O que se sabe sobre a covid-19 até agora?

Quase um ano se passou desde que o novo coronavírus ficou conhecido mundo afora. Desde então, cientistas descobriram uma série de detalhes sobre o vírus e sobre como tratar a doença. Entenda.Em janeiro deste ano, autoridades chinesas anunciaram que um novo tipo de coronavírus estava se espalhando pela cidade de Wuhan. No final de dezembro, mais de 78 milhões de pessoas haviam sido infectadas e mais de 1,7 milhão morreram em decorrência do vírus, o Sars-Cov-2, causador da doença covid-19.

A seguir, uma visão geral do que foi descoberto sobre o novo coronavírus e sobre quanto a medicina avançou no combate à doença até agora:

Origem do coronavírus

Quando a existência do vírus foi anunciada, a primeira infecção de um humano já havia aparentemente ocorrido várias semanas antes. Inicialmente, as autoridades chinesas pareciam ter tentado ocultar qualquer evidência.

Até hoje, não está exatamente claro quando e onde o vírus foi transmitido de um animal para um ser humano. A transmissão de um morcego para um hospedeiro intermediário, talvez um tanuki, e depois para humanos é considerada provável e pode ser a origem da atual pandemia.

Há evidências que sugerem que o vírus já havia se espalhado pelo mundo no final do verão de 2019. Desde então, ele foi encontrado em amostras coletadas na Itália em setembro do ano passado, o que é consistente com uma análise do genoma do Sars-Cov-2 feita por pesquisadores britânicos.

Características do vírus

Virologistas chineses decifraram as informações genéticas do vírus em tempo recorde. Em 21 de janeiro, eles publicaram a estrutura do genoma e, três dias depois, uma descrição detalhada do vírus. Isto permitiu que médicos e microbiologistas do mundo inteiro começassem a desenvolver medicamentos e vacinas.

Típica do vírus é a proteína spike (S) localizada em sua superfície. Ela é crucial para a conexão com a célula hospedeira. É por isso que uma grande parte do desenvolvimento de medicamentos e vacinas está focada em conectar com ou bloquear essa proteína ou torná-la ineficaz de alguma outra forma.

Transmissão

Nesse meio tempo, constatou-se em um estudo realizado por virologistas na cidade de Heinsberg, um dos primeiros focos da doença na Alemanha, que o vírus é particularmente prevalente na garganta e nos pulmões.

Além do contato direto com uma pessoa infectada ou com uma superfície contaminada, a infecção pode ocorrer por meio de aerossóis. Essas partículas se propagam particularmente bem através de sistemas de ar-condicionado.

Ambientes fechados com muitas pessoas são muito perigosos. É por isso que as medidas de isolamento social, o fechamento de estabelecimentos de entretenimento e o cancelamento de grandes feiras e eventos foram cruciais para conter a doença.

Grandes cadeias de infecção puderam ser rastreadas até os chamados eventos supertransmissores.

O uso de máscaras já se estabeleceu em quase todos os países do mundo, apesar de inicialmente muitos profissionais de saúde terem questionado se a maioria das pessoas seria capaz de usá-las na vida cotidiana de forma a ajudar a prevenir a transmissão potencial do vírus.

O mais importante é lavar as mãos, manter distância de outras pessoas e arejar bem os ambientes.

Mesmo que alguns animais de estimação, como gatos e furões, possam ser infectados por humanos, eles não desempenham um papel significativo nas cadeias de infecção. Entretanto, infecções em fazendas de visons em numerosos países causaram grande preocupação, e autoridades ordenaram o abate de milhões de animais.

Sintomas e grupos de risco

Inicialmente, pensava-se que o novo vírus não fosse mais perigoso do que a gripe sazonal. Agora, no entanto, os médicos sabem que a doença representa uma ameaça semelhante à da devastadora gripe espanhola de 1918. Embora muitas pessoas possam contrair o Sars-Cov-2 e não apresentar sintomas, outras ficam gravemente doentes.

Alguns grupos de pessoas são mais frequentemente afetados do que outros: pessoas com doenças preexistentes, idosos, pessoas com tipo sanguíneo A e homens estão mais em risco.

Patologistas que examinaram vítimas da covid-19 confirmaram que pressão arterial elevada, diabetes, câncer, insuficiência renal, cirrose hepática e doenças cardiovasculares estão entre as condições preexistentes mais perigosas. Em princípio, no entanto, um caso grave da doença pode afetar qualquer pessoa, inclusive jovens.

Formas leves de covid-19 podem se manifestar como um resfriado. Os sintomas típicos são dor de garganta, problemas respiratórios e perda do olfato e do paladar.

Em casos graves, no entanto, pode ocorrer uma doença multiorgânica com risco de morte. Um quadro grave da doença pode levar à sepse – uma reação exagerada, frequentemente fatal, do sistema imunológico, que ataca os próprios tecidos e órgãos da pessoa infectada.

Portanto, a gravidade do curso da doença depende em grande parte de quão fortemente o sistema imunológico reage ao vírus.

