Oásis da harmonia

Motivo de cursos em universidades britânicas e americanas, a tradição dinamarquesa do hygge – um encontro de familiares e amigos para comer e beber em uma atmosfera descontraída, em que assuntos estressantes são proibidos – pode ser adaptada para qualquer lugar do mundo

S. Matasick/Universidade de Wisconsin Madison
No hygge, parentes e amigos reúnem-se em torno de uma boa mesa e conversam apenas sobre temas não desgastantes

Encravada no norte da Europa, fria, açoitada por ventos e sem grandes atrativos naturais, a Dinamarca é presença habi­tual nas listas dos países mais felizes do mundo – há mais de quatro décadas ela sempre aparece posicionada entre os primeiros colocados. É certo que o país atingiu elevados indicadores econômicos e, tal como seus colegas da região – Suécia, Noruega e Finlândia –, proporciona um índice de bem-estar dificilmente encontrado em outros cantos do planeta.

Mas uma tradição específica de lá certamente possui influência nesse resultado: o hygge, palavra surgida no século 19 e traduzida vagamente como “conforto”, mas que, na prática, é bem mais do que isso. Embora normalmente associado ao clima frio (os encontros típicos do período de Natal são momentos adequadíssimos para ele), o hygge em tese independe de latitudes, climas ou culturas, e suas características saudáveis podem ser adaptadas para qualquer lugar do mundo.

O assunto ganhou tal importância que tem sido objeto de cursos em universidades britânicas e americanas. Ele foi dissecado em um livro lançado recentemente nos Estados Unidos, The Danish Way of Parenting: A Guide To Raising The Happiest Kids in the World (O Caminho Dinamarquês de Criar Filhos: Um Guia para Educar as Crianças Mais Felizes do Mundo, em tradução livre), da americana Jessica Alexander, professora de relações internacionais da Universidade Columbia, e do psicoterapeuta dinamarquês Iben Sandahl. Eles explicam que o cenário habitual de um hygge – uma reunião de familiares e amigos, em torno de uma mesa farta e marcada pela atmosfera acolhedora – não revela a princípio alguns detalhes fundamentais para o seu bom funcionamento.

“Hygge é o ‘tempo do nós’, não o ‘tempo do eu’”, afirma Jessica. O evento estabelece um clima de paz entre os participantes, que atuam como uma equipe para que tudo corra da melhor maneira possível. “Não há discussões desagregadoras sobre política, questões familiares ou as crianças disfuncionais da tia Jenny”, diz Jessica. “Não há comentários sarcásticos, reclamações ou negatividade pesada. Todos ajudam, de modo que uma pessoa não fica presa fazendo todo o trabalho. Ninguém se gaba, ataca qualquer um ou concorre com o outro. É uma interação alegre, equilibrada, que está focada em aproveitar o momento, a comida e a companhia. Em suma, um abrigo do mundo exterior.”

Há benefícios facilmente perceptíveis nesse costume, observam os autores. Os laços sociais, por exemplo, aumentam a longevidade, diminuem o estresse e reforçam nosso sistema imu­nológico. O hygge implica a criação de um espaço seguro para que famílias e amigos possam se reunir sem risco da ocorrência de situações desgastantes.

Em seu livro, Jessica e Sandahl sintetizam a fórmula do hygge em cinco itens, expostos a seguir.

1 – Mantenha a guarda baixa e não tenha medo de se expor. Como não há probabilidades de ser atacado nesse ambiente, você não precisará contra-atacar. Sem necessidade de provar algo, de competir, de ostentar ou fingir, é muito mais fácil conectar-se com parentes e amigos de uma forma bem mais franca e verdadeira.

2 A controvérsia e os assuntos que a provocam ficam de fora do ambiente. A conversação típica do hygge se concentra no aqui e agora, na alegria e no prazer de apreciar as pessoas à volta, a refeição, o clima do momento. Os problemas, as discussões, as reclamações, os julgamentos que surgem com frequência na vida ficam de fora desse espaço.

3 – No hygge, todos são membros de um time, cada qual se dispondo a fazer o que sabe para impulsionar o todo a funcionar da melhor forma possível. Um cenário em que todos trabalham juntos preparando a refeição, servindo os alimentos e as bebidas e conversando durante tudo isso significa o hygge em plena forma.

4 – O hygge deve ser visto como um oásis momentâneo, um espaço sagrado, dentro do qual os problemas não entram. Ficam de fora quaisquer circunstâncias que provoquem desarmonia, como disputas materialistas, competição ou julgamentos. Nesse espaço as pessoas são livres para relaxar e abrir o coração sem medo de críticas, não importando quais situações elas estão atravessando na vida.

5 – Esse ambiente equilibrado, harmônico e positivo tem horário para acabar. Encerrado o evento que o propicia, todos os participantes voltam para seus problemas cotidianos – o que, para um bom número de pessoas, pode significar um desafogo. Mas o fato de as pessoas poderem transitar entre esses ambientes e cultivar a atmosfera do hygge faz com que esse seja um momento bem-vindo. Durante algumas horas, elas viverão ao lado de entes queridos uma trégua frente às agruras rotineiras da vida.

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