O melhor prêmio do mundo

Todo mês de outubro a mídia volta os olhos para Estocolmo e Oslo e celebra os vencedores do Prêmio Nobel. Este ano não foi diferente. O que explica o sucesso dessa tradição cultuada no mundo todo?

 

O que explica o sucesso do Nobel, cultuado no mundo todo? 

 

O Nobel saiu para um escritor japonês; tenho que começar a pedir desculpas aos meus amigos por não ganhar o prêmio.” No livro Cadernos de Lanzarote, o português  José Saramago comentou assim a premiação mais conceituada do mundo. Sem esconder a decepção, Saramago lamenta que a sorte esteja do lado de outros criadores, mas não dele. Não era verdade. Em outubro de 1998, o escritor recebeu aquele esperado telefonema da Academia Sueca e, depois de ganhar o prêmio, viveu mundialmente reverenciado na cidadezinha de Tías, na ilha de Lanzarote, no arquipélago das Canárias, onde morreu contente, aos 87 anos.

As reflexões de Saramago revelam o impacto universal, emocional e econômico que o Prêmio Nobel produz no mundo intelectual e científi co. Os premiados raras vezes contam ao público seus sentimentos íntimos. Ser eleito para o Nobel signifi ca subir ao Olimpo da fama até o último suspiro.

Surpreendentemente, o prêmio nem sempre foi recebido com gratidão ou orgulho. O fi lósofo francês Jean-Paul Sartre considerou sua escolha para o Nobel de Literatura de 1964 um insulto a um arauto do despojamento e do desapreço às condecorações ofi ciais. Sartre tinha 59 anos, apoio da sua editora e dava aulas de literatura e filosofia em Paris. Recusou o prêmio. Anos depois, quando passou a viver de pensão, descobriu que não teria sido má ideia receber a quantia hoje equivalente a R$ 2,8 milhões e reclamou-a em segredo, por meio de um colega sueco. Mas a Academia Sueca respondeu que a conversão do filósofo à vida burguesa havia chegado muito tarde.

Herança milionária

Como a Suécia – um país não muito grande, próximo ao Polo Norte e com uma língua pouco comum – impõe-se pacificamente no centro do interesse intelectual mundial todos os meses de outubro desde 1901? Em 1842, um menino de 9 anos começou sua escalada para a fama e a riqueza vendendo pelas ruas de São Petersburgo, na Rússia, fósforos que ele mesmo produzia. Alfred Bernhard Nobel (1833-1896) era um dos quatro irmãos sobreviventes dos oito filhos de um casal sueco. O pai, Immanuel, era um inventor hábil, e a mãe, Karoline, assistente em uma loja de alimentos. Ao ver sua oficina falir na Suécia empobrecida pelas contínuas guerras europeias, Immanuel apostou no mercado russo, em 1837, e fez fortuna fabricando equipamentos mecânicos e explosivos. Em 1842, levou a família para a Rússia, e foi na sua empresa que Alfred começou a conhecer engenharia química fabricando fósforos. 

Depois de 17 anos de trabalhos frutíferos (embora outra guerra tenha levado Immanuel à falência), os Nobel voltaram para Estocolmo. Acompanhado pelos dois filhos mais novos, Alfred e Emil, Immanuel continuou a trabalhar em invenções até sofrer um acidente fatal. Em 1864, uma explosão no laboratório da empresa matou seis pessoas, entre elas Emil. O incidente rendeu publicidade e fama indesejadas à família. Pouco depois da tragédia, Alfred abriu seu próprio laboratório, na Alemanha, onde, sozinho, inventou a dinamite. Em 1867, obteve a patente do explosivo que revolucionaria para sempre as obras pacíficas e bélicas. Com apoio do capital conquistado por Alfred, seus irmãos mais velhos, Ludvig e Robert, entraram na indústria de petróleo no  Azerbaijão, em 1874. A companhia deles, Branobel, chegou a ter 12 mil funcionários e foi a segunda maior do mundo, atrás da Standard Oil, da família Rockefeller.

Mas em 1917, ao estourar a Revolução Russa, os bolcheviques embargaram o patrimônio da família Nobel no Azerbaijão. O último gerente, sobrinho de Alfred, fugiu para a Suécia disfarçado de camponês. Por sorte, grande parte dos lucros de mais de 40 anos de exploração de petróleo já fora investida em projetos internacionais. Graças a isso, até hoje as invenções de Alfred Nobel geram uma imensa riqueza – atualmente, 36 bilhões de coroas  suecas por ano (US$ 5,6 bilhões) – para a Fundação Nobel, de onde provêm os prêmios.

Condessa Bertha

Em 1873, com 40 anos de idade, Alfred possuía cerca de 30 empresas espalhadas pelo mundo. Nos registros de patentes suecas e internacionais, mais de 350 têm seu nome. Passava grande parte da vida percorrendo as companhias. Não havia se casado e sentia muita solidão. Aos 43 anos, pôs um anúncio em um jornal de Viena em busca de uma secretária e governanta para sua casa de Paris. Recebeu a resposta de uma jovem condessa de Praga, Bertha Kinsky, que assumiu o posto. Mas, com apenas uma semana no cargo, ela pediu demissão. Dias depois, Bertha se casou, em segredo, com o barão Arthur Gundaccar von Suttner. O casal fugia da família dele, contrária ao matrimônio.

