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Terapia criada pelo alemão Bert Hellinger, a constelação familiar recorre ao campo energético comum à espécie humana para curar padrões problemáticos que herdamos dos nossos antepassados

Em uma sala na avenida Paulista, em São Paulo, 50 pessoas se reúnem para uma sessão de constelação familiar. Elas sentam-se ao redor de um espaço central, onde ocorrerá a sessão. Na cabeceira, Rosa se acomoda numa cadeira ao lado da consteladora Simone Arrojo, que fecha os olhos e se concentra para entrar no campo energético da cliente. Rosa quer resolver uma questão pessoal: divorciada há dois anos, continua morando com o marido, que não quer se desligar da família nem vender o imóvel que ocupam.

Simone pede que Rosa escolha quatro pessoas, que representarão ela mesma, o marido e os dois filhos do casal. Conforme a sessão se desenvolve, mais pessoas são chamadas para personificar outros personagens. Os participantes, em pé no centro da arena, também entram no campo energético que se formou e deixam suas emoções fluir. Sem comando, movimentam-se e se aproximam (ou se afastam) uns dos outros.

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O psicanalista alemão Bert Hellinger desenvolveu a constelação familiar na década de 1970

Embora ninguém se conheça, fatos da vida de Rosa vão aflorando. Há, por exemplo, muitos segredos na família dela (adoções, abortos), e a mãe a afastou dos parentes maternos para preservá-la desses constrangimentos. Fica claro que, para resolver o que a incomoda, Rosa precisa conversar com a mãe, reaproximar-se dos familiares e descobrir, nos antepassados, a origem de seus problemas atuais – inclusive o distanciamento com os filhos, mais próximos do pai. Isso ficou evidente na sessão, pois os “filhos” automaticamente se puseram ao lado do “marido”. Simone pede que a cliente se levante e diga ao “marido” que o perdoa, que ele também perdoe seus erros, que ela ainda o quer bem, mas está na hora de cada um seguir seu caminho.

Simone Arrojo tornou-se consteladora em 2008, após participar de uma sessão na qual descobriu que sua bisavó passara pela mesma situação que a afligia naquele momento. O fato foi depois confirmado por sua mãe. Impressionada, Simone se especializou na terapia e já fez milhares de sessões. “Meu papel é o de conscientizar as pessoas sobre o quanto estamos ligados à nossa árvore genealógica e de que modo isso influencia nossa vida”, afirma.

Ligação energética

Terapia criada pelo psicanalista alemão Bert Hellinger nos anos 70, a constelação parte do princípio de que todos os seres humanos estão ligados pelo campo morfogenético (veja texto “Memória coletiva”). Por isso, cada constelador tem sua própria forma de adentrar o campo energético de quem está sendo constelado.

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Bert Hellinger comanda uma sessão do trabalhos

Segundo Simone, o terapeuta não deve tomar partido ou ter a pretensão de salvar a pessoa. O cliente, por sua vez, não deve impor resultados e querer que determinadas coisas aconteçam à força para mudar sua vida ou a de seus familiares. “Muitas vezes passamos por situações difíceis para o nosso aprendizado. A constelação nos ajuda a não criar expectativas e deixar que as coisas evoluam”, assegura a terapeuta. Ou seja, as mudanças virão naturalmente, ao longo do tempo, como resultado da terapia.

Em Campinas (SP), o terapeuta sistêmico e acupunturista José Maria Sampaio de Barros Neto decidiu empregar a constelação em seu trabalho porque percebeu que, mesmo usando todas as técnicas nas quais é especialista – como acupuntura e terapia craniossacral –, faltava algo que resolvesse os males físicos, comportamentais e de relacionamentos em sua origem sistêmica.

“Quando tratamos uma enxaqueca crônica com acupuntura, por exemplo, os resultados podem ser mais efetivos se também fizermos uma sessão de constelação para identificar a natureza do problema”, afirma. Em busca de melhores resultados, o método também pode ser associado a qualquer outra terapia.

Segundo Barros Neto, embora os resultados da constelação sistêmica em geral sejam mais efetivos quando ela é feita em grupo, quem não quer se expor ou tem dificuldade em interagir com o grupo pode optar por sessões individuais. Nesse caso, os personagens são representados por bonecos.

Resultados palpáveis

A escritora Ana Carolina Vila Nova ouviu falar em constelação familiar sistêmica por meio de uma amiga e decidiu procurar em Curitiba (PR), onde mora, um local de prática da terapia. Na primeira sessão de que participou, ficou desconfiada e confusa. Mas, na segunda, decidiu que queria aquilo. “Na minha vez, me foi revelado o problema do meu filho, questões da minha infância e o trauma que carregava por conta disso. Vi meus pais e meus avós, e o quanto a vida de todos eles havia sido difícil, sobretudo pela morte da minha bisavó, num navio que havia saído da Alemanha rumo ao Brasil”, explica.

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Barros Neto: bonecos são usados nas sessões individuais

“Depois da constelação, meus colegas no trabalho diziam que eu estava diferente, mais calma. Com o tempo, percebi que não era mais uma mulher carente, desesperada para encontrar o grande amor da minha vida. Algo tinha mudado dentro de mim e passei a aceitar aquilo com muita gratidão”, afirma.

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Memória coletiva

Segundo a teoria dos campos morfogenéticos, criada pelo biólogo inglês Rupert Sheldrake, além da herança genética, ocorre entre os seres vivos uma transmissão de informações através de campos mórficos. Nesses campos, há uma espécie de memória coletiva da espécie a que se pertence, para a qual cada indivíduo contribui.

Os animais, por exemplo, podem desenvolver certas habilidades (como lavar os alimentos antes de comê-los) que indivíduos da mesma espécie começaram a praticar em outros continentes, sem que tenha havido qualquer contato. Essas práticas também podem ser transmitidas aos descendentes.

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Aplicações diferentes

A constelação familiar está obtendo ótimos resultados nas áreas de direito e medicina. Em Castro Alves (BA), o juiz Sami Storch usou o método para resolver problemas familiares, como disputas pela guarda dos filhos. Os resultados impressionam: nas audiências com a presença das duas partes, o índice de acordos foi de 100% nos processos em que ambas participaram de constelações e de 93% nos processos em que uma delas participou.

“Aprendi que os filhos são o resultado da união dos seus pais e, em sua alma, contêm ambos os pais. Por isso, quando estes brigam e se excluem mutuamente, isso se reflete na alma dos filhos, que tendem a tomar partido e podem passar a ter dificuldades com um ou ambos os pais. Se não forem bem resolvidas, essas dificuldades tendem a se reproduzir nas gerações seguintes da família”, diz Storch. Atualmente, o juiz tenta, com a constelação, reduzir os índices de reincidência de jovens delinquentes na Vara Criminal de Amargosa (BA), onde trabalha agora.

A constelação familiar sistêmica é praticada desde 2006 no Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Goiás (HC/UFG), em Goiânia, para ajudar pacientes com dor pélvica crônica (DPC). O método foi introduzido ali pelo ginecologista José Miguel de Deus e pela anestesista Vânia Meira e Siqueira Campos. De acordo com ele, mulheres com DPC em geral têm histórias de mortes trágicas na família, abandonos, abortos, violência física e/ou sexual, conflitos conjugais, etc.

Isso o fez imaginar que poderia usar também uma terapia que ajudasse o lado psicológico das pacientes. O hospital concordou com a iniciativa, que se tornou um projeto oficial de extensão universitária em setembro de 2013. “Atualmente, o trabalho expandiu-se e ganhou a comunidade, que participa e se beneficia nos diversos âmbitos da vida”, explica o ginecologista.

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