O povo do gelo

Eles dividem as estações do ano em oito, pastoreiam renas sob temperaturas congelantes e reverenciam a aurora boreal. São os sámis, o povo nativo da Lapônia

Reindeer World Champion, o Campeonato Mundial de Renas, que acontece todos os anos em Kautokeino, norueguesa.

Não é um país, e sim a nação dos sámis, etnia indígena que há mais de quatro mil anos vive espalhada pelo extremo norte da Noruega, Suécia, Finlândia e Rússia. Calcula-se que hoje em dia existam aproximadamente 80 mil lapões, a maioria vivendo na região de Finnmark, nos confins da Noruega.

Já tivera contato com eles na primeira vez em que visitei Finnmark. Desta vez, meu objetivo foi me aprofundar um pouco mais em sua cultura e conhecer melhor seu território. Depois de um longo périplo trocando de voos até Oslo, a capital da Noruega, decolei rumo a Alta, a maior cidade de Finnmark, com uns 25 mil habitantes. Em torno de Alta estão as principais cidades sámis,Karasjok e Kautokeino. Além delas, há diversas comunidades menores de nomes exóticos, como Laks Elv (Rio de Salmões), Honnnigsvag, Karmoya, Kvaloya e outras espalhadas naquele fim de mundo.

Cheguei a Alta em abril para as festividades da Páscoa. Em algum momento de sua história, os sámis adotaram o calendário cristão, e a Páscoa é sua data mais importante. Durante dez dias, participei de competições, jogos e piqueniques, além de assistir a concertos e festivais.

Como nativos do gelo, os sámis são exímios conhecedores da neve e suas manifestações, a ponto de a glaciologia, a ciência que estuda os fenômenos do frio, tomar emprestadas várias palavras de seu vocabulário para uso acadêmico. Dependendo do clima, a neve pode assumir formas e características distintas (grudenta, cristalina, redonda, seca), mas para os sámis, que dizem reconhecer até 40 tonalidades distintas de branco, meia dúzia de generalizações não bastam – eles afirmam que há 180 diferentes estados da neve e que, para cada um deles, há um nome adequado no idioma sámi, oriundo do tronco linguístico ugrofinês e que possui semelhanças primitivas com o estoniano, o finlandês e o húngaro.

Eles são mestres na criação de renas e mantêm com esse animal uma relação ancestral de vida e morte. Naquelas paragens, o resistente mamífero é para eles um recurso vital, provendo carne e couro para sua sobrevivência. Segundo dados do Sámediggi, o Parlamento sámi em Karasjok, hoje existem aproximadamente 6 mil indivíduos da etnia vivendo como nômades, deslocando-se do interior para o litoral da durante o rigoroso inverno e retornando quando inicia o derretimento do gelo, em abril, cumprindo um ritual milenar. Para estes, além da carne, couro e ossos, a rena é também o animal de tração por excelência.

As estações do ano são marcadamente distintas naquelas paragens. O prolongado e intenso inverno cobre tudo de branco, tornando a paisagem desoladora, as noites longas e os dias curtos. Algumas regiões mais ao norte mergulham na escuridão durante quase dois meses. A curta primavera traz floradas exuberantes que colorem a tundra, o último cinturão de vegetação rasteira ao redor do Polo Norte, com uma variedade de cores e tonalidades inimagináveis durante o inverno. O verão, entre junho e agosto, é a estação verde, com a vegetação atingindo o auge de sua exuberância. Faz “calor” – a temperatura pode atingir “incríveis” 24ºC. O outono é curto e marcadamente vermelho e a vegetação começa a cair, prenunciando mais um longo inverno. De tão distintas as estações do ano, os sámis as dividem em oito, e não em quatro, como nós.

Renas

A rena (Rangifer tarandus), o mítico animal que puxa o trenó do Papai Noel, é conhecido na América do Norte como caribu. É um cervídeo de chifres que vive em manadas silenciosas pelas altas latitudes e magnificamente adaptado à aridez e a temperaturas baixíssimas. Nenhum outro animal de rebanho resiste a céu aberto nas noites do inclemente inverno na , quando a temperatura pode despencar para 45ºC negativos.

Do bicho tudo se aproveita: além da tração, carne e couro, os chifres e ossos são amplamente empregados na confecção de talheres, cabos, alças, puxadores, maçanetas, botões de camisa e soberbamente no Duodji, o artesanato sámi.

Suas galhadas caem todos os anos, tornando a crescer rapidamente até atingir nos machos, em menos de um ano, quase a mesma altura do animal – quando tornam a cair.

