“Passamos a amar o que pode ser nosso fim geológico“

Os seres humanos já são uma força geológica capaz de paralisar uma era glacial e ocasionar outra grande extinção da vida nos próximos séculos. Pode não ser fácil, mas, como lembra o historiador indiano, não é tarde demais para mudar o rumo

Historiador nascido em Kolkata (Índia), Dipesh Chakrabarty trabalha desde 1995 na Universidade de Chicago (EUA). Entre seus livros estão “Provincializing Europe” (2000) e “Habitations of Modernity: Essays in the Wake of Subaltern Studies” (2002) (Foto: Divulgação)

PLANETA – O sr. disse que explicações antropogênicas da mudança climática significam o colapso da antiga distinção humanista entre história humana e história natural. Poderia se aprofundar no tema?
CHAKRABARTY – Até recentemente, pensávamos na história humana meramente em termos de história documentada, o que remonta a alguns mil anos. Mas a ciência da mudança climática exigiu que pensássemos sobre o papel dos seres humanos na história do planeta desde que aparecemos. Foi preciso entender quais eram os processos planetários e como o planeta tem conseguido manter não apenas o clima, que nos é favorável, mas também o oxigênio a 21% da atmosfera por quase 600 milhões de anos.
Quanto mais leio sobre a ciência da mudança climática, geologia e biologia, mais percebo quão tarde chegamos na história da evolução. E isso não de forma acidental, já que criaturas complexas como os humanos poderiam surgir apenas tardiamente nessa história. O planeta desenvolveu a vida, e suas condições se alteraram para ajudar a manter formas de vida multicelulares complexas. Como muitos historiadores, eu pensava no mundo natural como um pano de fundo, onde os principais atores eram humanos. O pressuposto pelo qual muitos de nós trabalhávamos – segundo o qual o que importa na história humana é o que os humanos fazem uns aos outros – não parecia falso, mas limitado. Muito da história contava dois enredos – como os humanos enfim se libertaram das restrições impostas pela natureza; e como os humanos vieram a pensar em se libertar da opressão de outros humanos. A história de nossa evolução tem um papel muito importante, mesmo em nossas histórias de curto prazo. Por exemplo, os humanos nunca poderiam fazer quaisquer objetos que manuseamos sem a premissa de que temos polegares opostos. Essa é uma questão de uma história evolutiva muito lenta, que em geral tomamos como correta. Então, falaríamos sobre os tipos de espadas que os mongóis produziram, ou os tipos de facas usados em Bagdá – presumindo que sempre há uma mão humana apta a empunhá-las. Essa mão também tem uma história muito lenta – a história da evolução.

PLANETA – O sr. diz que, atualmente, os seres humanos exercem uma “força geológica”. O que significa isso?
CHAKRABARTY – As ações humanas estão alterando o clima da Terra. Em conjunto, exercemos um tipo de força tão grande que pode mudar o ciclo habitual das eras glaciais seguidas por períodos interglaciais, de uns 130 mil anos. De algum modo, adquirimos o papel de uma força geológica – graças à nossa busca de tecnologia, ao crescimento populacional e à nossa capacidade de nos espalharmos pelo planeta. Até agora, temos pensado nos humanos como agentes biológicos, porque fazemos coisas com nosso ambiente e com nós mesmos, transmitimos doenças, etc. Agora, temos de ampliar nossa visão do ser humano – estamos realmente alterando a face do planeta. E não apenas ela: um dos lugares da Terra que transformamos, e cuja transformação durará muito tempo, são os leitos marinhos costeiros – por meio da pesca em alto-mar, da mineração, etc. Não se pode mais separar a ação biológica humana de sua ação geológica. Vários historiadores do longo prazo [que priorizam as estruturas históricas antigas em vez de eventos mais recentes] sugeriram que, conforme desenvolvemos um grande cérebro e a tecnologia, passamos a crescer em um ritmo muito mais rápido do que o evolutivo. Eles dizem que, se tivéssemos desenvolvido a tecnologia de pesca em alto-mar no ritmo normal das mudanças evolutivas, os peixes também teriam tempo para aprender a evitar as redes de arrasto. É fascinante que nossa espécie tenha como que se catapultado para fora do cenário evolutivo darwiniano, a ponto de muitos biólogos dizerem que, nos próximos 300 a 600 anos, poderemos ocasionar a sexta grande extinção da vida.

