O que acontece no cérebro quando imaginamos o futuro?

Pesquisa americana descobriu que duas sub-redes neurais estão trabalhando nesses momentos – uma focada na criação do novo evento, outra em avaliar se esse evento é positivo ou negativo

Imaginar as férias que se aproximam deflagra a atuação de duas sub-redes no cérebro. Crédito: Piqsels

Em momentos de quietude, o cérebro gosta de vagar – para os eventos de amanhã, uma conta não paga, as férias que se aproximam.

Apesar da pouca estimulação externa nesses casos, uma parte do cérebro chamada de rede de modo padrão (DMN, na sigla em inglês) está trabalhando duro. “Essas regiões parecem estar ativas quando as pessoas não são solicitadas a fazer qualquer coisa em particular, em vez de serem solicitadas a fazer algo cognitivamente”, disse o neurocientista Joseph Kable, da Universidade da Pensilvânia (EUA).

Embora o campo suspeite há muito tempo que essa rede neural desempenha um papel na imaginação do futuro, o modo como ela funciona não era totalmente compreendido. Agora, a pesquisa de Kable e de dois ex-alunos de pós-graduação em seu laboratório, Trishala Parthasarathi, diretora associada de serviços científicos da OrtleyBio, e Sangil Lee, pós-doutoranda na Universidade da Califórnia em Berkeley, lança luz sobre o assunto.

Partes complementares

Em um artigo publicado na revista The Journal of Neuroscience, a equipe de pesquisa descobriu que, quando se trata de imaginar o futuro, a rede de modo padrão na verdade se divide em duas partes complementares. Uma ajuda a criar e prever o evento imaginado, o que os pesquisadores chamam de função “construtiva”. A outra avalia se aquele evento recém-construído é positivo ou negativo, o que eles chamam de função “avaliativa”.

“É uma divisão legal”, diz Kable. “Quando psicólogos falam sobre por que os humanos têm a capacidade de imaginar o futuro, geralmente é para que possamos decidir o que fazer, planejar, tomar decisões. Mas uma função crítica é a função avaliativa; não se trata apenas de apresentar uma possibilidade, mas também avaliá-la como boa ou ruim. “

Trabalho anterior

A própria DMN inclui o córtex pré-frontal ventromedial, o córtex cingulado posterior e regiões nos lobos temporais mediais e parietais, como o hipocampo. Tem um nome apropriado, diz Kable. “Quando você coloca as pessoas em um scanner cerebral e pede que não façam nada, apenas fiquem sentadas, essas são as regiões do cérebro que parecem estar ativas”, diz ele.

Pesquisas anteriores haviam revelado quais áreas compõem a DMN e que construir e avaliar eventos imaginados ativa diversos componentes. Kable queria testar essa ideia ainda mais, para identificar melhor as regiões envolvidas e o que está acontecendo em cada uma delas.

Para fazer isso, ele e sua equipe criaram um estudo no qual 13 mulheres e 11 homens receberam instruções enquanto estavam em uma máquina de ressonância magnética funcional (fMRI). Os participantes tinham sete segundos para ler uma das 32 dicas, como “Imagine que você está sentado em uma praia quente em uma ilha tropical” ou “Imagine que você ganhará na loteria no próximo ano”. Eles então tiveram 12 segundos para pensar sobre o cenário, seguidos por 14 segundos para avaliar a vivacidade e a valência.

Duas sub-redes

“Vivacidade é o grau em que a imagem que vem à mente tem muitos detalhes e o quanto esses detalhes se destacam subjetivamente em vez de serem vagos”, diz Kable. “Valência é uma avaliação emocional. Quão positivo ou negativo é o evento? Isso é algo que você quer que aconteça ou não?”

Os participantes passaram pelo processo quatro vezes. A cada vez, os pesquisadores observavam a atividade cerebral do fMRI. O trabalho confirmou duas sub-redes em jogo.

“Uma rede, que chamaremos de rede de modo padrão dorsal, foi influenciada pela valência. Em outras palavras, era mais ativa para eventos positivos do que negativos, mas não era influenciada de forma alguma pela vivacidade. Parece ser envolvida na função avaliativa”, disse Kable.

A outra sub-rede, a rede de modo padrão ventral, foi mais ativa para eventos altamente vívidos do que para eventos sem detalhes. “Mas não foi influenciada pela valência”, afirmou ele. “Foi igualmente ativa para eventos positivos e negativos, mostrando que a rede realmente está envolvida na construção da peça de imaginação.”

Próximos passos

De acordo com Kable, as descobertas oferecem um primeiro passo para a compreensão da base das habilidades imaginativas. Essa pesquisa pediu aos participantes que avaliassem a positividade ou negatividade de um evento imaginado, mas avaliações mais complexas – indo além da simples dimensão bom versus ruim, por exemplo – podem oferecer mais pistas sobre esse processo neural.

Esse tipo de análise provavelmente incluirá trabalhos futuros para o laboratório de Kable. Ele já começou a usar as descobertas para analisar por que as pessoas não valorizam os resultados futuros tanto quanto os imediatos.

“Uma teoria é que o futuro não é tão vívido, não é tão tangível, detalhado e concreto como algo bem na sua frente”, disse ele. “Começamos a usar nossa identificação da sub-rede envolvida na construção para fazer a pergunta: quão ativa é essa rede quando as pessoas estão pensando em resultados futuros em comparação com o mesmo resultado no presente.”

Embora a pesquisa tenha sido concluída antes da covid-19, Kable vê implicações relacionadas à pandemia para essas descobertas. “Se você descrevesse como seria a vida de uma pessoa antes de a pandemia nos atingir – você vai trabalhar em casa e usar uma máscara toda vez que sair de casa e não ter nenhum contato social –, ela ficaria boquiaberta. E, no entanto, uma vez que temos as experiências reais, não é mais tão estranho. Para mim, isso demonstra que ainda temos muito a percorrer para compreender nossas capacidades imaginativas.”

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