A vida naquela região pode ser muito dura e nada glamourosa – no auge do inverno, os sámis chegam a manejar seus rebanhos de renas sob uma temperatura de 45ºC abaixo de zero – tarefa duríssima mesmo para aqueles acostumados a isso há séculos.

Em Kautokeino, perguntei ingenuamente a Johan Isak Gaup, um bem-humorado criador, quantas renas ele tinha. E ele, sorridente, me devolveu outra pergunta:

“Depende. Quanto dinheiro você tem no banco? Pois perguntar a um sámi quantos animais ele possui é o mesmo que perguntar a alguém quanto dinheiro tem guardado”, explicou- me educadamente. E concluiu, sarcástico: “Bem, respondendo a sua pergunta: tenho mais de uma e menos de 100 mil.” E deu uma gargalhada. Os sámis afirmam possuir, em seu vasto vocabulário, mais de 1.500 palavras diferentes apenas para designar suas renas. Se a rena é marrom com pintas brancas, recebe um nome. Se ela é branca com pintas marrons, recebe outro nome, e assim por diante. Difícil imaginar aonde isso vai parar.

O envolvimento com as renas não se restringe à sobrevivência – fomos ver o Reindeer World Champion, ou Campeonato Mundial de Renas, que acontece anualmente em Kautokeino e reúne os expoentes desta curiosa competição. Com o tempo, a prova ganhou status e roupagem contemporânea – em vez dos elaborados trajes tradicionais, os esquiadores que competem puxados por renas aderiram ao ultracolorido figurino esportivo, vestidos como Jaspions das neves. É uma corrida de um por vez contra o relógio. Ganha quem percorrer o circuito em menor tempo. Detalhe curioso: quem recebe o prêmio não é o competidor, e sim a rena mais veloz.

Passamos o dia seguinte em um animado piquenique sobre a superfície congelada do rio Karasjok. Os Jogos Sámis reúnem dezenas de famílias, que assam salsichas, comem nacos de rena desidratada e tomam baldes de café ralo fumegante. Dentre várias diversões, a mais curiosa é o campeonato de atirar o sapato longe. Pois é, eles pegam um sapato típico sámi e enchem-no de palha. Os competidores agarram o sapato pelos cadarços e giram em volta de si mesmos para dar força ao arremesso, como arremessadores de uma Olimpíada. O vitorioso é aquele que lançálo mais longe. Fiquei por um bom tempo com a segunda melhor marca, mas acabei sendo superado.

Os joiks são a manifestação da forte musicalidade dos sámis. São melodias transmitidas de geração em geração, e cada família preserva e transmite seus próprios joiks por séculos. Ninguém sabe quantos joiks existem. Há diferentes joiks para distintas finalidades: pode-se devotar uma melodia à mulher amada, outra aos antepassados, outra aos filhos, à cura de doenças, à natureza, à prosperidade, etc. Fomos assistir ao Joik Grand Prix, um colorido festival musical que reúne centenas de sámis de vários clãs, vindos de diferentes regiões da . O Festival de Cinema de Kautokeino reúne anualmente dezenas de produções independentes, inclusive filmes brasileiros. As exibições acontecem à noite e a céu aberto. Os filmes são projetados em um inusitado telão de gelo com mais de dez metros de altura, enquanto a temperatura ronda os 20ºC negativos – ou menos ainda.

Eles dividem as estações do ano em oito, pastoreiam renas sob temperaturas congelantes e reverenciam a aurora boreal. São os sámis, o povo nativo da

O auge da celebração da Páscoa acontece na missa do domingo, quando a pequena igreja de Kautokeino fica lotada de sámis paramentados com seus elaborados trajes típicos.

Eles praticam um refinado artesanato, chamado Duodji. Utilizando chifres e ossos de renas, couro e madeira, criam utensílios, roupas e objetos artísticos belíssimos.

Assim como aconteceu (e ainda acontece) com inúmeras minorias em todo o mundo, historicamente os sámis passaram por maus momentos quando foram oprimidos pelos ocupantes noruegueses em sua expansão pelo norte do país, no século 9 e início do século 20. Hoje a história é bem diferente: há tempos a Noruega percorre o caminho contrário da opressão às minorias, e há pelo menos três décadas os sámis pegaram carona na prosperidade movida a petróleo desse rico país escandinavo.

