“O uso da energia fóssil será mais eficiente”

A disposição de vários países de reduzir a emissão de gases-estufa e partir para uma economia de baixo carbono sinaliza o declínio da importância dos combustíveis fósseis, afirma um dos maiores especialistas em energia do país

Professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e diretor fundador do Centro Brasileiro de Infra Estrutura (CBIE), o economista Adriano Pires foi assessor do diretor-geral da Agência Nacional do Petróleo (ANP) e superintendente da ANP nas áreas de importação, exportação e abastecimento

Uma combinação de fatores econômicos, geopolíticos e ambientais está mudando em definitivo o mundo no que se refere ao consumo de combustíveis fósseis. Pelo menos tão cedo não veremos um barril de petróleo custar US$ 100 ou grandes investimentos em carvão. Para o economista Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infra Estrutura (CBIE) e um dos maiores estudiosos da questão energética no país, esses recursos continuarão relevantes, mas cederão cada vez mais espaço a outras fontes energéticas.

PLANETA – A fase de preços baixos do petróleo e a decisão do G7 em 2015 de eliminar o consumo de combustíveis fósseis indicam que a era de grande dependência do petróleo e do carvão está perto do fim?
PIRES – Nas próximas décadas, os combustíveis fósseis continuarão a ser importantes na matriz energética mundial. Isso porque uma das principais características do setor energético é a lentidão, dado que as projeções de mudança ou mesmo simples obras costumam ser grandes e caras. Mas essa importância tende a diminuir no longo prazo. O primeiro a cair será o carvão, seguido do petróleo, este mais lentamente. Dos combustíveis fósseis, o gás natural deverá ser o destaque do cenário energético global nos próximos anos.

Extração de carvão: participação menor na demanda de energia
Extração de carvão: participação menor na demanda de energia

PLANETA – Por quê?
PIRES – Ele é o mais limpo entre os fósseis e ideal para a transição a uma economia de baixo carbono. Além disso, sua oferta é crescente, dada a trajetória do gás como commodity. Somente no início dos anos 1980 começou a ser economicamente viável a tecnologia para o gás natural ser liquefeito e, assim, transportado sem o uso de gasodutos. Agora, há a expectativa de grande oferta de gás natural nas reservas russas; do gás de xisto, ou shale gas, nos Estados Unidos; e do da camada pré-sal brasileira. Sendo assim, no período de transição o gás natural será essencial para gerar energia elétrica, para a indústria e o transporte; depois disso, ele manterá sua importância como reserva das fontes renováveis de energia.
Segundo o relatório World Energy Out­look 2015, da Agência Internacional de Energia (IAE, na sigla em inglês), o crescimento no consumo de carvão, o maior nas últimas décadas entre os combustíveis, deverá cair conforme a demanda chinesa se estabilizar em nível similar ao atual. A demanda por petróleo crescerá até 2040, mas em ritmo menor: chegará a 103 milhões de barris por dia (b/d), 13 milhões a mais do que 2014. Em 2040, o consumo de petróleo nos paí­ses membros da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) deverá ser 11 milhões de b/d menor em relação a hoje, mas esse número é anulado pelo aumento do consumo na Índia e na China, de 6 e 5 milhões de b/d, respectivamente. No maior consumidor de petróleo, os EUA, espera-se uma redução na demanda de cerca de 4 milhões de b/d, voltando aos níveis dos anos 1960. Haverá queda também na União Europeia. Dentre os combustíveis fósseis, o consumo de gás natural deverá subir 47% no fim desse período, puxado pela China e pelo Oriente Médio.

PLANETA – O consumo de carvão já está em queda?
PIRES – O relatório aponta que sua demanda deverá crescer ainda, mas em ritmo menor, à medida que a demanda chinesa se estabiliza em nível similar ao atual. O carvão foi responsável por 45% do aumento na demanda mundial de energia na última década, mas responderá por apenas 10% desse crescimento até 2040. A Índia e o Sudeste da Ásia puxam esse aumento. Já o consumo nos países da OCDE deverá cair 40% até 2040. Além disso, para geração elétrica (maior uso do carvão), as fontes renováveis ultrapassarão o carvão no início dos anos 2030. Em 2040, elas terão a maior participação na matriz elétrica mundial.

