O renascimento da energia nuclear

Depois de ficar algum tempo em plano secundário, a energia nuclear volta a ser uma opção concreta em vários países, incluindo o Brasil.

 

Os maiores parques nucleares

País

Número

de usinas

EUA

104

França

58

Japão

56

Rússia

31

Coréia do Sul

20

Quando se fala em energia nuclear, a memória das pessoas com mais de 40 anos repassa, quase automaticamente, palavras como “Chernobyl” e “Three Mile Island”. Os desastres ocorridos nessas usinas – o de Chernobyl, na Ucrânia, em 1986; o de Three Mile Island, nos Estados Unidos, sete anos antes – estão entre os principais argumentos dos críticos dessa forma de energia, como o físico brasileiro José Goldemberg, prêmio Planeta Azul (o Nobel do meio ambiente) de 2008. Por que investir nela, se um erro em seu funcionamento pode causar tantos estragos ambientais e humanos? E o que fazer com os perigosíssimos resíduos radiativos dessa atividade, cuja destinação até hoje é uma incógnita?

Presença no mundo

Percentual da energia nuclear na matriz energética dos países

França

76,8

Japão

27,5

Lituânia

64,4

Alemanha

25,9

Bélgica

54,0

EUA

19,4

Ucrânia

48,1

Espanha

17,4

Suécia

46,1

Rússia

16,0

Eslovênia

41,6

Canadá

16,0

Suíça

40,0

Reino Unido

15,1

Hungria

36,8

Argentina

6,2

Coréia do Sul

35,3

México

4,6

Finlândia

28,9

Brasil

2,8

 

Mas a necessidade de ser autossuficiente em energia, a escassez de fontes para isso e a ameaça cada vez mais onipresente do aquecimento global (cujo combate envolve a adoção de tecnologias que não liberem gases-estufa na atmosfera) têm feito o mundo olhar com outros olhos para a energia nuclear. Ela, aliás, é defendida por um “verde” acima de qualquer suspeita: o cientista britânico James Lovelock, criador da Hipótese Gaia. De acordo com ele, atualmente não há outra alternativa “lógica” para a necessidade de substituir a energia oriunda de combustíveis fósseis além da nuclear.

Com isso, e apesar de todas as pressões contrárias (e do preço para lá de salgado), a energia nuclear destinada a fins pacíficos é – diversamente do que se observava há alguns anos – um negócio em expansão no mundo. Hoje em dia há cerca de 440 reatores em ação ao redor do planeta, localizados em 31 países e gerando aproximadamente 17% da produção global de eletricidade. Cerca de 50 reatores estão em construção, especialmente na China, na Coreia do Sul e na Rússia. A França, a Índia, a Finlândia e até o Brasil (ver quadro à pág. 25) também estão erguendo novas plantas.

A França, aliás, tem demonstrado há um bom tempo confiar plenamente na energia nuclear: quase 77% de sua matriz energética se baseia nessa fonte, o percentual mais elevado do planeta. O país possui atualmente 58 usinas, o que lhe dá a vice-liderança mundial no número de plantas do gênero. O primeiro lugar nessa classificação é, disparado, dos EUA, com 104 – número que vai aumentar significativamente nos próximos anos, numa verdadeira “renascença nuclear” iniciada pelo governo de George W. Bush em 2007 e assimilada por Barack Obama.

A base tecnológica

Duas tecnologias aparentadas – reatores de água pressurizada e água fervente – têm convivido desde o início da era da energia nuclear. No reator de água pressurizada (tipo predominante nos EUA), a água superaquecida é bombeada sob alta pressão para o núcleo do reator, onde transfere sua energia térmica para um sistema a vapor secundário que gira uma turbina a fim de gerar eletricidade. No reator de água fervente, a água, injetada diretamente no núcleo, cria uma mistura de vapor d’água que gira a turbina.

A ânsia do governo Obama por tirar seu país da dependência do petróleo e trocá-lo por fontes energéticas mais limpas está por trás da abertura dos cofres para o setor nuclear. Só em fevereiro deste ano, a Casa Branca anunciou US$ 18,5 bilhões em créditos tributários para o setor, além de garantias de empréstimos para novos reatores. Um projeto de lei sobre o clima elevaria essas garantias para US$ 54 bilhões. Calcula-se que cada nova usina nuclear norteamericana custe entre US$ 10 bilhões e US$ 12 bilhões. (A propósito, a vida útil de cada usina do país é limitada a 60 anos.)

A nova fase de investimentos dos EUA em energia nuclear veio com tamanha intensidade – entre 2007 e 2009 houve 18 pedidos de construção de novas plantas – que encontrou os órgãos reguladores despreparados para a demanda.

