O perigo das espécies invasoras

Aproveitando-se da globalização, diversas espécies

pegam carona em aviões, navios ou até vasos de

flores e chegam a novos ecossistemas, aos quais se

adaptam e passam a dominar. Esse novo problema

ambiental e econômico se espalha pelo Brasil

e pelo mundo num ritmo assustador

O javali (Sus scrofa) invadiu o Brasil via Uruguai, e hoje já pode ser encontrado até em Minas Gerais.

Ele veio para ser ingrediente da alta culinária e frequentar a mesa de restaurantes caros. Mas não demorou muito para o caramujo-gigante-africano (Achatina fulica) mostrar seu verdadeiro caráter, de um animal perigoso, que transmite doença. De alternativa econômica ao escargot (Helix aspersa), passou a ser um problema. É uma espécie exótica invasora, que se disseminou pelo litoral brasileiro, colocando em risco animais nativos e causando outros danos ambientais. Mas, faça-se justiça, ele não é o único. Centenas de outras espécies de animais e plantas, fungos e microrganismos são consideradas invasoras no Brasil e em outras partes do mundo.

Caramujo-gigante-africano (Achatina fulica)

No rastro da globalização, de carona em aviões ou navios ou até em solas de sapatos ou inocentes vasos de flores, esse novo problema ambiental e econômico se alastra pelo planeta num ritmo alarmante. As espécies invasoras introduzidas num ecossistema do qual não fazem parte originariamente, mas onde se adaptam e passam a dominar, prejudicam os processos naturais e os organismos nativos. Além do caramujo-gigante-africano, animais como o mexilhão-dourado (Limnoperna fortunei), o javali (Sus scrofa) e o mosquito Aedes aegypti, que transmite a dengue, e plantas como o pínus (Pinus elliottii e Pinus taeda) são alguns exemplos. Outro, que está todos os dias nos meios de comunicação, é o vírus H1N1, causador da gripe conhecida popularmente como suína. Ele apareceu primeiramente na América do Norte e de lá se espalhou pelo mundo.

Além de representarem uma das principais ameaças a ecossistemas, hábitats e outras espécies, os invasores também causam enormes prejuízos às atividades produtivas e riscos consideráveis à saúde humana. Embora não existam números precisos em termos econômicos, há estimativas dignas de crédito. Uma delas foi feita pelo professor David Pimentel, da Universidade de Cornell. “Ele calcula que as espécies exóticas invasoras causem prejuízos globais de US$ 1,4 trilhão por ano, o que representa 5% da economia mundial”, diz a ecóloga Sílvia Ziller, do Instituto Hórus de Desenvolvimento e Conservação Ambiental, uma organização não governamental. “No Brasil, as perdas chegam a US$ 100 bilhões”, completa Lídio Coradin, gerente de Recursos Genéticos da Secretaria de Biodiversidade e Florestas, do Ministério do Meio Ambiente (MMA).

O problema é tão grave que a União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN, na sigla em inglês) considera as espécies exóticas invasoras a segunda causa mundial de redução da biodiversidade em geral, atrás apenas da destruição de hábitats pelo homem. “O aumento da introdução de espécies vem ocorrendo associado à elevação do comércio global de bens e serviços”, diz Rafael Dudeque Zenni, especialista no assunto, que fez parte do Programa de Espécies Exóticas Invasoras para a América do Sul da organização não governamental The Nature Conservancy (TNC). “Poucos países já possuem visão formada para lidar com essa ameaça à biodiversidade e à manutenção da capacidade produtiva dos ambientes.”

Há várias formas de invasão. Algumas podem ser acidentais, como quando larvas, ovos, sementes, microrganismos ou pequenos animais, como insetos, são transportados de um lugar para outro involuntariamente pelas pessoas. Isso pode acontecer na água de lastro de navios, usada para manter o equilíbrio e a navegabilidade das embarcações, quando estão descarregadas. Ela é recolhida no porto de origem e despejada no de chegada.

