O legado dos Villas Bôas

Os filhos e a viúva de Orlando Villas Bôas, um dos dois personagens mais atuantes da criação do Parque Indígena do Xingu, revivem a história da família e avaliam a situação da reserva e dos índios no Brasil de hoje

Orlando Villas Bôas Filho com a mãe, Marina, e os filhos: laços indissolúveis com o Xingu

Herdeiros de determinação, integridade e coragem pouco vistas no Brasil, os advogados Orlando Villas Bôas Filho e Noel Villas Bôas seguiram caminhos diferentes dos pais, o sertanista Orlando e a enfermeira Marina Villas Bôas. Mas eles estão sempre abrindo picadas na selva urbana para manter vivo o exemplo do casal, ao lado dos tios e também sertanistas Cláudio e Leonardo Villas Bôas.

Conhecendo mais a fundo a heroica história da família que se mistura à do Parque Indígena do Xingu, fica clara a importância do papel de cada um. O jeito humilde de d. Marina se manter como coadjuvante não esconde a força da única representante do sexo feminino que atuou de forma sistemática no parque, na sociedade machista dos anos 1960, e teve seu trabalho reconhecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS). O resultado ainda é contabilizado no parque: em 1979, ali moravam 1,8 mil índios; hoje, são cerca de 6 mil, número que está crescendo.

PLANETA – Quais são as principais lições que o Brasil pode aprender com o Xingu?
ORLANDO – Elas envolvem principalmente dois aspectos, o multicultural e o ecológico. A ideia do grupo que criou o Parque do Xingu era quebrar o paradigma de que o índio deveria ser incorporado como boia-fria na frente de expansão. O índio sempre foi visto como gente primitiva que atravanca o desenvolvimento da nação. O Xingu visava ao futuro, ou seja, uma extensão enorme de terra que pudesse servir para essas populações manterem o direito de permanecer com sua identidade indefinidamente. Afinal, os povos autóctones definem sua identidade na relação com o território que ocupam tradicionalmente. Quanto à ­dimensão ecológica, o Xingu também foi uma experiência totalmente inovadora. No contexto dos anos 1940 de um país de fundação fundiária predatória, o parque foi concebido também para manter um retrato do que eram as características topográficas e ecológicas do Brasil sem a intervenção do colonizador. Apesar desse exemplo, o brasileiro ainda hoje pensa como antes de o Xingu ser criado, em 1961.

PLANETA – O preconceito contra o índio segue enorme. Muitos brasileiros ainda rotulam o índio de vagabundo, por não trabalharem como a maior parte do país.
ORLANDO – Vivemos muito fechados em estereótipos de quem mora em centro urbano e não conhece nada além do seu próprio quarteirão. Achar que nossa forma de viver é um caso de sucesso é a mais absoluta expressão do etnocentrismo. Todo mundo doente, tomando remédios psiquiátricos, enlouquecido com o trânsito. Essa mentalidade vem de uma visão colonialista do século 19, de que temos de ocidentalizar o mundo. Como se houvesse uma única forma de se produzir e viver. Quem não faz dessa forma é vagabundo. A finalidade da sociedade indígena não é criar excedente. É outra lógica. O índio está aí para contar ao dito civilizado que a relação com o meio ambiente tem de ser de outro jeito e para mostrar como a sociedade brasileira é complexa. São populações autóctones com costumes, organização social, estrutura familiar e língua próprios. E estão vivendo no Xingu, melhor que as populações excluídas das grandes cidades. É um negócio totalmente paradoxal.

Em casa: Orlando Villas Bôas (centro) com os filhos Noel (no colo) e Orlando (de pé) no parque, em foto dos anos 1970
Em casa: Orlando Villas Bôas (centro) com os filhos Noel (no colo) e Orlando (de pé) no parque, em foto dos anos 1970

PLANETA – O índio também é culpado de demandar muita terra para pouca população. O que vocês pensam a esse respeito?
ORLANDO – É um argumento falacioso. Há latifúndios enormes no país – às vezes maiores que um estado – que pertencem a uma empresa ou pessoa e são usados para fins predatórios e não ecológicos. Quem contesta a terra do índio deveria abrir mão da sua própria terra.

