O que Angela Merkel fez pelo feminismo na Alemanha

Primeira mulher a governar o país, ela resistiu em abraçar abertamente a bandeira da luta pela igualdade dos direitos das mulheres. Mesmo assim, seus 16 anos no poder foram marcados por alguns avanços na área.”Quem poderia imaginar que o mais alto cargo do governo seria entregue a uma mulher este ano?”, dizia Angela Merkel em 2005. Isso foi pouco depois de se tornar a primeira chanceler alemã. Quase 16 anos depois, há uma geração inteira de alemães que não conhece ninguém além dela própria no comando da nação. “Parece que já teve até gente se perguntando por aí se um homem também poderia concorrer ao cargo”, brincou Merkel, arrancando risos da plateia, durante uma cerimônia em 2018 celebrando “100 anos de sufrágio feminino”.

Cidadã da antiga Alemanha Oriental, filha de pastor, formada em física, Merkel tem como modelo a cientista polonesa naturalizada francesa Marie Curie, única mulher a ganhar duas vezes o Nobel – uma pioneira. Uma das mulheres mais poderosas do mundo, Merkel foi frequentemente subestimada em seu caminho para o poder, inclusive em seu próprio partido. Na conservadora União Democrata Cristã (CDU), uma alemã oriental que passou por um divórcio e não tem filhos é considerada um “corpo estranho”, como escreve sua biógrafa Jacqueline Boysen.

Merkel e os jogos de poder dos homens

Ela precisou se acostumar com os jogos de poder dos homens alfa na política internacional: Silvio Berlusconi a fez esperar, Vladimir Putin levou um cachorro para uma reunião, embora saiba que Merkel tem medo de tipo de animal, e George W. Bush lhe fez massagem na nuca sem perguntar antes. Mais tarde, Merkel é admirada por mulheres em todo o mundo por sua maneira sutil de lidar com o sexismo e a arrogância dos interlocutores homens. Seu revirar de olhos durante uma conversa com o presidente russo na cúpula do G20 de 2017 é lendário.

“Ela aprendeu a se afirmar em um ambiente masculino, talvez, às vezes, a representar um pouco a posição da mulher. Mas ela nunca se propôs em ser realmente uma lutadora pelas mulheres”, diz a biógrafa de Merkel Jacqueline Boysen.

Ela, que também já chefiou o Ministério da Mulher, por muito tempo não mostrou disposição para se engajar pela política de igualdade de gênero. “Porque ela também queria ser votada pelos homens”, diz Boysen. Ela resiste por muito tempo a se denominar feminista. Durante anos, Merkel rejeitou uma cota para mulheres em empresas. Ela não quer a intervenção do governo e espera que as empresas tragam naturalmente mais mulheres para cargos de gestão. Essa esperança foi frustrada, admite Merkel em 2021. “Eu imaginei que tudo seria mais fácil em 1990, quando entrei para a política, devo dizer com toda a franqueza”, reconheceu.

Avanços, apesar do partido

Há uma tática por trás de tudo isso: para permanecer no poder, Merkel precisa do apoio de seu partido. No entanto, os conservadores costumavam estar a quilômetros de distância de uma agenda feminista. Para Merkel, que cresceu na Alemanha Oriental, não é incomum que as mulheres sejam mães e trabalhem ao mesmo tempo. Em seu partido, porém, prevalece há décadas uma visão conservadora da família: o homem trabalha e ganha o dinheiro, enquanto a mulher fica em casa com os filhos.

Mas junto com os parceiros da coalizão, novas leis foram aprovadas durante quase 16 anos de governo Merkel que devem contribuir para uma imagem moderna da família: licença e auxílio financeiro para pais e mães são introduzidos, vagas para creches são ampliadas em todo o país e uma nova regra é criada, visando facilitar o retorno de jovens mães ao trabalho.

Mas com sucesso? Bilhões foram investidos em creches, mas centenas de milhares ainda estão faltando para crianças. E ainda são principalmente as mulheres que colocam a carreira em segundo plano e cuidam da família. Quase metade das mulheres na Alemanha trabalha em meio período. Atualmente mais homens tiram licença paternidade, mas ainda em muito menor quantidade e por tempo mais curto em relação às mulheres.

Crítica da oposição

A eurodeputada do Partido Verde, legenda de oposição a Merkel, Franziska Brantner descreve a chanceler como alguém que “não é uma grande defensora dos direitos das mulheres”. Ela acredita que a primeira mulher a governar a Alemanha, com tanto poder e influência, poderia e deveria ter feito mais. “Combatendo efetivamente a violência contra as mulheres o financiamento de abrigos para mulheres, na luta contra a desigualdade salarial entre mulheres e homens na Alemanha, por mais mulheres nos conselhos administrativos das empresas e uma luta mais efetiva contra a pobreza familiar”, enumera.

Ao mesmo tempo, sob Merkel, mais mulheres chegam a altos cargos e funções. O Ministério da Defesa foi preenchido com mulheres várias vezes nos últimos anos, e os cargos de assessoria mais próximos de Merkel também são preenchidos por mulheres.

Durante suas viagens ao exterior, Merkel tem repetidamente abordado os direitos das mulheres e meninas: no Níger, ela visitou um refúgio para mulheres, na Coreia do Sul, incentivou as alunas a entrarem na política. Mas isso é mais do que apenas política simbólica? “Eu realmente não vi que ela estivesse fazendo campanha pela igualdade de gênero na ONU, na UE ou na Alemanha”, critica a eurodeputada verde Franziska Brantner.

Exemplo para novas gerações

Mas o legado de Merkel para as mulheres é complexo, concordam os especialistas. Muita coisa pode ter mudado (entre outras coisas) por causa de Merkel – como a política familiar. Outras coisas talvez tenham mudado apesar de Merkel – a sociedade se desenvolveu ainda mais, por exemplo, considerando os direitos das pessoas LGBT com, por exemplo, o “casamento para todos”. Como tantos outros países ao redor do mundo, a Alemanha ainda não alcançou a igualdade total.

Provavelmente, o maior legado de Merkel é o fato de que uma mulher consegue liderar o país – e isso passando por tantas crises. “Ninguém ri de uma garota hoje em dia quando ela diz que quer se tornar uma ministra ou mesmo uma chanceler federal”, disse Merkel em 2018. Hoje ela é um modelo para as mulheres em todo o mundo.

No final de seu mandato, Angela Merkel parece mais livre e engaja mais por temas específicos das mulheres. Ela não precisa mais ganhar uma eleição. Pouco antes do final de seu governo, ela se declara publicamente como feminista, algo que resistia a fazer anteriormente. “Todos nós devemos ser feministas.”

Veja também
+ Casamento de Ana Maria Braga chega ao fim após marido maltratar funcionários, diz colunista
+ Conheça a eficácia de cada vacina no combate à Covid-19
+ Veja fotos de Karoline Lima, novo affair de Neymar
+ Lázaro Barbosa consegue fugir de novo da polícia após tiroteio
+ Gracyanne Barbosa dança pole dance com novo visual
+ Agência dos EUA alerta: nunca lave carne de frango crua
+ Após processar nora, mãe de Medina a acusa de ter destruído sua casa; veja fotos
+ Yasmin Brunet quebra o silêncio
+ Fondue de chocolate com frutas fácil de fazer
+ Tubarão é capturado no MA com restos de jovens desaparecidos no estômago


COMPARTILHAR