Ombro amigo

Um estudo alemão comprova que contar com uma pessoa amiga ao nosso lado é um fator salutar quando passamos por situações emocionais tanto positivas quanto negativas

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O impulso de compartilhar experiências nos leva a procurar companhia em várias ocasiões, das mais amenas, como uma sessão de cinema ou um jogo de futebol, às mais dramáticas, como um funeral. Cientistas alemães investigaram o tema num estudo publicado em novembro de 2014 na revista SCAN e concluíram que, se sabemos que um amigo ou amiga está passando pela mesma experiência emocional que vivenciamos, nos sentimos melhor do que se passássemos sozinhos pela situação.

Na pesquisa, o neurocientista Ullrich Wagner, do Charité – Universitätsmedizin Berlin (Hospital Universitário da Universidade Humboldt e da Universidade Livre de Berlim) e seus colegas solicitaram a 30 pares de amigas, entre 20 e 33 anos de idade, que vissem uma sequência de imagens, divididas em emocionalmente positivas, emocionalmente negativas ou neutras. Enquanto uma das amigas observava as fotos dentro de um aparelho de ressonância magnética, a outra fazia o mesmo numa sala vizinha.

Pouco antes de cada imagem surgir na tela, as participantes eram informadas se sua colega iria ou não ver a mesma foto. (Na verdade, isso era um truque: todas as imagens foram mostradas simultaneamente às amigas.) Depois de observar cada foto, elas avaliavam a intensidade do sentimento experimentado, fosse ele positivo ou negativo.

“As participantes relataram mais sentimentos positivos quando viam imagens emocionais com uma amiga do que quando as viam sozinhas”, escrevem os autores. Esse “efeito de compartilhamento” foi notado tanto nas fotos positivas quanto nas negativas. No primeiro caso, as imagens alegres faziam as participantes se sentir ainda mais felizes quando sabiam que sua amiga havia compartilhado a mesma foto. Em relação às imagens negativas, as parceiras se sentiam menos tristes ao saber que a amiga também havia visto a imagem. Nas imagens neutras, o efeito de compartilhamento foi desprezível.

Quando cada participante na ressonância era informada de que sua amiga também veria a imagem, aumentava a atividade de duas partes do sistema de recompensa do cérebro: o corpo estriado ventral e o córtex orbitofrontal medial. Isso sugere que o simples compartilhamento de uma experiência emocional com um amigo pode ativar o sistema de recompensa do cérebro. A observação também combina com relatos de sentimentos mais positivos sobre experiências compartilhadas das amigas. (veja quadro abaixo)

Compartilhar é fundamental

Os pesquisadores solicitaram às participantes que avaliassem a intensidade de sua identificação com várias afirmações feitas durante a experiência. Destacaram-se aqui afirmações ligadas à consciência da avaliadora em relação à amiga, do tipo “eu estava ciente da presença da minha amiga” ou “eu queria saber como ela se sentiu ao ver essas imagens”; e outras referentes à intenção de se comunicar com a amiga, como “eu queria muito falar sobre as fotos com ela”, ou “imagino como seria falar sobre as fotos depois do experimento”.

Notou-se uma forte relação entre a intensidade da consciência da amiga na avaliação da participante e o nível de atividade em seu corpo estriado ventral enquanto ela via as imagens. As participantes com a mais forte consciência da amiga durante o estudo também apresentaram o maior impulso emocional enquanto viam as imagens.

Os pesquisadores observaram ainda que as avaliações das participantes sobre suas intenções de se comunicar não tinham relação com sua atividade cerebral durante o estudo ou com seus sentimentos associados às imagens. Isso indica que não é o desejo de falar sobre a experiência que aumenta as sensações positivas durante o teste, mas o compartilhamento em tempo real do experimento.

O estudo alemão ajuda a explicar por que os amigos procuram uns aos outros em situações emocionais, sejam elas alegres ou tristes. “Partilhar a exposição a estímulos emocionais com um amigo ameniza o impacto dos estímulos negativos e aumenta o impacto dos estímulos positivos”, escrevem os autores do estudo. Se quiser ver seu time disputando uma final, portanto, o melhor a fazer é ir acompanhado. Nenhuma derrota será tão dolorida se uma pessoa amiga estiver ao seu lado.

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