A pesca em alto-mar transforma o leito marinho: “Temos de ampliar nossa visão do ser humano – estamos realmente mudando a face da terra desenvolvemos“ (Foto: iStock)

PLANETA – Por que a história do capital deve ser cruzada com a história da espécie humana?
CHAKRABARTY – Se quem estuda o capitalismo estudasse biologia evolutiva, encontraria a espécie Homo sapiens, capaz de inventar uma sociedade industrial moderna, o capitalismo (ou como se preferir chamá-la), a qual se tornou sua estratégia para assumir o controle do planeta e dominar a vida sobre ele. A disseminação dos humanos pela Terra só foi possível nos últimos milhares de anos. O capitalismo não é tão antigo quanto nós, mas se observarmos o que ocorreu com a chegada das grandes caravelas, e depois os barcos a vapor, notaremos que a Europa distribuiu sua população pelo mundo. Dessa forma, alguém não poderia argumentar que o capitalismo foi a estratégia da espécie para dominar o planeta? Isso significa a diferenciação entre pessoas ricas e pobres, concordo, mas tanto ricos quanto pobres são membros da espécie.

PLANETA – Pode explicar sua afirmação de que “os pobres participam dessa história compartilhada da evolução humana tanto quanto os ricos”?
CHAKRABARTY – Sugeri que a história da população pertence a duas histórias simultâneas: a história da modernização, de programas de saúde pública, remédios modernos incluindo antibióticos (para cuja produção os combustíveis fósseis contribuem), erradicação de pandemias, epidemias e fome, etc.; e a da espécie humana. Como alguém poderia negar que mesmo os humanos pobres pertencem à espécie Homo sapiens? Eles não são parte da nossa história evolutiva? Nunca, na história da vida biológica da Terra, houve uma espécie capaz de se disseminar pelo mundo – isso ocorreu há milhares de anos, muito antes de existir pobreza generalizada – como fizeram os humanos, e que também chegou ao topo da cadeia alimentar em um período evolutivo tão curto. Se conseguirmos melhorar a vida de 7 bilhões ou, em algum momento, de 9 bilhões de pessoas, a pressão sobre a biosfera apenas aumentará. Contudo, esse não é um argumento contra melhorar a vida dos pobres. Tentei mostrar em meu trabalho a implicação do desejo da maioria dos humanos de industrializar e modernizar. Líderes do Terceiro Mundo nos anos 1950 e 1960, como Jawaharlal Nehru (Índia) e Gamal Abdel Nasser (Egito), queriam modernizar seus países – não como pessoas apenas fascinadas pela tecnologia, mas por pensarem ser o mais ético a fazer. O foco de pensadores políticos desde os anos 1970 tem estado nos direitos humanos e na prosperidade individual, sem considerar os números. A mudança climática e as respectivas proposições científicas vieram em um momento em que estávamos desfrutando dessas coisas que, segundo os cientistas do clima, podem pôr em risco nossa existência no longo prazo.

Precisamos de um estilo de vida mais simples e menos consumista: “Somos capazes de pensar em termos de 70 a 80 anos no máximo“ (Foto: iStock)

PLANETA – A globalização tem responsabilidade nisso?
CHAKRABARTY – Nós nos globalizamos nos últimos 30 ou 40 anos, graças às tecnologias de conectividade. Todos gostamos de poder nos comunicar com entes queridos do outro lado do mundo no dia a dia, ou de voar pelo mundo em questão de horas. A história da globalização significa que, na verdade, passamos a amar o que pode vir a ser nosso fim geológico – a capacidade de causar impactos no planeta em grande escala. Contudo, em termos de nossas experiências de vida, vemos isso como uma condição para a prosperidade humana. Existe uma inércia natural em nós, fruto de vínculos históricos – às instituições, às estruturas familiares, à globalização –, e tudo que somos capazes de pensar é em termos de 70 a 80 anos, no máximo. Isso dificulta muito nos unirmos e agirmos de modo sincronizado para combater a mudança climática. Além disso, todos os países estão dedicados a suas próprias agendas de desenvolvimento.

PLANETA – Já que não somos os mestres e donos da natureza, que tipo de história o sr. sugere que contemos?
CHAKRABARTY – A de que aqui está um planeta que, por nossa sorte, desenvolveu formas de vida complexas. Agora sabemos que há um sistema climático planetário, que os processos planetários – geobiológicos e químicos – são importantes para a sobrevivência da vida complexa como a nossa. Por exemplo, se você destruir o solo, ele precisará de milhões de anos para se regenerar. Assim, devemos encontrar um estilo de vida racional, inteligente e sem tanto consumo. Precisamos encontrar formas racionais, democráticas, não violentas e favoráveis aos pobres de reduzir a população. Como chegar lá é a questão mais difícil. É importante reconhecer nossas contradições – entre o que desejamos no momento e nosso conhecimento sobre a mudança climática.

PLANETA – O sr. disse que uma crise é um bom momento para renovar a criatividade.
CHAKRABARTY – À medida que a crise se agrava, as respostas criativas a ela surgirão. Acredito que haverá líderes carismáticos, como Mahatma Gandhi, que romperão os grilhões do consumismo e nos inspirarão.

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