A baronesa Bertha von Suttner manteria uma profunda amizade com o ex-patrão. Ao morrer, sozinho, em 10 de dezembro de 1896, na sua casa de veraneio em San Remo, na Itália, Alfred deixou uma herança considerável para ela. Até sua morte, em 1914, Bertha foi uma grande representante do movimento pacifista e a primeira mulher a receber o Nobel da Paz, em 1905. O tema paz, a propósito, foi marcante na fama do Prêmio Nobel. Em 1888, Alfred foi surpreendido pela publicação, num jornal francês, de seu obituário, intitulado “O mercador da morte está morto”. Na verdade, quem havia morrido era o irmão Ludvig, mas o texto fez Alfred refletir sobre como gostaria de ser lembrado. Em seu testamento, ele ordenou a criação de uma fundação incumbida de premiar, anualmente, as pessoas que mais tives sem “contribuído para o benefício geral da humanidade”.

Em 1900, surgiu a Fundação Nobel, para atribuir prêmios em cinco áreas – química, física, paz, fisiologia ou medicina e literatura –, escolhidos pela Academia Real das Ciências da Suécia (os dois primeiros), por uma comissão do Parlamento da Noruega (paz), pelo Instituto Karolinska, de Estocolmo (fisiologia ou medicina), e pela Academia Sueca (literatura). Em 1968, foi agregado um sexto prêmio, o de economia, concedido “em memória de Alfred Nobel” e financiado pelo Banco Central da Suécia.

A divisão dos prêmios entre os dois países se explica porque, em 1901, ambos integravam o Reino da Suécia, do qual a Noruega se separou pacificamente, em 1905. Hoje, a capital norueguesa, Oslo, abriga a cerimônia de entrega do Nobel da Paz, enquanto os demais premiados são agraciados em Estocolmo. 

Missão acadêmica

Fundada em 1786, a Academia Sueca é constituída por 18 membros vitalícios, a maioria dos quais homens. No início do ano, eles começam a ler obras de centenas de candidatos ao Nobel de Literatura, em idioma original ou traduzidas. Em outubro, selecionam o ganhador, anunciado ao público na última sessão de votos. A votação tem impacto não apenas no mundo intelectual, mas também em todo o mercado editorial, no setor de direitos autorais, na produção de biografias, fotos, tradução e publicidade. Um editor modesto pode, da noite para o dia, se ver diante do sucesso mundial. Durante 15 anos, a editora sueca Tranan, cujo escritório funcionava na cozinha do  apartamento do seu gerente, em Estocolmo, traduziu e publicou edições limitadas de um obscuro escritor chinês chamado Mo Yan. A notícia de que o autor se tornara o Nobel de Literatura de 2012 fez esgotar os exemplares em questão de horas.

Enquanto os membros da Academia Sueca se ocupam com livros, cerca de 50 sábios do Instituto Karolinska e representantes da Academia Real das Ciências da Suécia, em parceria com instituições universitárias internacionais de física, química e medicina, pesquisam a obra de candidatos vivos que, como indicou Alfred Nobel, tenham contribuído para o desenvolvimento da humanidade. Um comitê especializado em economia responde pelas escolhas na sua área.

Do total de 847 indivíduos premiados desde o início do Nobel, 45 são mulheres. Elas estão sub-representadas nos comitês, assim como nas cátedras universitárias. Até hoje, apenas uma mulher, a americana Ellinor Ostrom, venceu o Nobel de Economia, em 2009. Mas o mundo está mudando. Hoje, as mulheres são maioria em várias das mais renomadas universidades do mundo.

Cada premiado recebe entre 8 milhões e 12 milhões de coroas suecas (cerca de US$ 1,2 milhão a US$ 1,9 milhão), uma medalha de ouro e um convite para um jantar de gala em Estocolmo com o rei e a rainha da Suécia e mais de 1.200 seletos convidados – ou, no caso do Nobel da Paz, um banquete em Oslo com o rei e a rainha, o primeiro-ministro e o presidente do Parlamento da Noruega, além de cerca de 250 convidados. É uma noite de gala.

Se os premiados são dois, o valor é dividido igualmente; no caso de três, o comitê de premiação decide se a quantia total é dividida por três ou se um dos laureados leva 50% e os outros dividem o restante. A Fundação Nobel investe 111 milhões de coroas (cerca de US$ 17 milhões) nos seus famosos homenageados, incluindo os prêmios, e recebe uma retribuição inestimável em termos de prestígio.

Os caprichos do destino fizeram com que as melhores intenções de Alfred Nobel não servissem somente para o bem da humanidade. A dinamite, criada para ser usada na mineração e em obras como túneis e estradas, contribuiu em grande escala para a evolução das armas militares, gerando mais e mais destruição. A empresa sueca Bofors, uma das maiores fabricantes mundiais de armas e propriedade de Alfred Nobel entre 1894 e sua morte, desde o século passado contribui com a Fundação Nobel. O patrimônio de um homem genial, letrado e sozinho continua bonificando o bem e o mal.

 

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