Paraíso de ninguém

Um dos lugares mais vigiados da história, a Zona Desmilitarizada entre as duas Coreias – um corredor de 4 km de largura por 250 km de extensão – virou um refúgio ecológico exuberante.

Um dos lugares mais vigiados da história, a Zona Desmilitarizada entre as duas Coreias – um corredor de 4 km de largura por 250 km de extensão – virou um refúgio ecológico exuberante. Há 60 anos quase ninguém entra lá.

A fronteira ao longo do “Paralelo 38”, que separa a Coreia do Norte da Coreia do Sul, é toda ocupada pela Zona Desmilitarizada (DMZ, em inglês), um dos mais dramáticos marcos da Guerra Fria. Quando, em 27 de julho de 1953, o Armistício de Panmunjom suspendeu a guerra fratricida (1950-1953) entre os dois países, os dois Exércitos e seus aliados recuaram dois quilômetros cada um, criando uma vasta terra de ninguém: um corredor de 4 quilômetros de largura e 248 quilômetros de extensão, com quase mil km2 de área. Entrar nesse território disputado por quase 1,5 milhão de soldados é absolutamente proibido, sob o risco de ser alvejado por ambos os lados. Depois de 60 anos de exclusão essa faixa virou uma das mais improváveis e espetaculares áreas de preservação do mundo.

Sem medo das minas enterradas, espécies já extintas na Ásia vivem livremente na área. Algumas plantas típicas da península coreana atualmente só são encontradas na DMZ. Duas espécies de garças migratórias sobrevivem e se multiplicam no território, que oferece área segura de reprodução. O tigre coreano e o leopardo de Amur, quase extintos, ressurgiram no corredor preservado, assim como o urso-negro-asiático, já desaparecido no continente.

Os ecólogos estimam a existência de 2.900 espécies de plantas, 70 de mamíferos e 320 espécies de pássaros na DMZ. A variada geografia cortada pela faixa militarizada explica a alta biodiversidade: montanhas, florestas, pradarias, pântanos e restingas.

Não é por outra razão que ecólogos e escritores como o biólogo Edward Wilson, fundador da sociobiologia, e o poeta norte-americano Robert Hass propuseram a transformação da DMZ em um parque internacional, com apoio de ambos os lados. Em 2010, a Coreia do Sul deu um passo concreto e propôs à Unesco a criação de uma Reserva da Biosfera em 435 km2 do seu território, porém o governo norte-coreano vetou. Em 2012, uma reunião do Conselho da Biosfera da Unesco, em Paris, arquivou a proposta, mas os ecologistas estão longe de desistir. O empresário Ted Turner, dono da rede de tevê CNN, já ofereceu apoio financeiro à reserva.

Luta fratricida

Entre 1910 e 1945, a Coreia foi dominada pelo Japão, cuja rendição às tropas aliadas marcou o fim da Segunda Guerra Mundial. A União Soviética desarmou os contingentes japoneses do norte e os Estados Unidos renderam os japoneses do sul. O acordo de divisão entre as duas superpotências resultou na formação da República da Coreia do Sul, sob influência dos EUA, e da República Popular Democrática da Coreia do Norte, apoiada por URSS e China. 

A Guerra Fria e a ascensão do Partido Comunista Chinês, após a Revolução Chinesa de 1949, geraram hostilidades mútuas entre as duas metades. Em 1949, a maior parte dos efetivos militares aliados já havia deixado os dois países, mas as tensões aumentavam na região. Em junho de 1950, a Coreia do Norte invadiu a Coreia do Sul, numa tentativa forçada de reunificar o país.

Após 48 horas de luta, Harry Truman, presidente dos EUA, enviou tropas para lutar ao lado da Coreia do Sul, apoiado por 15 países. O conflito se aprofundou com a intervenção do Conselho de Segurança da ONU contra os norte-coreanos, o que arrastou a URSS e o Exército da China para a defesa da Coreia do Norte. A guerra extrapolou a geopolítica da península e adquiriu um simbolismo extraordinário, demonstrando a ruína das esperanças de paz e uma nova bipolarização do mundo sob EUA e URSS. 

