OÁSIS – O resgate da alma

Quando a vida profissional e familiar mais exige de nós é que se manifesta a importância simbólica do oásis – o momento do descanso e da reconciliação com nossa origem e nosso destino divinos

Descansar após um tempo de trabalho intenso é uma necessidade quase sempre subestimada em nossa civilização do progresso, da produtividade e do consumo. Essa mentalidade suicida de que a vida só tem sentido quando se produz, se consome e se acumulam bens materiais, quando o indivíduo se movimenta e se agita sem parar, já produziu várias categorias de doenças novas e de doentes graves, como os estressados e os “workaholics”, viciados em trabalho.

Deixo aos psicólogos uma apreciação clínica a respeito das compulsões internas que levam tantas pessoas a viver em perpétua agitação física, emocional e mental. Pela ótica da religião perene – aquele substrato de religiosidade encontrado em todos os grandes sistemas dessa área –, pode-se dizer que tais pessoas se comportam desse modo por estarem dissociadas do seu eu superior, aquele núcleo mais íntimo da natureza humana de onde emana toda sabedoria, paz e felicidade.

O descanso, em seu sentido transcendental, é tão ou mais importante do que o trabalho. O tempo do descanso é sagrado, pois, como ensina a “Bíblia”, no sétimo dia da Criação até Deus descansou. O descanso, que os povos do deserto simbolizam na imagem do oásis e que os hebreus chamam de sabá, é o momento de reconciliação com nossa origem e nosso destino divinos.

O melhor ensinamento sobre o significado do binômio trabalho-descanso me foi passado por um comerciante de Marrakech nos anos 1970. Na época morando na Europa e trabalhando no comércio, eu estava ali em busca de um lote de um dos mais belos trajes femininos produzidos no Marrocos, o “cafetã de Tetouan” – um camisolão de algodão branco com um refinado bordado em tons de vermelho na altura do peito.

Só encontrei o artigo no segundo dia de busca no imenso bazar de Marrakech, numa pequena loja. O proprietário, um marroquino gordo, de meia-idade e cara esperta, me disse que tinha 40 peças daquelas. Ele me propôs um preço e ofereci dez vezes menos. De concessão em concessão, passamos cinco horas negociando. Por duas vezes, desisti e saí da loja. O marroquino puxava-me pela camisa e obrigava-me a entrar e reiniciar a negociação. Dizia não admitir perder tantas horas de trabalho sem chegar a uma conclusão. No fim, acordamos um preço que considerei justo – a metade do que foi pedido no início.

Hora do descanso

Exausto, paguei e pedi ao homem que entregasse a mercadoria no meu hotel. Ele me respondeu: “Você quer ir embora agora, depois de toda a batalha que travamos? De modo algum. Agora chegou a hora do nosso descanso.” Trancou a porta da loja, dizendo que não trabalharia mais naquele dia. Chamou um garoto, seu filho, passou-lhe instruções e me levou para os fundos da loja, onde sentamos sobre almofadas coloridas dispostas sobre um grande tapete. O garoto voltou pouco depois, trazendo chá de hortelã, sanduíches de queijo e confeitos açucarados.

Oásis próximo a Ica, no Peru: vida e acolhimento em meio ao areal (Foto: iStock)

O marroquino era agora outra pessoa, simpático e cordial. Depois de conversarmos sobre vários assuntos, ele me disse: “Você negociou comigo como um verdadeiro árabe, como alguém que conhece o sentido oculto do negociar. É por isso que agora podemos nos considerar amigos, porque antes soubemos eliminar nossas diferenças através do combate e chegar a um acordo bom para nós. Resolvi convidá-lo para o chá de hortelã porque é com esse chá que nós, marroquinos, celebramos algo que deve vir depois de qualquer combate, e que é ainda mais importante do que ele: o descanso e a confraternização.”

Encheu novamente minha xícara e contou-me uma história ligada a seus antepassados, beduínos do deserto. Disse que o povo do deserto vive a labuta sobre as areias escaldantes, mas seu sonho permanente é chegar a um oásis para descansar e devanear. É no oásis que o beduíno se reencontra consigo e com Deus, e por isso mesmo ele costumava referir-se a Deus como “Oásis dos oásis”.

