Olimpíada Gastronônica

Para não enfrentar os nomes bizarros de iguarias chinesas durante a Olimpíada.

A realização dos Jogos Olímpicos de Pequim e a expectativa da chegada de 50 mil visitantes estrangeiros para assistir ao evento levou os chineses a rever um dos aspectos mais peculiares de seu país: os curiosos nomes dados aos seus pratos típicos. Pressupondo que itens como “galinha sem vida sexual”, “porção de pulmão de marido e mulher” ou “bife em tiras de três cores” deixariam intrigados e desconfiados os turistas desejosos de saciar sua fome rapidamente, o governo preparou uma substancial mudança de filosofia na denominação dos pratos. Os títulos excêntricos dariam lugar, então, a outros, em inglês, mais condizentes com os costumes dos visitantes. “Galinha sem vida sexual”, por exemplo, foi transformado em “frango cozido no vapor”. O petisco “porção de pulmão de marido e mulher” ganhou o rótulo de “bife e tripa de boi ao molho de pimenta malagueta”, enquanto o “bife em tiras de três cores” se tornou “bife em tiras frito com vegetais”.

Segundo os meios de comunicação oficiais chineses, o governo preparou um livro de 170 páginas, iniciado em março de 2006, no qual listou sugestões de mais de 2 mil nomes “ocidentais” para pratos tradicionais do país. O livro está sendo distribuído aos hotéis da capital, e os restaurantes interessados podem obtê-lo no site do Escritório de Turismo de Pequim.

“Graças ao livro, nunca mais teremos de lutar para sugerir traduções em inglês dos nomes dos pratos, algo que normalmente consome bastante tempo”, afirmou à agência oficial Xinhua um veterano gerente do Guangzhou Hotel, um quatro-estrelas localizado no centro de Pequim.

De acordo com os chineses, as denominações dadas a seus pratos se baseiam mais na aparência do que no gosto ou no odor que exalam. Os ocidentais, por seu lado, estão acostumados a nomes que revelam os ingredientes e como eles foram preparados – por exemplo, talharim aos quatro queijos ou filé ao molho madeira. O governo chinês reconhece que os nomes locais são uma questão de gosto, mas não desejam que eles se percam na tradução. Assim, o apimentado prato da província de Sichuan “queijo de soja feito por mulher marcada por catapora” ganhou uma denominação bem mais amena: “tofu com carne moída”.

A mudança pode ser bem-vinda para certos setores, mas nem todos gostaram da novidade. “O processo de padronizar a tradução de um cardápio é uma faca de dois gumes”, escreveu o colunista Raymond Zhou no jornal China Daily. Segundo Zhou, a estratégia “remove a ambigüidade e o humor involuntário” e “leva embora a graça e a conotação saborosa”. O colunista conclui: “Ela transforma um cardápio num equivalente de arroz sem tempero, que tem todos os nutrientes necessários, mas fica desprovido de sabor.”

Em tempo: os brasileiros que quiserem testar o frango xadrez de lá podem pedir sem medo o “kung pao chicken”. Esse é o nome oficial do prato, segundo o governo.

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