Duas vezes, Seul foi tomada pelos comunistas. Pyongyang também foi tomada pelas tropas da ONU lideradas pelo general Douglas MacArthur. Por pouco o conflito não virou uma guerra nuclear. Em três anos morreram 1,5 milhão de soldados coreanos, americanos, chineses e civis das duas Coreias, um morticínio congelado pelo armistício de Panmunjom, que suspendeu a guerra, mas não a encerrou. Tecnicamente, as Coreias estão em trégua, e não em paz.

Após o conflito, cada país adotou seu rumo. A Coreia do Norte, governada pelo Partido Comunista, passou a ser governada pela chamada “Dinastia Kim”, que já teve avô, pai e filho no poder – a única dinastia comunista do mundo. Kim Il-sung, líder guerreiro e governante de 1945 a 1994, foi sucedido pelo filho, Kim Jong-il, que ao morrer, em 2011, passou o poder ao filho de 31 anos, Kim Jong-un. 

A aproximação com a URSS garantiu à Coreia do Norte ajuda militar e econômica. Mas com o fim da URSS, em 1991, a fonte secou, e a economia entrou em declínio, agravado pela falta de relações diplomáticas e comerciais significativas com qualquer outro país. Atualmente, as despesas militares consomem 40% do PIB. A produção industrial e de energia está estagnada e a escassez de alimentos é geral, devido à falta de terras cultiváveis, à coletivização forçada e à escassez de veículos e de combustível. A população sofre com más condições de vida e até subnutrição. 

Na década de 1970 as duas Coreias possuíam índices econômicos semelhantes, mas hoje a economia do norte tem 5% do tamanho da do vizinho. Por sua vez, a Coreia do Sul acumulou governos ditatoriais  e corruptos, sofreu sucessivos golpes militares e só alcançou estabilidade econômica nos anos 1990, graças ao auxílio econômico dos EUA, que impulsionou o desenvolvimento.

Nas últimas quatro décadas, a Coreia do Sul virou um país moderno e industrializado, com uma economia de exportação de bens manufaturados e de alta tecnologia. Se na década de 1960 seu PIB per capita era comparável ao das nações pobres da África, hoje o país está entre as dez maiores economias do mundo, e o seu sistema educacional, entre os cinco melhores. Em 1997 e 1998, os sul-coreanos sofreram o impacto da crise financeira mundial, mas mantiveram a exportação de eletrônicos, peças para computadores e automóveis. Com a crise financeira de 2008, o PIB desacelerou, mas no ano seguinte voltou a crescer.

Cotidiano tenso

Se no interior da Zona Desmilitarizada a vida selvagem ressurge pela não interferência humana, ambos os lados da zona de exclusão exibem impressionantes aparatos defensivos, instalações militares, centenas de quilômetros de cercas duplas e eletrifi cadas, milhares de rolos de arame farpado, sensores, alarmes e câmeras de segurança. A cada 300 metros, postos militares abrigam soldados de prontidão. Na parte sul da DMZ, 28 mil soldados norte-americanos estão estacionados. 

Ao norte de Seul, capital da Coreia do Sul, pode-se visitar Panmunjom, cuja área contígua da DMZ abriga os edifícios da Área de Seguran-ça Conjunta, construída pela ONU, onde o armistício de 1953 foi negociado. A instalação nunca é ocupada por ambos os países simultaneamente. Quando um lado termina de usar, em geral com visitas de políticos, diplomatas, civis ou turistas, abre-se o lado oposto, e os que saem trancam a porta. Com escolta militar e autorização prévia, civis de ambos os lados são autorizados a entrar no prédio, mas os visitantes do sul assinam um documento responsabilizando-se pelo risco de entrar em zona de guerra. A fronteira física é uma pequena linha de concreto que atravessa a construção ao meio. No lado norte, soldados permanecem à espreita observando com binóculos.

Do posto de observação sulcoreano pode-se ver a cidade de Kijong-dong, apelidada de “Propaganda Village”, quase deserta e construída para ser vista. Segundo os sul-coreanos, o governo nortista transferiu habitantes para o lugar compulsoriamente. Por telescópios, percebe-se que o prédio mais alto, com 15 andares, não possui elevador. As janelas tampouco têm vidros. 