PLANETA – O sr. considera viável a proposta do G7 de reduzir as emissões globais de gases-estufa entre 40% e 70% até 2050, com base nos níveis de 2010?
PIRES – Ainda segundo o relatório da IAE, apesar dos esforços no combate às emissões de gases do efeito estufa (GEE), as emissões de CO2 relacionadas ao setor de energia deverão ser 16% maiores em 2040 que em 2013. Desde 2000 as emissões de GEE aumentaram em média 2,4% por ano, e se espera um crescimento médio até 2020 de 0,6 % por ano, e de 0,5% ao ano até 2030. Antes mesmo da COP 21, que aprovou um acordo entre 195 países para a temperatura média do planeta subir até 2° C, 150 países já haviam apresentado compromissos para reduzir as emissões, metade dos quais ligada ao setor de energia. As medidas mais comuns são as ligadas à implementação de energias renováveis (40%) ou melhora da eficiência energética (30%). Assim, alguns setores ainda deverão continuar a usar energia fóssil, mas de modo mais eficiente.

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Plataforma no pré-sal: região atrativa

PLANETA – Como ficam os grandes produtores do petróleo no novo cenário?
PIRES – O mercado do petróleo vive um momento de colapso nos preços do barril. Em 43 anos, ele já passou por três choques de preços (1973, 1979 e 2008) e três contrachoques (1986, 1998 e 2016). O atual­ contrachoque lembra o de 1986, quando, como agora, ocorreu uma abundância de petróleo no mercado e a Arábia Saudita resolveu não diminuir sua produção para, com isso, levar os produtores americanos à falência. A diferença é que agora a produção americana cresce através do shale oil, e não de petróleo convencional. O shale oil tem características comerciais muito peculiares, como baixo investimento necessário e entrada em produção rápida.
Preços do barril inferiores a US$ 30 vão levar muitos campos de shale oil nos EUA a fechar. Porém, quaisquer recuperações nos preços poderão trazê-los de volta à produção rapidamente. Ou seja, o shale oil passou, em parte, a regular o mercado de petróleo, tal como a Arábia Saudita nos choques e contrachoques anteriores. Outro ponto importante para os preços menores é a questão geopolítica. Com o fim das sanções ao Irã, ninguém sabe qual volume esse país pode pôr de imediato no mercado – e ele detém a quarta reserva de petróleo do mundo.
A tendência é que os grandes produtores tenham seu poder no mercado mundial atenuado. Atualmente, há novos países e novas tecnologias na exploração e produção de petróleo. Além disso, os países se interessam menos em consumir tanto petróleo, por razões ambientais, e hoje existem alternativas de fontes renováveis cada vez mais viáveis para substituir os combustíveis fósseis. A redução do poder do setor de petróleo pode ser observada entre as grandes empresas globais. No século 20, as de maior destaque eram as petrolíferas; no século 21, são as tecnológicas, como a Apple. As grandes petrolíferas, como ExxonMobil e Shell, começam a investir em pesquisa e desenvolvimento de energéticos alternativos ao petróleo, como gás natural, célula de hidrogênio, energia renovável e biocombustíveis, tornando-se verdadeiras empresas de energia.

PLANETA – Como o sr. avalia a exploração do pré-sal brasileiro na atual situação? Vale a pena continuar a investir nele?
PIRES – A cotação em torno de US$ 30-40 por barril pode inviabilizar investimentos em novos projetos para extrair petróleo em alto-mar, incluindo o pré-sal brasileiro. No caso do pré-sal, o break even (preço mínimo para a produção ser economicamente viável) é em torno de US$ 45 por barril. O preço em torno de US$ 30 significa mais um desafio para a Petrobras, que já tem um alto comprometimento de despesas com o investimento para explorar as reservas adquiridas. Tudo indica que a produção existente deve continuar, já que não se pode parar de extrair petróleo, mas a Petrobras e suas parceiras no pré-sal vão ganhar menos em comparação com a época do barril a US$ 100. Como se espera que o preço do barril volte a subir, deverá prevalecer o posicionamento estratégico de desenvolvimento da produção, mesmo que os poços apresentem déficit.
O Brasil tem tido sucesso inegável em desenvolver a região, através da Petrobras, que já extrai mais de 1 milhão de barris por dia, oriundos de 52 poços, segundo o Boletim da Produção de Petróleo e Gás Natural da Agência Nacional do Petróleo (ANP), de dezembro de 2015. Para o Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustíveis (IBP), a oferta ao mercado das áreas no pré-sal já mapeadas pode gerar de US$ 120 bilhões a US$ 130 bilhões em investimentos no setor de óleo e gás. Por meio da regulação o país pode atribuir maior atratividade ao pré-sal, revogando a participação obrigatória da Petrobras no modelo de partilha de produção. Essa é uma forma de fomentar investimentos no pré-sal, permitindo que a indústria petrolífera brasileira se reerga e o governo recupere a arrecadação com royalties do petróleo, que podem subsidiar outras fontes para complementar a matriz energética doméstica. A tendência é de alta do preço do barril, no médio prazo. Portanto, a região do pré-sal é muito atrativa para exploração de uma fonte energética confiável e rentável.

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