Paz na era da incerteza

Em tempos de governantes se ofendendo mutuamente, ameaças de lançamentos de mísseis nucleares, guerras civis com centenas de milhares de mortos e aquecimento global, é possível pensar em paz? Sempre é, dizem os especialistas

Desde 1947, o Boletim de Cientistas Atômicos – um painel de especialistas da Universidade de Chicago (EUA) que inclui 15 vencedores do Prêmio Nobel – divulga anualmente o status do Relógio do Apocalipse, cuja chegada dos ponteiros à meia-noite significaria a destruição do planeta pelas mãos humanas. Em 25 de janeiro deste ano, o grupo adiantou o relógio em meio minuto, para 23h58, devido “às crescentes ameaças de guerra nuclear e mudança climática” e à “redução do papel de liderança exercido pelos Estados Unidos”. É a pior situação registrada, igual àquela em que o relógio estava em meados dos anos 1950, quando EUA e União Soviética empilhavam armas termonucleares em seus arsenais. Ou seja: chegamos ao mesmo grau de insensatez dos tempos da Guerra Fria.

É verdade que nunca houve um dia sem guerras no mundo desde que os humanos surgiram aqui, e que conflitos continuam a destruir vidas em vários cantos do globo. Atualmente, os destaques são as guerras civis na Síria (que, desde 2011, já matou mais de 400 mil pessoas) e no Sudão do Sul (cerca de 10 mil mortos desde 2013) e contínuas ações terroristas em países como Afeganistão, Turquia, Iraque, Nigéria e República Democrática do Congo. Mas uma parcela significativa do agravamento apontado pelo Boletim de Cientistas Atômicos tem nome: Donald Trump, o atual e instável ocupante da Casa Branca. “Os Estados Unidos são liderados por um presidente em que poucos confiam”, avaliou em janeiro Joschka Fischer, ex-ministro do Exterior da Alemanha.

Kim Jong-un e Trump assinam o acordo: a princípio, vantagem para o norte-coreano (Foto: iStock)

Por causa de Trump, o Relógio do Apocalipse já havia sido adiantado em 30 segundos no ano anterior – o Boletim de Cientistas Atômicos justificou a decisão sublinhando os comentários do governante sobre as armas nucleares, a ameaça de uma renovada corrida armamentista entre EUA e a Rússia e o desprezo da administração americana pelo consenso científico sobre a mudança climática. Para piorar o quadro, nos primeiros meses deste ano vivia-se uma escalada de ameaças entre o presidente americano e o ditador da Coreia do Norte, Kim Jong-un, cada qual ameaçando aniquilar o outro com bombas nucleares.

Insultos mútuos

Desde julho de 2017, quando os norte-coreanos testaram um míssil balístico intercontinental, o mundo conviveu com uma espantosa troca de intimidações entre dois governantes imprevisíveis. Com a situação cada vez mais nebulosa, e depois de descerem ao nível das ofensas mútuas­ (Kim virou o “pequeno homem-foguete”, enquanto Trump foi tachado como “velho senil”), a dupla combinou uma reunião pessoal – algo que governos americanos anteriores sempre haviam evitado, pois significaria reconhecer como equivalente ao seu governante o ditador de um estado pária da comunidade internacional. A cúpula, realizada em Singapura em junho, aparentemente foi um triunfo para Kim – em troca de um vago acordo de paz, ele conseguiu que os EUA e a Coreia do Sul suspendessem seus exercícios militares conjuntos, considerados “provocação” pelos norte-coreanos, e não especificou nenhum cronograma específico de desarmamento nuclear.

O encontro baixou por algum tempo a temperatura entre EUA e Coreia do Norte, mas serve como exemplo da instabilidade gerada por Trump no tabuleiro mundial. Para manter a pressão sobre os norte-coreanos, por exemplo, o governo dos EUA depende da boa vontade da China, com quem Pyongyang mantém mais de 90% do seu comércio. O ideal seria americanos e chineses viverem uma relação amistosa, mas a situação se complicou. Acusando o gigante asiático de obter um imenso superávit no comércio bilateral e de supostos “roubos” de propriedade intelectual, o governo Trump iniciou no primeiro semestre uma guerra comercial com os chineses de consequências ainda imprevisíveis.

Sonhos de grandeza

Trump já é praticamente um ícone de iniciativas contrárias à paz (veja quadro ao lado), mas não está sozinho nessa lista. Um dos companheiros é o presidente russo Vladimir Putin, que não oculta a vontade de ver seu país como uma superpotência comparável à dos tempos da antiga União Soviética. Nesse embalo, os russos assumiram um papel proeminente na guerra civil da Síria e no conflito entre ucranianos e russos étnicos no leste da Ucrânia (que, inclusive, derivou para a anexação da península da Crimeia, em 2014. A Rússia também participa – associada a posições nacionalistas, populistas e de ameaça à democracia – em eleições no Ocidente via redes sociais. Sua influência foi notória, por exemplo, na escolha do próprio Trump nos EUA e na vitória do Brexit, em 2016.