Perto do posto desemboca um dos quatro túneis que o norte construiu para invadir o sul, há décadas. Os dutos foram descobertos a tempo e as invasões, abortadas. É possível descer por um deles até um corredor bloqueado por uma grande laje de concreto, a 80 metros da fronteira. A DMZ é obsessivamente vigiada por guardas e holofotes. O clima é tenso. 

Paz precária

Tem sido assim há 60 anos. Desde a suspensão do conflito, a Coreia do Norte ameaça e provoca o sul, enquanto chantageia por ajuda humanitária em alimento, dinheiro e petróleo. Ao mesmo tempo, viola acordos de cooperação, dispara mísseis e efetua testes nucleares. Indiscutivelmente, os norte-coreanos são mais agressivos. Mas aviões e helicópteros norte-americanos também invadem o espaço aéreo comunista. Em 2010, o norte bombardeou a ilha de Yeonpyeong, no Mar Amarelo. Projéteis da artilharia mataram dois militares e dois civis e deixaram mais de 20 feridos.

Recentemente, as tropas sulcoreanas reforçaram a vigilância, após testes de mísseis programados para coincidir com as manobras militares conjuntas entre Coreia do Sul e EUA. Pyongyang considera esses exercícios o prelúdio de uma invasão e esbraveja sempre. Em março de 2013, em resposta a sanções da ONU contra o seu regime, o país decretou nulo o armistício de 1953. 

Políticos em Seul defendem o desenvolvimento próprio de um programa nuclear. Numa conferência sobre o tema, em Washington, o membro do Parlamento e empresário Chung Mong- Joon, do grupo industrial Hyundai, afirmou que “é chegada a hora de nos retirarmos do Tratado de Não Proliferação Nuclear e entrar no jogo do vizinho do norte”. Os sul-coreanos possuem 20 reatores nucleares em operação e podem enriquecer urânio e se tornar um Estado nuclear. Já o governo norte-coreano dispõe do reator nuclear de Yongbyon, de tecnologia soviética, capaz de enriquecer plutônio. 

A poucos quilômetros ao norte de Panmunjom, no território norte-coreano, situa-se o complexo industrial Kaesong. Essa cidade de 200 mil habitantes, ex-capital da Coreia unificada, abriga o único projeto intercoreano vigente, no qual 123 companhias sul-coreanas fabricam produtos com a mão de obra nortista. Mas a cada ameaça ou desentendimento o governo do norte fecha o complexo e acusa o sul de intromissão. Em 2007, num momento de distensão, os dois países criaram uma ferrovia, a Donghae Bukbu, unindo os dois lados à região do Monte Kumgang. Mais de 1 milhão de visitantes sul-coreanos cruzaram a DMZ pela estrada até um turista ser morto a tiros num incidente em 2008. Desde então a ferrovia está fechada. 

Nos últimos meses, o norte vem mostrando maior moderação e as relações com Seul parecem ter melhorado um pouco. As maiores vítimas da tensão continuam a ser os parentes separados pela fronteira. “Realizei o sonho de me encontrar com minha família, agora posso morrer em paz”, é uma das frases mais repetidas no Monte Kumgang, local de encontro de sul-coreanos com parentes do norte após a separação.

Em 3 de abril passado, 700 familiares de ambos os lados reuniram-se por seis dias numa reunião pontuada por relatos emocionantes, como o de Nam Gung Bong-ja, de 61 anos, sul-coreana que reencontrou o pai vivo na Coreia do Norte, aos 86 anos. A maioria das reuniões acontece entre irmãos, como o de Park Jong-song, de 88 anos, recruta do Exército da Coreia do Norte na guerra, e a sulista Park Jong-soon, de 68.

Após o encontro, as fronteiras são rigorosamente fechadas. Desde 1985, 19 reuniões de famílias divididas pelo confronto foram organizadas. Milhares de idosos de ambos os lados seguem em listas de espera, aguardando a vez para reencontrar familiares que não veem há seis décadas. 

Quanto às espécies do refúgio ecológico da DMZ, ironicamente, o único risco de a reserva inusitada desaparecer é os dois países fazerem as pazes e buscarem a reunificação – o que provavelmente  acontecerá um dia. Então, o aparato bélico que mantém intacto a o paraíso de ninguém será removido e toda a área voltará a ser rapidamente povoada. 

 

      

 

 

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