociedade norte-americana afirmam que a raiz do fracasso são as pessoas que ocupam os cargos de comando dessas instituições. Em troca de poder, status e (muito) dinheiro, os executivos deveriam assegurar que todo o sistema funcionasse corretamente. No entanto, depois dos escândalos e das catástrofes, essa ordem, que uma vez pareceu tão boa, foi substituída por ceticismo, descontentamento e desilusão.

No estopim da queda de diversas lideranças dos Estados Unidos, é possível prever que a nova década será de reformas institucionais para reconstituir modos mais confiáveis e democráticos de autoridade. Pesquisas mostram uma correlação viciosa entre as instituições, a elite controladora e a economia altamente funcional, enquanto a desconfiança e a corrupção, por seu lado, alimentam-se mutuamente. Se essa crise continuar, cresce o risco de que haja um longo e feio processo de “de-desenvolvimento”, muito diferente do proposto por John Holdren, o conselheiro de Barack Obama para ciência e tecnologia. O de-desenvolvimento, tradução livre do inglês “dedevelopment”, é um termo cunhado por Holdren cujo sentido é o de tornar o sistema econômico (principalmente o de consumo) mais condizente com a realidade da ecologia e das fontes globais: altos níveis de corrupção e sonegação fiscal, além de uma esfera pública fragmentada.

Por mais de 35 anos, o Gallup – empresa que faz pesquisa de opinião nos EUA – perguntou aos cidadãos sobre o seu nível de confiança em instituições, como Congresso, bancos, escolas públicas, etc. Foi constatado que, em 2008, praticamente todas as instituições estavam em baixa. Apenas 32% da população dizia crer nos bancos; em 2004, esse número era superior a 50%. Os jornais têm a confiança de 24% da população, uma queda brusca em comparação ao início da década, com 40% de aprovação. O Congresso foi a instituição com menor índice de confiança: 12%.

Esse descrédito nas elites se estende aos próprios membros delas. Todo ano, Richard Edelman, presidente da empresa Edelman Public Relations Worldwide, conduz o “barômetro da confiança”, uma enquete feita com pessoas da elite (bem-sucedidas, atentas à mídia e que tiveram acesso à educação de qualidade) por 22 países. Nos EUA, as pessoas mostraram pouquíssima confiança no governo e nos negócios, sobretudo nos CEOs (presidentes executivos). De acordo com Edelman, essa descrença começou com a Enron, companhia de energia que faliu após escândalos sobre fraude financeira, e culminou no Citigroup.

 

O ex-presidente da General Motors, Rick Wagoner (à esquerda), perdeu o cargo por comandar uma gestão que quase levou a antiga primeira montadora do mundo à falência. Sua gestão foi um dos exemplos do modelo que John Holdren (abaixo), conselheiro de Barack Obama, pretende evitar.

sso é evidência de que a crise de autoridade vai além das categorias ideológicas, como Congresso e Wall Street, religião e ciência. Então, por que tantos líderes, das áreas mais diversas, fracassaram tanto durante esta década? Enquanto nenhuma teoria consegue justificar uma gama tão grande de fracassos, há uns pontos em comum que podem ser notados, como a concentração de poder e a falta de transparência e a prestação de contas do governo à população.

Um exemplo de pessoa que percebeu a necessidade de quebrar essa falta de transparência é Terry McKiernan, 56 anos, fundador do sistema de prestação de contas do bispado católico, o Bishop Accountability. Como quase todos os garotos americano-irlandeses da sua geração, McKiernan foi criado na Igreja Católica Apostólica Romana, como coroinha, com crisma e missas de domingo. Quando começaram as acusações de abuso sexual envolvendo membros da Igreja, em 2002, McKiernan sentiu a necessidade de fazer algo. Então, ele deixou seu cargo de assessor empresarial e deu início ao Bishop Accountability, relatório que engloba quase 3 milhões de páginas de arquivo sobre os escândalos.

Essa dinâmica da impunidade, que integra poder hierárquico

e sigilo, tem sido sempre aplicada à sociedade

De acordo com McKiernan, as características da Igreja que culminaram em sua crise foram a obsessão pelo sigilo e sua natureza hierárquica. Aqueles que estavam no topo da pirâmide da hierarquia eclesiástica, como os bispos, não eram obrigados a dar satisfação ou pedir desculpa para membros que estivessem em posição inferior. “Assim sendo”, observa McKiernan, “não surpreende que pessoas que estão encobertas por serem poderosas possam cometer ações más”.