Às turbulências internacionais em relação à paz somam-se os problemas internos de cada país. A América do Sul registrou em 2017 a segunda maior taxa de homicídios entre as regiões do globo, ficando atrás apenas da América Central e do Caribe. Por seu lado, o Brasil ocupa o 106o lugar entre 163 países no Índice Global da Paz de 2018, organizado pela ONG australiana Instituto para Economia e Paz (IEP), em virtude de fatores como criminalidade e corrupção.

Com tanta violência e desalento espalhados pelo globo, é possível pensar em paz neste momento? Não só se pode, como se deve pensar sempre em paz, indicam estudos científicos. A ideia inicial para a realização desses trabalhos surgiu com uma afirmação do guru indiano Maharishi Mahesh Yogi, criador da meditação transcendental. Maharishi declarou nos anos 1960 que se 1% da população mundial praticasse sua forma de meditação, as guerras desapareceriam da face da Terra.

Guerra civil na Síria: o pior conflito bélico do momento no planeta (Foto: iStock)

As condições para testar essa afirmação surgiram por volta de 1974, quando mais de 250 mil norte-americanos já praticavam a meditação transcendental e, em muitas pequenas cidades do país, o número desses adeptos atingia 1% da população local. Os estudos começaram então, em quatro cidades com meditadores, focando em índices como estatísticas de crimes, taxas de acidentes e admissões em hospitais, comparados a seguir com os de outras quatro cidades que serviram como controle. Enquanto as taxas de crimes caíram nas cidades com meditadores, subiram nos demais núcleos urbanos.

Redução confirmada

O estudo foi então ampliado para 11 cidades com 1% de meditadores e 11 cidades-controle. As primeiras tiveram taxas de crime 16,6% menores do que as últimas. Nova ampliação, com 48 cidades de cada lado, mostrou resultados semelhantes, abordados no estudo “The Transcendental Meditation Program and Crime Rate Change in a Sample of Forty-Eight Cities”, publicado na revista “Journal of Crime and Justice” (Vol. IV, 1981). Os números obtidos foram considerados a evidência de um “Efeito Maharishi” sobre a violência.

Grupos de meditadores vibrando paz de modo organizado: receita com chance de êxito (Foto: iStock)

A partir daí, a pesquisa se diversificou. Um dos estudos mais famosos que se seguiram foi realizado em 1983, durante a escalada na guerra entre Líbano e Israel. Um grupo de centenas de praticantes de meditação transcendental reuniu-se em Jerusalém para meditar pela paz mundial, com resultados surpreendentes, segundo o físico John Hagelin, presidente da Universidade Central Maharishi, em Fairfield (EUA). “Descobrimos que nos dias em que o grupo de meditadores teve o máximo de participantes (e também no dia seguinte a eles), os níveis de conflito tiveram redução de cerca de 80%”, afirmou Hagelin numa palestra realizada em 2007 no Instituto de Ciências Noéticas, na Califórnia. “Isso se tornou um efeito estatisticamente significativo e surpreendente, porque havia apenas entre 600 e 800 pessoas meditando no meio desse conflito inteiro e da altamente estressada população circundante.”

Os números não foram favoráveis somente nos campos de combate: os índices de crimes, colisões de trânsito, incêndios e outras ocorrências associadas a destruição também caíram durante os períodos de meditação do grupo. Na sua conclusão, Hagelin afirmou: “Existem muito mais evidências de que a meditação em grupo pode desativar a guerra como um interruptor de luz do que a aspirina diminui as dores de cabeça. É um fato científico.”

Estudos ampliados

Em sua edição de dezembro de 1988, o “Journal of Conflict Resolution”, da Universidade Yale (EUA), publicou esses resultados e uma carta na qual convocava outras instituições e grupos a replicar o estudo. Nos 821 dias seguintes sete experimentos foram conduzidos, com grupos baseados em Israel, no próprio Líbano e em países do Oriente Médio, da Europa e de outras partes do mundo. Mais uma vez, os resultados chamaram a atenção: quedas de 71% no número de mortos na guerra, de 68% nos casos de feridos e de 48% no nível geral de conflito, enquanto a cooperação entre os antagonistas aumentou em 66%. E com o aumento no número de experiências, concluiu-se que, para chegar a um efeito semelhante ao já obtido, não era preciso reunir 1% da população; um estudo de 1993 realizado em Washington, a capital americana, apresentou resultados positivos com a participação de apenas 0,17% dos habitantes locais.

Maharishi defendia a prática de sua forma de meditar para se obterem esses resultados, mas isso não parece ser necessário. O fundamental é harmonizar-se consigo mesmo e vibrar paz. E, como as pesquisas na área comprovaram, uma fração de pessoas vibrando organizadamente paz pode espalhá-la pelo mundo. É como explica Jon Kabat-Zinn – professor de medicina da Universidade de Massachusetts (EUA) e popularizador da meditação budista mindfulness (da atenção plena) no Ocidente – em seu livro “Aonde Quer que Eu Vá” (Editora Sinais de Fogo): “Sendo um todo e simultaneamente parte de um todo maior, podemos mudar o mundo simplesmente mudando a nós mesmos. Se me torno um centro de amor e bondade neste momento, então, possivelmente de uma forma pequena e insignificante, o mundo tem agora um núcleo de amor e bondade que faltava no momento anterior.” Não custa nada tentar, certo?

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