Para cuidar dos novos pedidos de licenciamento, a Comissão Reguladora Nuclear (NRC, na sigla em inglês), que havia perdido pessoal em virtude da falta de trabalho, contratou cerca de mil funcionários, cuja falta de experiência já inquieta muita gente. No geral, os norte-americanos acompanham entre animados e apreensivos esse renascimento nuclear. Afinal, foi lá que falhas humanas e de equipamento levaram ao primeiro grande acidente nuclear da história (ver quadro abaixo). Lá também é o país do popularíssimo anti-herói da tevê Homer Simpson, ácido emblema do norteamericano médio. Funcionário de uma usina nuclear, ele exibe uma (des)qualificação profissional habitualmente satirizada nas tramas da série.

O popular anti-herói Homer Simpson esbanja incompetência em seu emprego numa usina nuclear.

Para minimizar os riscos de problemas como ações desastradas de algum Homer Simpson, os novos modelos de usinas são mais simples e, em caso de acidentes, dependem menos de intervenções humanas ou mecânicas. A NRC tem aumentado o controle regulador desses projetos, exigindo características de segurança adicionais ou alterações de engenharia para melhorar o fornecimento de água de resfriamento de emergência. Alguns projetos, por exemplo, investem na gravidade para suprir essa água, em vez de bombas passíveis de falhas. A meta é reduzir o risco de um acidente capaz de danificar os núcleos dos reatores para uma ocorrência a cada 10 milhões de anos. E, mesmo que isso acontecesse, o governo considera que ainda assim a radiação não escaparia, pois os reatores têm edifícios de contenção e sistemas específicos para impedir que ela seja liberada.

 

Torres iluminadas de central nuclear russa. O país também está construindo novas usinas.

Vista assim, a história da expansão do maior parque nuclear mundial parece bem encaminhada. Mas há problemas, afirmam os críticos. As estruturas de contenção dos projetos de centrais nucleares, por exemplo, são reforçadas desde o 11 de Setembro de 2001, de modo a resistir ao impacto direto de um avião, mas um modelo que sete concessionárias pretendem adotar, da empresa Westinghouse, não suportaria um grande terremoto, avalia a NRC. A recomendação pós-Three Mile Island de que se seguissem no máximo dois esquemas-padrão para as usinas – uma forma de simplificar o licenciamento, a construção e a operação das novas centrais, com a vantagem adicional de reduzir custos – está sendo atropelada pelas concessionárias. Na ânsia de conquistar mais rapidamente os recursos oficiais, elas aumentaram o leque para cinco esquemas-padrão, desenvolvidos em projetos feitos sob medida, cada qual com suas particularidades e exigências. Isso significa muito mais trabalho para a NRC e gastos bem maiores de manutenção.

A indústria nuclear, representada pelo Nuclear Energy Institute, tem alegado que suas avaliações de risco na concepção das novas usinas, para medir a probabilidade de um acidente grave, têm resultado em números muito baixos. Mas, para Edwin Lyman – cientista sênior da Union of Concerned Scientists, que tem avaliado a segurança de reatores nos últimos 40 anos -, os riscos dos atuais projetos são muito baixos quando apenas os eventos internos (como incêndios ou quebras de tubulação) são considerados. No caso de eventos externos, como terremotos, as novas centrais não mostram nenhum ganho de segurança em relação às suas antecessoras.

Lyman lembra ainda que, como os reatores são novos, as concessionárias na verdade não possuem nenhuma experiência operacional com eles, o que torna as avaliações de risco mais um exercício teórico do que um estudo baseado em dados concretos. Mas o mais importante, segundo o cientista, é que o projeto original desses aparelhos lhes permite suportar apenas uma sequência previsível de eventos. Acontecimentos inesperados, como os observados em Three Mile Island, já causariam acidentes, alerta Lyman.

Energia nuclear, enfim, é um negócio que envolve riscos, e cabe aos investidores, aos governos (que em vários casos também estão no primeiro papel) e à sociedade avaliar se vale a pena correr esses riscos em função do provável retorno. Em países como o Brasil, a dúvida é considerável, dadas as alternativas disponíveis. Para quem não as tem, como França ou Japão, a opção pela energia nuclear é compreensível – e, uma vez adotada, não adianta muito reclamar das consequências. Como observou o químico japonês Yumi Akimoto, um dos formuladores da política energética de seu país, “se vamos aceitar o poder nuclear, temos de aceitar o sistema por completo. Algumas vezes queremos nos deliciar com a primeira colheita de frutas, mas esquecemos como cultivar as árvores”.

