Partículas de poluição conseguem cruzar a placenta, revela estudo

Cientistas encontraram milhares dessas partículas por milímetro cúbico de tecido em cada placenta analisada

Tráfego intenso: fugir dele pode ajudar as grávidas, mas soluções mais abrangentes dependem de vontade política. Crédito: Max Pixel

Cientistas da Universidade de Hasselt (Bélgica) revelaram que as poluentes partículas de carbono preto – ou fuligem –, produzidas pela queima de combustíveis fósseis, conseguem atravessar a placenta. A pesquisa, publicada hoje (17 de setembro) na revista “Nature Communications”, é a primeira evidência direta de que as partículas podem entrar na parte da placenta que alimenta o feto em desenvolvimento.

Os pesquisadores encontraram milhares dessas partículas por milímetro cúbico de tecido em cada placenta analisada. Suas conclusões reforçam trabalhos anteriores que ligaram a poluição atmosférica a um risco ampliado de aborto, nascimento prematuro e baixo peso ao nascer.

LEIA TAMBÉM: Poluição do ar pode reduzir taxas de reprodução humana

Liderados pelo professor Tim Nawrot, do Centro de Ciências Ambientais da universidade, os cientistas belgas analisaram placentas de 25 placentas de mães não fumantes que viviam na cidade de Hasselt. Recorrendo a imagens de alta resolução, eles encontraram partículas de carbono preto no lado fetal em cada uma das placentas estudadas.

As dez mães que viviam mais próximas a ruas movimentadas e que foram expostas a níveis mais altos de poluição durante a gravidez apresentaram os mais altos níveis de partículas na placenta, em comparação com as 10 que foram expostas a níveis mais baixos e viviam a pelo menos 500 metros de distância de uma via movimentada. Para os pesquisadores, as partículas foram dos pulmões da mãe para a placenta.

Exposição

A detecção das partículas no lado fetal da barreira placentária significa que é muito provável que os fetos tenham sido expostos, explicou Nawrot. Pesquisas sobre a presença de partículas no sangue fetal e se elas causam danos ao DNA estão em andamento.

Nawrot salientou a gravidade da descoberta pelo momento em que ela ocorre, pois danos ao feto têm consequências para toda a vida. “Esse é o período mais vulnerável da existência”, afirmou. “Todos os sistemas orgânicos estão em desenvolvimento. Para a proteção das gerações futuras, temos de reduzir a exposição.”

Para tentar amenizar o problema, Nawrot recomendou que as mulheres deem preferência a ficar em locais da residência mais afastados das fontes poluidoras, como vias movimentadas. Mas o combate à poluição do ar, ele ressalva, só pode resultar em medidas abrangentes no “nível político”.