Essa dinâmica da impunidade, que integra poder hierárquico e sigilo, tem sido aplicada à sociedade desde sempre. Em 1978, segundo o Instituto de Política Econômica dos EUA, a razão da diferença média entre os salários dos CEOs e os dos demais funcionários era de 35 para 1. Em 2007, ela subiu ainda mais: 275 para 1. Nell Minow, advogada e especialista em governança corporativa, lutou por décadas contra o salário excessivo destinado aos CEOs.

A descrença dos norte-americanos em suas elites, flagrada por Richard Edelman na sua enquete “barômetro da confiança”, começou com o escândalo da empresa de energia Enron, comandada por Kenneth Lay (abaixo), e culminou com as dificuldades enfrentadas pelo Citigroup.

Ela percebeu que eles sempre encontravam modos de manipular as alavancas do governo e de desenvolver métodos engenhosos para garantir suas vantagens na empresa, independentemente de sua performance nela. Nell afirma que é como se alguém apostasse em todos os cavalos de um páreo, mas com o dinheiro de outra pessoa. Uma vez que o apostador não pôs seu dinheiro em jogo, ele certamente vai ganhar alguma quantia.

Uma sociedade complexa requer que muitas tarefas sejam executadas pela elite. Na maioria das vezes, resolver problemas de maior responsabilidade está ligado a ter mais autoridade, e por isso possibilita à elite manobrar tão facilmente o consenso público.

Um exemplo disso é o problema da mudança climática. Está além da capacidade de a maioria das pessoas perceber de modo simples as reviravoltas das curvas da temperatura global. Logo, a população é obrigada a acreditar nos cientistas que fazem cálculos complexos. Porém, no momento em que as elites e os especialistas são mais necessários para usar seu capital social e simbólico a fim de alertar a população sobre os perigos da catástrofe, o ceticismo impera.

Uma pesquisa publicada em outubro de 2009 mostra que somente 57% dos norte-americanos acham que há evidência de um aquecimento (no ano anterior, 71% deles acreditavam nisso) e apenas 36% creem que isso se deve à atividade humana (ante 47% em 2009). Esse é o problema de se viver em uma sociedade na qual há muita fuga de autoridade: a elite nunca está presente quando se precisa dela.

O fracasso atual das elites mostra que todos os tipos de instituição precisam de uma reforma. O Federal Reserve (Fed) é o lar dos economistas mais admiráveis e das mentes mais brilhantes dos EUA. Ainda assim, perdeu US$ 8 trilhões na bolha imobiliária e na explosão do mercado de subprimes.

 

Manifestações contra a Igreja Católica, como a da foto acima, em Nova York, desafiam a falta de transparência que facilitou os escândalos sexuais envolvendo sacerdotes norte-americanos. Abaixo, sala de aula de uma escola charter em Nova York, modelo que cresceu nos últimos anos porque os sistemas escolares tradicionais não eram vistos como transparentes e democráticos.

Mas, se o Fed tivesse exigido que alguns assentos no conselho de governo fossem reservados a especialistas em defesa do consumidor, provavelmente tais perdas teriam ocorrido em escala muito mais reduzida.

Se houvesse uma contratendência para o fracasso da elite, ela seria a expansão do ativismo popular na área da política e o surgimento da inovação institucional, hoje muito facilitada pela internet. Em menos de uma década, a Wikipedia revolucionou a lógica interna do iluminismo ao democratizar radicalmente o processo de criação das enciclopédias. A feira livre surgiu como um modo de desafiar e subverter o cartel de distribuição da comida industrializada. As escolas charter (sistema escolar público norte-americano que não é administrado por um distrito escolar) cresceram pela mesma razão: os sistemas escolares locais não eram vistos como transparentes e democráticos.

Espera-se que isso seja só o começo. Todas as novas instituições são inspiradas por um desejo de democratizar o antigo, as grandes hierarquias oligárquicas. Essa é a esperança para a década que está por vir. É dever dos cidadãos salvar as elites delas mesmas.

 

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