A maior parte das invasões, no entanto, está relacionada a atividades intencionais do homem, como o comércio internacional de animais de estimação ou destinados a criações de interesse econômico e de plantas ornamentais ou de cultivo. Na maioria das vezes, esses organismos se adaptam muito bem e fogem do controle, acabando por se transformar num problema. Não há um ranking dos que causam os maiores prejuízos, mas entre os mais problemáticos atualmente no Brasil estão o mexilhão-dourado e o javali, além do caramujogigante- africano.

O primeiro é um bichinho pequeno – não tem mais do que 4 centímetros – e vem de longe, mas é capaz de fazer um estrago considerável. Tratase de um molusco de água doce, originário do sul da Ásia, que chegou ao Brasil em 1998. Ele já infestou rios, lagos e reservatórios da Região Sul, do Pantanal e de São Paulo. Além de desequilibrar os nichos ecológicos em que se instalou, pondo em risco de extinção espécies nativas, o mexilhãodourado ameaça o setor elétrico brasileiro, a agricultura irrigada, a pesca e o abastecimento de água, já que entope tubulações, interfere na cadeia alimentar e provoca contaminação.

Mexilhão-dourado (Limnoperna fortunei)

Mosquito transmissor da dengue (Aedes aegypti)

A maior parte das invas ões es tá liga da a atividades intencionais do homem, como criações com finalidades comerciais

Com capacidade de se incrustar em qualquer superfície submersa, como madeira, rocha, plástico e até vidro, esse organismo exótico vem causando um problema tão grave que, em dezembro de 2003, o MMA criou uma força-tarefa nacional para combatê-lo. Composta por representantes de 7 ministérios e 13 entidades ligadas aos setores de geração de energia, abastecimento e meio ambiente, ela teve poucos resultados concretos, no entanto. Dois anos depois, em 2005, foi desativada e o mexilhão-dourado continuou a se espalhar.

Aproveitando-se da globalização, diversas espécies

pegam carona em aviões, navios ou até vasos de

flores e chegam a novos ecossistemas, aos quais se

adaptam e passam a dominar. Esse novo problema

ambiental e econômico se espalha pelo Brasil

e pelo mundo num ritmo assustador

Lebre europeia (Lepus europaeus)

Pínus (Pinus taeda)

Se esse animal chegou ao continente sul-americano trazido de maneira acidental ou involuntária, o mesmo não ocorreu com o caramujo-gigante. Esse molusco terrestre, que atinge 15 centímetros de comprimento por 8 de largura e pesa mais de 200 gramas, foi introduzido no Brasil há cerca de 20 anos. A tentativa de torná-lo uma alternativa gastronômica ao escargot não deu certo. Dez anos depois, descobriu-se que ele podia transmitir vermes que causam a angiostrongilíase meningoencefálica, doença que tem como sintomas dor de cabeça forte e constante, rigidez na nuca e distúrbios do sistema nervoso. Os criadores, então, o soltaram na natureza.

Não poderiam ter feito pior. O bicho proliferou e hoje é encontrado em quase todo o território nacional, principalmente no Nordeste. Além de transmitir vermes, o caramujo tornou-se uma praga. Ele destrói plantações, come frutas e legumes e compete com outros moluscos da fauna nativa, podendo levá-los à extinção. Por tudo isso, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) pretende exterminá-lo. Entre outras medidas, o órgão proibiu sua criação no território nacional.

O javali, por sua vez, não chegou ao País como clandestino nem foi trazido para ser criado. Ele veio com as próprias pernas. Essa espécie de porco- do-mato europeu, ancestral do doméstico e com peso de até 200 quilos, foi levada para a Argentina para a caça esportiva. De lá, passou para o Uruguai e depois, em 1991, para o Brasil, invadindo o Rio Grande do Sul, de onde se espalhou pelo País. Hoje ele também é encontrado em estado selvagem no Paraná, em São Paulo, Santa Catarina, Minas Gerais e Mato Grosso do Sul.