Em 2000, o parlamento norueguês criou um polpudo fundo monetário para o povo sámi, destinado a fortalecer a língua e a cultura e como compensação coletiva pelos danos e injustiças cometidos pela antiga política de norueguização. O fundo é administrado pelo Sámediggi, o Parlamento sámi sediado em Karasjok. Em 1997, o rei Harald V da Noruega enfatizou que os lapões são uma parte integral da sociedade norueguesa e pediu desculpas pela maneira como eles foram tratados no passado. Atualmente, qualquer decisão envolvendo a região de Finnmark deve passar pelo crivo do Parlamento sámi. Parece o Brasil…

Aurora boreal

A aurora boreal, um dos mais impressionantes fenômenos naturais, acontece quase exclusivamente nas regiões polares. Para a ciência, suas luzes bruxuleantes se formam quando partículas subatômicas emitidas pelas explosões solares – prótons, elétrons e íons -, ao se aproximarem do planeta, são atraídos pelo magnetismo dos polos e colidem com gases da alta atmosfera, liberando energia luminosa.

Quando o fenômeno acontece entre 90 km e 200 km acima da superfície terrestre, predominam os tons de verde, mais frequentes. Entre 200 km e 500 km de altura surgem as raras auroras boreais vermelhas. Outros fatores contribuem para diferentes comprimentos de onda, formando auroras amarelas, brancas e violetas, entre outras cores.

Os sámis a reverenciam e possuem sua própria teoria para o Guovssahas, o nome desse fenômeno no complicadíssimo idioma lapão: para eles, as misteriosas luzes que dançam no céu são aparições de seus antepassados, que ali ressurgem para lhes transmitir conhecimento e sabedoria.

Os sámis agora vivem em confortáveis casas aquecidas, têm acesso a todo tipo de bens de consumo, falam em celulares de última geração, usam caríssimos snowmobiles (uma espécie de jet ski para a neve) para pastorear suas renas e transitam em carros novos. Muito diferente do cotidiano duríssimo de algumas décadas atrás, quando se locomoviam em trenós puxados por renas, pescavam e caçavam para sua sobrevivência e viviam em lavvus, cabanas de couro ou pano com um buraco no alto para o escape da fumaça da fogueira – vital para manter o interior aquecido. Hoje em dia, os lavvus são usados apenas para o lazer e são poucos os que ainda vivem neles.

Em sentido horário, um dos modelos de sapatos dos lapões; sámis na missa do domingo de Páscoa; crianças em Varangerbotn, fiorde próximo a Karasjok; e colagens estudantis feitas com pelos de renas.

Em Karasjok, visitei um jardim da infância. Segundo seus educadores, muitas influências externas nos últimos tempos arrefeceram nos jovens sua disposição para a prática das tradições – principalmente a árdua lida com as renas, que precisa ser aprendida desde cedo. Para restabelecer o curso das tradições, implantaram um modelo de ensino infantil tematizado em sua própria cultura. A rotina tem aspectos curiosos e outros espantosos: cada criança, ao chegar, posiciona sua pequena rena de madeira voltada para a direção migratória do animal naquela época. Como essa direção muda durante o ano, isso faz com que os pequenos cresçam adquirindo a capacidade de, num lampejo, em qualquer lugar onde estejam, saber para aonde vão ou de onde vêm os rebanhos, apenas observando a direção do sol.

Espantosas são as aulas de desossa, quando pequenos de 5 e 6 anos manuseiam facas afiadíssimas – sob a atenta supervisão das professoras sámis – e destrincham renas recém-abatidas tal como gente grande. Só na Noruega, pensei. Do lado de fora, as crianças penduram nacos frescos dentro de tendas especiais para defumar a carne. Os sámis a consomem regularmente, como a carne bovina no Brasil.

Desde 2004, 6 de fevereiro é o Dia Nacional da Nação Sámi, uma data oficial celebrada não apenas na Noruega, mas também na Suécia, Finlândia e Rússia, como um símbolo de uma pequena e unida nação que ultrapassa as fronteiras políticas dos países que a compõem.

 

 

Como chegar

A SAS (Scandinavian Air) voa para a Noruega a partir de diversas capitais europeias. De Oslo partem voos diários para Alta. www.flysas.com

Innovation Norway – Tudo sobre turismo na Noruega. www.visitnorway.com

Finnmark – www.visitnorthcape.com

Onde ficar

Alta – Rica Alta Hotel. www.ricahotels.com/index.cfm?oa=hotel. display&con=474

Karasjok – Rica Karasjok Hotel. www.rica-hotels.com/index. cfm?oa=hotel.display&con=454

 

Legendas:

No alto, em sentido horário, o campeonato de atirar o sapato longe, na superfície do rio Karasjok; lapona típica; e o campeonato de laço, em Kautokeino.

Performance no Joik Grand Prix, festival musical que reúne sámis de vários clãs.

Há milhares de anos os sámis reverenciam a rena, seu grande mestre da sobrevivência em cenários extremos.

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