O segredo da terra dos gigantes

Alguns dos maiores dinossauros do mundo foram descobertos na Patagônia argentina. Por que o Brasil não dispõe da mesma riqueza paleontológica?

Heitor e Silvia Reali

A Patagônia argentina já tremeu com tantos terremotos, e sentiu o peso de cinzas e rochas de tantas erupções vulcânicas, que a impressão que se tem ao mirar o horizonte é a de estar com os pés fincados na Terra durante a sua primeira dentição. A paisagem ocre, austera e pouco contrastada, feita de arbustos de galhos retorcidos por ventos secos e constantes, é pródiga em paredões rochosos e solos pobres e ácidos. Nos 2 mil quilômetros quadrados de planícies áridas do sul do país – nas províncias de Neuquén, Rio Negro, Chubut e Santa Cruz – se escondem os depósitos mais ricos e diversificados do planeta de fósseis de dinossauros do período cretáceo (entre 145 milhões e 65 milhões de anos atrás). Só comparáveis aos do deserto de Gobi, na Mongólia. 

A meseta da Patagônia argentina é um presente divino quando se trata de investigar a infância geológica do planeta. O segredo da preservação dos fósseis préhistóricos é o clima. No Brasil, por contraste, os terrenos cretáceos ocorrem em região de clima tropical, coberta por vegetação exuberante, na qual a ação da chuva dificulta a conservação, dissolvendo os solos e os vestígios paleontológicos. Quando o assunto são dinossauros, os argentinos têm motivos para se gabar. Há poucos meses, em setembro, uma equipe  de pesquisadores da Universidade Drexel, dos Estados Unidos, topou, na Província de Santa Cruz, com o Dreadnoughtus schrani, uma nova espécie de titanossauro herbívoro e quadrúpede, que pesava 65 toneladas e media 26 metros de comprimento.

Não foi a primeira nem será a última descoberta importante na região. No fim da década de 1980, Jorge Calvo, Rodolfo Coria e Luis Chiappe puseram a Patagônia no mapa da paleontologia moderna ao descobrir incontáveis fósseis  dos “lagartos terríveis” (a tradução do nome latino dinosauria, cunhado pelo anatomista inglês Richard Owen, em 1842). Nessa época, a equipe do professor Coria fez uma descoberta notável: um animal de proporções gigantescas, nunca reveladas para o mundo. Com 30 metros de comprimento, 16 de altura e cerca de 100 toneladas, surgiu o Argentinosaurus huinculensis, um quadrúpede saurópode endêmico da Patagônia, que só existiu ali. Hoje seus fósseis estão no Museu Carmen Funes, em Plaza Huincul, na província de Neuquén.

Dois anos após a descoberta, o argentinossauro perdeu o posto para um gigante norte-americano, o Sauroposeidon, também com 30 metros de comprimento, 18 de altura (o equivalente a um prédio de seis andares) e igualmente pesando 100 toneladas. Mas, em 2000, a equipe do paleontólogo Jorge Calvo trouxe à superfície outro ainda maior, o Futalognkosaurus dukei, com 34 metros de comprimento, 13 de altura e mais de 100 toneladas, numa expedição que contou com a colaboração de cientistas brasileiros, coordenados pelo paleontólogo Alexander Kellner, do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). 

Passado turbulento

A Patagônia era uma terra de gigantes. De acordo com as divisões temporais da pré-história, no período triássico havia monstros primitivos como o plateossauro. Depois, no jurássico, surgiram gigantes saurópodes pescoçudos, como o diplodoco e o apatossauro, herbívoros como o estegossauro e um predador de 12 metros, o alossauro. Por fim, veio o cretáceo, o clímax da era e de ícones como o tiranossauro (entre os quais o Tyranosaurus rex, estrela do filme Parque dos Dinossauros, de Steven Spielberg),  tricerátopo e o velociraptor. 

As descobertas argentinas e o uso de tecnologias mais modernas estão mu- dando o conhecimento sobre os répteis extintos há 65 milhões de anos. O próprio Rodolfo Coria encontrou espécies espetaculares, como um carnívoro que despertou a atenção do mundo científico, o Giganotosaurus carolinii, um equivalente sul-americano do T-rex. Para variar, o lagarto era muito maior, com 14 metros de comprimento e 8 toneladas de peso, transformando os tiranossauros americanos em pesos-penas se comparados ao argentino.  

O Dreadnoughtus schrani descoberto em setembro proporcionou um material inédito. Mais de 70% do esqueleto foi encontrado, o que permite calcular as medidas do animal com uma precisão inédita. “Essa descoberta é fantástica”, diz o professor Kenneth Lacovara, que liderou a expedição. “Primeiramente, pelo tamanho do bicho, cujas evidências ósseas indicam que, quando ele morreu, não estava totalmente desenvolvido. Assim, poderia perfeitamente ter sido o maior dinossauro jamais encontrado até o presente.” 

Há dois modos de se achar fósseis pré-históricos na Patagônia. O método científico começa pelas análises das rochas e do solo que identificam extratos dos períodos cretáceo, jurássico e triássico. A partir daí, faz-se uma verificação minuciosa do terreno com escavações exploratórias, em busca de vestígios paleontológicos. Nesse quesito, as planícies áridas são nota dez, porque a superfície desértica e seca, com paredões colonizados por pinheiros, e o clima favorecem a preservação.

O segundo método consiste em confiar no acaso. Agricultores, fazendeiros ou construtores urbanos frequentemente avisam ter encontrado algo, e os museus logo mandam uma equipe verificar a importância do achado. Foi assim com a descoberta do argentinossauro por um agricultor de Neuquén. Nas províncias patagônicas já se expandiu uma educação popular arqueológica básica, que ensina camponeses e operários a identificar fósseis.

Foi o que aconteceu durante a escavação profunda das fundações do shopping center de Neuquén, capital da província homônima. A descoberta de ossos petrificados parou a obra por dois anos, até a realização de todas as análises. Outra descoberta surpreendeu os construtores da cave da Vinícola Schroeder, também em Neuquén, onde foi achado o fóssil muito preservado de um dinossauro. Em sua homenagem, os proprietários decidiram dar o nome “Saurus” aos vinhos ali produzidos. 

No Museu Carmen Funes, o paleontólogo Flavio Bellardini contou à PLANETA que a descoberta de um fóssil, em maio de 2014, em Rawson, na província de Chubut, criou outro candidato a abalar o ranking dos gigantes: um megatitanossauro do cretáceo, que perambulava na região há 95 milhões de anos. Só o fêmur do bichinho media 2,40 metros. 

No Brasil, o panorama é bastante diferente. As únicas regiões de riqueza paleontológica comparável à da Patagônia são o pampa gaúcho e a Chapada do Araripe, na divisa dos Estados de Ceará, Pernambuco e Piauí. Mas se há poucos dinossauros brasileiros descobertos em terra, em compensação os céus do Nordeste eram riscados por grandes répteis voadores pré-históricos, como o Tropeognathus mesembrinus, um pterossauro de 10 metros de envergadura, o terceiro maior do mundo, encontrado na Chapada do Araripe pela equipe de Alexander Kellner. 

O professor da UFRJ guarda, entretanto, uma carta na manga capaz de impulsionar a paleontologia brasileira: Roraima. “A savana do Estado do Norte, perto de grandes maciços rochosos, apresenta imensos terrenos cretáceos. Não duvido de que acabaremos descobrindo lá um peso-pesado pré-histórico”, afirma o pesquisador brasileiro. 

 

 

 



 

 

 

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