Capim-gordura (Melinis minutiflora)

Braquiária (Brachiaria decumbens)

Devido à sua grande resistência, alta capacidade de adaptação e à inexistência de predadores naturais em muitos locais que invade, ele é considerado pela IUCN uma das 100 piores espécies exóticas invasoras do mundo. O javali ataca principalmente plantações de milho e animais de criação, e pode transmitir doenças para a fauna nativa. Além disso, se adapta com facilidade a qualquer tipo de ambiente e começa a proliferar rapidamente. No Rio Grande do Sul, já causa problemas muito sérios. Para tentar reduzir a população do animal nesse Estado, o Ibama realizou nos últimos dez anos vários estudos e autorizou a caça do animal.

Rã-touro (Rana catesbeiana)

Além desses três invasores, outros vêm causando prejuízos significativos no País. Entre os vegetais, estão algumas gramíneas africanas, como a braquiária (Brachiaria decumbens), o capim-gordura (Melinis minutiflora) e o capim-anoni (Eragrostis plana wees), que infestam espaços naturais e agrícolas e são muito difíceis de erradicar. Também se incluem nessa categoria várias espécies do gênero Pinus, que podem se dispersar facilmente em áreas naturais e causam grande impacto quando plantadas em regiões de savana ou de vegetação rasteira.

Entre os animais, um caso sério é o da rã-touro (Rana catesbeiana), a mais comum para criação no mundo e que no Brasil já escapou para áreas naturais, causando sérios danos ao meio ambiente. Ela é uma comedora voraz de invertebrados e pequenos vertebrados. Outra vilã nessa história é a lebre europeia (Lepus europaeus), que invadiu o País pela fronteira com a Argentina e já é encontrada no sul de Goiás, causando grandes prejuízos à agricultura.

Diante desse quadro, o mundo resolveu se mexer e está tomando medidas para, pelo menos, amenizar o problema. No Brasil, o MMA, por meio da Comissão Nacional de Biodiversidade (Conabio), criou em 2006 e instalou no ano passado a Câmara Técnica Permanente sobre Espécies Exóticas Invasoras. “O objetivo é integrar os diversos setores públicos e privados a fim de propor estratégias para a prevenção, controle, monitoramento e erradicação delas e a mitigação de seus impactos”, explica Coradin.

Em nível mundial, existem ações da IUCN e do Grupo de Especialistas em Espécies Invasoras (ISSG, na sigla em inglês). Formado por 146 especialistas de 41 países, esse grupo fornece informações e métodos de controle e erradicação aos membros da IUCN, ambientalistas e órgãos governamentais. Além da sede em Auckland, na Nova Zelândia, o ISSG tem seções regionais na América do Norte, na Europa e na Ásia. Existe ainda o Programa Global de Espécies Invasoras (Global Invasive Species Programme – Gisp), criado em 1997 a partir de uma parceria entre o Comitê Científico para os Problemas do Meio Ambiente (Scope, na sigla em inglês), a IUCN e o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Unep, na sigla em inglês).

Espécies invasoras estão presentes em 103 unidades de conservação brasileiras, distribuídas por 17 estados

Apesar de todos esses esforços, os invasores estão em franca vantagem. O Secretariado da Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB), da ONU, estima que, desde 1600, as plantas exóticas estão relacionadas a 39% do total de espécies animais que se extinguiram. Outros dados da Convenção mostram que mais de 120 mil espécies exóticas de plantas, animais e microrganismos já invadiram os Estados Unidos, o Reino Unido, a Austrália, a Índia, a África do Sul e o Brasil. No Brasil, elas estão presentes em 103 unidades de conservação, espalhadas por 17 Estados. Como se vê, o problema está longe de uma solução.

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