PLANETA – Apesar de tantas investidas contra os índios e o meio ambiente, como o parque conseguiu se manter até agora?
ORLANDO – Não é por simpatia do poder político e econômico. Podendo, eles transformariam tudo aquilo em um fazendão. Associar o parque não apenas ao índio, mas à preservação ecológica, foi uma jogada interessante e inteligente. O arranjo político foi muito bem feito no momento da criação do parque e a articulação com setores da academia, que tem ressonância em políticas públicas, colabora na sua manutenção. Mexer com o Xingu é criar um escândalo que coloca o governo numa situação desconfortável. Implica assumir um ônus político muito forte.

PLANETA – Na opinião de vocês, o filme Xingu, de 2011, ajudou a tornar conhecida a epopeia dos Villas Bôas para criar o parque?
ORLANDO – Ajudou. É uma obra de ficção – não retrata bem como era meu tio Cláudio nem meu pai –, mas, por ser ficção, teve mais apelo e cumpriu um papel. Permitiu que a atuação deles chegasse a um público que jamais teria conhecimento disso. A minissérie que nasceu dessa produção e foi ao ar na TV Globo em 2012 teve ainda mais alcance. A TV Cultura também passa documentários sobre meu pai e o parque. Mas já houve documentário que foi para o cinema e não teve público.
NOEL – A liberdade poética usada no filme acabou escondendo um pouco o trabalho da minha mãe. Mostra ela chegando ao parque com o sanitarista dr. Noel Nutels, mas não foi bem assim. Ele percorria o Brasil inteiro com as unidades centrais aéreas e o Xingu fazia parte dessa rota. Ele não ficava especificamente no Xingu, mas minha mãe ficava.

Festividade no Xingu: o espaço permite aos índios preservar sua identidade cultural
Festividade no Xingu: o espaço permite aos índios preservar sua identidade cultural

PLANETA – E qual é a sua história, d. Marina?
MARINA – Fui convidada pelos irmãos Villas Bôas, logo depois de criarem o parque. Me mudei em 1963 para organizar o ambulatório e cuidar da saúde dos índios. Não tinha ninguém, era eu e eu no começo. Foram dois anos até a Escola Paulista fazer o convênio e começar a atuar. Morei lá até 1975, vim para São Paulo para os meninos estudarem, e íamos para lá nas férias. Nos primeiros momentos no Xingu, visitávamos todas as aldeias uma vez por semana de avião teco-teco para ver a situação geral. Se alguém precisava de atendimento na hora, atendíamos na aldeia mesmo, com um kit que criei, ou levávamos para o posto. O resultado foi excelente. Passamos quatro anos sem um óbito infantil. Faltava muita orientação na parte de higiene em relação ao recém-nascido.
ORLANDO – Quando mamãe chegou lá, a expectativa de vida era muito baixa e a mortalidade infantil, muito alta. Ela foi citada na OMS pelo trabalho que fez lá.

PLANETA – Como os índios reagiam aos cuidados de um profissional que não fosse o pajé?
MARINA – A primeira recomendação dos irmãos Villas Bôas sempre foi de valorizarmos a medicina dos índios, sem interferir. Eu fazia a minha parte e os pajés, a parte deles. E a cura sempre era atribuída ao pajé. Se o pajé não atendesse os doentes, eles não saravam. Penso que era mais psicológico – foi o que eles tiveram por milhares de anos. E, até hoje, eles têm uma crença forte na parte espiritual.

PLANETA – Os pajés continuam tendo o mesmo poder de antes?
NOEL – De um tempo para cá, os próprios pajés já não atuam na tentativa de cura das doenças que chegam de fora, justamente para preservar sua figura e seu valor. Por exemplo, nos casos de câncer que estão surgindo agora, por conta dos produtos tóxicos que os fazendeiros despejam nos afluentes do Xingu, eles sabem que não têm nada a fazer, o tratamento é todo feito fora. O pajé acompanha o paciente, mas os índios já não dão a ele a responsabilidade da cura.