 

Ícones do desastre nuclear

Chernobyl – Construída em Pripyat, na Ucrânia (então parte da União Soviética), a usina de Chernobyl foi palco, em 26 de abril de 1986, do pior acidente nuclear da história: uma explosão de vapor em seu reator 4, seguida de incêndio, novas explosões e, por fim, um derretimento nuclear. A nuvem de radiatividade resultante atingiu a União Soviética, a Europa Oriental, a Escandinávia e o Reino Unido. A contaminação, 400 vezes maior do que a registrada em Hiroshima após a explosão da bomba atômica, em 1945, levou à evacuação e ao reassentamento de populações de grandes áreas da Ucrânia, da Rússia e de Belarus (país no qual caiu cerca de 60% da radiatividade). Um relatório da ONU de 2005, contestado por ambientalistas, informou que o acidente causou 56 mortes até aquela data e originou doenças que matariam mais 4 mil pessoas. Defeitos no projeto do reator e falhas humanas são as prováveis causas do acidente.

Three Mile Island – Situada na Pensilvânia (EUA), a usina de Three Mile Island registrou em 28 de março de 1979 o até então maior acidente nuclear do mundo. A soma de erros humanos e de projeto levou a central a sofrer uma fusão parcial, com vazamento de radiatividade para a atmosfera. Em poucos dias, cerca de 140 mil pessoas deixaram voluntariamente a área num raio de oito quilômetros a partir da usina. Esse acidente nuclear ocorreu 13 dias após o lançamento do filme Síndrome da China (estrelado por Jane Fonda e Jack Lemmon), que abordava um episódio fictício semelhante.

 

O desafio do lixo nuclear

O que acontece com o lixo nuclear? De início, deve-se considerar que há três tipos de resíduos nucleares: os de baixa, média e alta radiatividade (a passagem de uma classe à outra acima equivale a um aumento de cerca de mil vezes na radiação). Os primeiros, que incluem, por exemplo, rejeitos de indústrias e hospitais, podem ser estocados em depósitos provisórios. Os últimos, que abrangem os restos do combustível nuclear utilizado nas usinas, devem ir para depósitos permanentes.

Isso não ocorre com o lixo de Angra, empilhado em uma piscina de resfriamento ao lado do reator. Várias barreiras de aço, chumbo e concreto cercam a piscina e o próprio reator para minimizar o risco de vazamento. A piscina de Angra 2 pode guardar lixo nuclear por cerca de 40 anos, tempo estimado de funcionamento da usina.

As usinas, em si, são outro problema. Quando sua vida útil acaba, várias partes delas estão contaminadas e representam risco. Mas, até hoje, nenhuma usina foi desmontada, e os cientistas ainda não têm uma resposta definitiva sobre o que fazer com esse material.

 

Brasil nuclear

Usinas em funcionamento e em construção

USINA

pot ência (MW)

Angra 1

657

Angra 2

1.350

Angra 3*

1.405

*Conclusão prevista para 2015

 

Os planos brasileiros Dono de várias opções de geração “limpa” de energia, o Brasil poderia ficar alheio à nova onda nuclear. Só o aproveitamento do bagaço da cana plantada em São Paulo, por exemplo, equivaleria à produção de cinco usinas como Angra 2. Mas o atual governo não só decidiu construir Angra 3 (1.405 megawatts), a um custo estimado de R$ 7 bilhões e com entrada em operação prevista para 2015, como planeja erguer até 2030 mais quatro novas centrais de energia nuclear. Segundo declarações de Carlos Henrique Mariz, representante da Eletronuclear (a subsidiária da Eletrobra s responsável pela área) no Nordeste, ao portal Invest NE, em março, duas usinas serão erguidas naquela região, com início de atividades em 2019 e 2021, e as demais, no Sudeste. Cada usina de 1.100 MW, como as projetadas para o Nordeste, custaria US$ 4,4 bilhões.

Em termos estratégicos, a ideia tem fundamento. Segundo as Indústrias Nucleares do Brasil (INB), empresa que beneficia o urânio e fabrica o combustível nuclear no Brasil, o País possui a sexta maior reserva desse minério do mundo (309 mil toneladas), capaz de abastecer 32 usinas nucleares de 1.400 MW durante os cerca de 60 anos de sua vida útil. Para Mariz, as usinas no Nordeste permitirão que a região deixe de importar energia, algo que faz desde os anos 1990.

Todas as providências estão sendo tomadas com relação à segurança desses empreendimentos, frisa Mariz. Com isso, a única grande questão em aberto seria o destino do lixo nuclear produzido pelas usinas. O Brasil tem apenas um depósito permanente de resíduos radiativos, em Goiás; os existentes em São Paulo, Minas Gerais e no Rio de Janeiro, localizados em centros de pesquisa nuclear, são provisórios.

 

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