Perguntou se eu já havia estado num oásis e, ante a negativa, aconselhou-me a ir. “Penetre num deles, passe algumas horas meditando. Nos oásis há uma concentração de energias especiais. Quando estamos lá, quietos, em repouso e meditação, essas energias nos impregnam e se concentram dentro de nós. É como se elas criassem em nosso interior uma réplica energética do oásis físico em que estamos. Esse oásis irá consigo para onde você for. Quando você estiver no mundo da confusão dos sentidos e da mente, e se sentir exausto e perdido, recolha-se e ative na memória a imagem do oásis que visitou. Isso mobilizará as energias do oásis interno, e com a ajuda delas será fácil reconquistar a calma, a serenidade, a confiança em você mesmo e no sentido do seu destino.”

Experiência inesquecível

Anos depois, como jornalista, voltei ao Marrocos e visitei um oásis em Ouarzazate, na beira do deserto do Saara. A experiência foi inesquecível, assim como todas as vivências que modificam nossas estruturas interiores.

É no oásis que o beduíno se reencontra consigo mesmo (Foto: iStock)

Munido de uma refeição à base de tâmaras, pão e queijo, embrenhei-me na floresta de palmeiras em busca de um cantinho solitário para recostar. Encontrei o cantinho, mas ele nada tinha de solitário: em toda parte a vida silvestre pululava. Vi uma enorme variedade de pássaros, insetos e lagartos que tiram seu sustento daquele microcosmo paradisíaco. Talvez devido ao contraste entre a secura e a luminosidade do deserto e o frescor aconchegante à sombra das tamareiras,­ percebi que em raros outros lugares do mundo me sentira tão bem acolhido, protegido e aceito. Era como voltar ao abrigo de um útero da natureza, onde tudo estava perfeitamente em ordem, paz e alegria.

Pouco a pouco, em repouso e meditação, senti as tais “energias especiais” impregnando-me o corpo, o coração, a mente e a memória visual. Até sentir que entre meu ser e aquele núcleo de vida concentrada quase não havia diferenças. O oásis mental já estava impresso na minha mente, um recinto sagrado interior comparável ao que outras pessoas criam em seus pensamentos, no qual elas encontram quietude, solidão e o sentimento de harmonia com a natureza e a existência.

Tempos depois, conversei com um amigo judeu que, saído de um empreendimento que lhe consumira anos de vida e de esperanças, mergulhara numa carreira de alto risco no mercado de capitais. Àquela altura, estava prestes a explodir, esgotado física e psicologicamente.

Se buscar a prosperidade é, em si, uma meta legítima, por que persegui-la com tamanho afinco pode ameaçar a saúde e a felicidade? Nossa conclusão durante a conversa: por causa do excesso de desmesura, da excessiva valorização de um aspecto masculino, ativo, da vida, “yang”, em detrimento do aspecto reflexivo, feminino, “yin”.

A importância do sabá

Contei-lhe minha experiência do oásis, que lhe lembrou alguns valores da tradição judaica. O sabá, por exemplo, que simboliza o descanso após o trabalho. No Velho Testamento, o sétimo dia exige a cessação das atividades, pois é o dia consagrado a Jeová. Segundo o Livro do Gênesis, no sétimo dia Deus concluiu sua obra e descansou. Esse descanso implica uma santificação, pois o sabá significa um tempo consagrado a Deus. Isso se refere aos homens e a todos os seres viventes – “o boi e o jumento tampouco devem trabalhar”.

Períodos sabáticos comumente levam a pessoa a experiências que mudam para melhor sua vida pessoal e profissional (Foto: iStock)

A lei do repouso sabático tem reflexos interessantes na vida de algumas comunidades modernas. Universidades americanas, por exemplo, criaram a instituição do “ano sabático” para seus membros. Professores e pesquisadores têm o direito, a cada sete anos de trabalho, de retirar-se por um ano, sem ter de manter contato com a instituição que os emprega. Os depoimentos concedidos por acadêmicos que fizeram anos sabáticos revelam fatos surpreendentes: foi nesses períodos que muitos deles tiveram ideias e percepções inovadoras, fizeram descobertas geniais, passaram por mudanças de comportamento e de atitude perante a vida e a profissão que resultaram em grandes e benéficas alterações na sua vida pes­soal e profissional.

O sabá, portanto, designa um tempo sagrado em oposição ao tempo profano, ao qual complementa e equilibra. Para os hebreus antigos, o descanso do sabá é também “hinna-fech” – “retomar a alma”. Um descanso que não significa somente abandonar todo trabalho, mas sim banir do espírito todas as angústias e opressões interiores: um descanso libertador da alma. A alma que é, nos dias atuais, a mais espoliada, vilipendiada e desconsiderada de todas as partes fundamentais do ser humano. E que é, contudo, a única dessas partes capaz de nos conduzir no mais importante de nossos caminhos: a religação com nosso verdadeiro eu e com Deus.