PLANETA – Vocês costumam ir com frequência ao Xingu?
NOEL – Vou pelo menos uma vez por ano. Eles nos consideram parte da família deles e eu também os vejo assim.
ORLANDO – A última vez que eu e minha mãe estivemos lá foi em 2003, no quarup do papai. Quando morre um de seus líderes, os índios fazem essa cerimônia. Ao mesmo tempo que é fúnebre, é uma festa. Reúne todas as tribos, é um evento social de grande importância, gera grande movimentação econômica de trocas. É um evento de força simbólica.
MARINA – Mas eu falo diariamente com eles por meio de Facebook.

Índio do Xingu com Cláudio (centro) e Orlando (direita), nos anos 1960
Índio do Xingu com Cláudio (centro) e Orlando (direita), nos anos 1960

PLANETA – Eles têm Facebook?
ORLANDO – Causa escândalo o fato de eles usarem Facebook. Mas isso é bom para quebrar a ideia de que as sociedades indígenas são estáticas. Elas estão sempre mudando, mas não com a mesma velocidade do mundo ocidental. Os índios estão usando uma nova tecnologia. O problema é quando isso impacta na identidade deles, mas esse não é o caso. Eles incorporam a tecnologia, e o interessante é o modo como ressignificam isso.
NOEL – Eles usam as redes sociais – o Facebook e, ainda mais, o WhatsApp – de uma forma muito mais eficiente e útil do que nós. Nas aldeias com gerador, eles se conectam via satélite algumas horas por dia, quando o aparelho é ligado. Enquanto usamos o Facebook para postar fotos de férias, eles marcam reuniões, organizam manifestações e debatem sobre determinações que saem em Brasília.

PLANETA – O que houve com o projeto de se criar o Instituto Orlando Villas Bôas e um museu com o material histórico da família?
NOEL – Criamos o Instituto Orlando Villas Bôas, em 2011, com a ideia de abrir um museu. Depois do falecimento do meu pai, decidimos não doar mais peças desse acervo – o que ele fazia com frequên­cia –, porque a experiência mostrou que elas se perdiam ou se deterioravam, ou não se dava o crédito de onde elas tinham saído. A ideia do instituto era criar um espaço que reunisse todo o acervo. No início, o governo paulista parecia bem entusiasmado. Mas, com o passar do tempo, o projeto foi esfriando pela falta de ação do estado. Quatro anos depois, decidimos deixar as coisas paradas por enquanto. A frustração é grande, porque oferecemos cerca de 15 mil itens – entre eles mil peças de cultura material – e isso tem sido desprezado pelos governos de todas as esferas.
ORLANDO – Para alguém da família, que viu quanto esforço e idealismo foram investidos nisso, é muito frustrante ver que uma parcela significativa de brasileiros não conhece a história e quem detém posição institucional não a valoriza. Essa luta consumiu toda a vida dos meus pais e tios. Foi pesado, tiveram dificuldades, problemas de saúde, institucionais, sofreram ameaças sistemáticas, ficaram na berlinda durante a ditadura. O desenvolvimentismo brasileiro do milagre econômico era contra a criação do parque. A Fundação Nacional do Índio (Funai) teve muitos presidentes militares. Foi uma atuação de muita coragem. Mas, no Brasil, o [ex-jogador de futebol] Vampeta tem muito mais reconhecimento. Em geral, o que se valoriza no Brasil é outra coisa. É escandaloso que um país com essa riqueza não tenha museus e canais de difusão sobre a história do índio. Estudamos os índios no período colonial e isso dá impressão de que eles acabaram, mas quase 1 milhão de pessoas se autodeclaram índios no Brasil hoje.

***Orlando Villas Bôas Filho e Noel Villas Bôas são advogados como o pai, Orlando Villas Bôas. Embora não trabalhem com questões indígenas, eles e a mãe, Marina Villas Bôas, estão sempre disseminando a história e o debate do tema. Ela atuou por 12 anos no Parque Indígena do Xingu tratando da saúde dos índios***

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