Tratamento

No início da pandemia do novo coronavírus, muitos pacientes com casos graves da doença receberam respiração artificial (intubação) em um estágio inicial e acabaram morrendo.

Nesse meio tempo, o procedimento padrão mudou, pois especialistas em pulmões apontaram que muitas vezes a respiração artificial pode causar mais danos do que benefícios para os pulmões. Enquanto forem capazes de respirar por conta própria, pacientes agora costumam receber oxigênio sem estarem conectados a um respirador. A intubação é geralmente usada como uma opção apenas em uma emergência extrema.

Em muitos casos, quando os rins são severamente danificados pela covid-19, a diálise também é necessária. Unidades de terapia intensiva agora também estão levando em conta outros órgãos danificados.

O tratamento pode ser acelerado em clínicas especializadas com a administração de anticorpos provenientes do sangue de pacientes curados da covid-19.

Em geral, pacientes de covid-19 precisam passar por medidas de reabilitação longas e individualmente adaptadas após o tratamento médico, que também devem levar em conta doenças preexistentes e possíveis danos aos órgãos.

Nenhum medicamento convincente

O remdesivir é o único medicamento farmacêutico que demonstrou encurtar a duração da doença. Mas não se trata de uma cura milagrosa. Ele reduz em alguns dias o tempo necessário para a cura em pacientes que recebem oxigênio, mas não aumenta as suas chances de sobrevivência. Em 20 de novembro, a Organização Mundial da Saúde (OMS) desaconselhou o uso do remdesivir em pacientes com covid-19.

Médicos também tentaram usar outros medicamentos que já estão no mercado para combater o coronavírus, como o anti-inflamatório dexametasona, o inibidor de RNA polimerase avigan e a droga antimalárica hidroxicloroquina. A eficácia e segurança dos dois primeiros medicamentos ainda não foi conclusivamente comprovada, enquanto a hidroxicloroquina demonstrou ser ineficaz e pode até mesmo ser perigosa.

Como está o desenvolvimento de vacinas?

As primeiras vacinas disponíveis ao público chegaram aos Estados Unidos e à União Europeia (UE) em dezembro. Outras devem ser autorizadas em 2021.

A produção em grande quantidade e a organização de campanhas de vacinação efetivas são os principais desafios da indústria farmacêutica e das autoridades de saúde. Vacinas baseadas em RNA, que podem ser produzidas com relativa rapidez, têm uma vantagem nesse ponto.

Contudo, especialistas avaliam ser improvável que as campanhas de vacinação sejam concluídas antes de 2022.

Pelo menos 214 projetos de vacina foram lançados em todo o mundo (até 23 de dezembro de 2020) segundo a Organização Mundial da Saúde, e 227 segundo empresas farmacêuticas alemãs de pesquisa. Os projetos estão essencialmente divididos em três tipos de vacinas: vacinas de vírus atenuado, vacinas de vírus inativado e vacinas de RNA.

No caso das vacinas de RNA, médicos estão entrando em território desconhecido, porque nenhuma vacina desse tipo aprovada foi usada no passado.

Tanto as vacinas da Biontech/Pfizer como a da Moderna são vacinas de RNA. O imunizante da Biontech/Pfizer já foi aprovado nos EUA e na UE, e o da Moderna já foi aprovado nos EUA e deve ser aprovado na UE no início de janeiro.

Em novembro, a AstraZeneca também informou que a sua vacina em desenvolvimento teve resultados bons o suficiente em ensaios clínicos de fase 3 para solicitar o uso emergencial nos EUA.

No Brasil, quatro laboratórios testaram vacinas: o chinês Sinovac, que desenvolve a vacina Coronavac em parceria com o Instituto Butantan; AstraZeneca, que trabalha numa vacina em parceria com a Universidade de Oxford e, no Brasil, com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz); Janssen e Biontech/Pfizer.

O governo brasileiro firmou um acordo de compra antecipada de doses com a AstraZeneca e negocia também com outros laboratórios. E as primeiras doses da Coronavac, aposta do governo do estado de São Paulo, já chegaram ao Brasil.

O Instituto Butantan prevê oferecer as primeiras doses da Coronovac em janeiro. E a Fiocruz projeta entregar as primeiras doses da vacina da AstraZeneca/Oxford no Brasil em fevereiro.

Quando a imunidade do rebanho será alcançada?

É verdade que cada vez mais pessoas estão sendo infectadas em todo o mundo. Até o final de dezembro, mais de 78 milhões de pessoas contraíram o vírus. Entretanto, com sua população de 7,8 bilhões, o mundo ainda está muito longe de atingir qualquer grau de imunidade efetiva à doença.

Além disso, não está claro se os pacientes recuperados permanecem imunes ao vírus. Um teste sorológico pode determinar se alguém carrega anticorpos contra o vírus. Um teste de reação em cadeia da polimerase (PCR), feito com um cotonete, pode deixar claro se alguém está na fase aguda da doença e contagioso.

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