Pequenos prazeres, grandes consequências

O churrasquinho com os amigos, o sushi com a família, o chocolatinho da tarde... Pequenos prazeres também contribuem para esgotar o planeta. Mas tudo é uma questão de como produzimos nossos alimentos. Saiba como diminuir nossa pegada alimentar

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Você pode até não saber, mas na conta de boa parte dos alimentos que consumimos há um ônus para a natureza que não está nos rótulos. Recentemente, a ministra do Meio Ambiente da França, Ségolène Royal, clamou em rede nacional para que os franceses parassem de comer Nutella, uma das guloseimas mais populares do mundo, por causa de seus altos custos ambientais. A Nutella, assim como uma boa variedade de produtos das indústrias alimentícia (como margarina, chocolate) e de cosméticos, utiliza em sua composição o óleo de palma. A substância tem propriedades antioxidantes (ajuda a conservar melhor os alimentos) e confere textura e crocância.

O problema é que a cadeia produtiva desse componente tão versátil que resulta em iguarias deliciosas muitas vezes é altamente danosa ao meio ambiente. A palma, originária da África, é cultivada em países com clima tropical – no Brasil, é extremamente popular na Bahia, onde atende por dendezeiro. Mas é da Malásia e da Indonésia que sai a maior parte da produção mundial do óleo – cerca de 85%. Nesses países asiáticos, o cultivo do vegetal foi diretamente responsável pelo desmatamento de largas faixas de floresta tropical, pelo desrespeito a tribos indígenas e pela degradação da biodiversidade local. Ao substituir a mata nativa por plantações de palma, de acordo com a World Wide Fund for Nature (WWF), devasta-se uma área equivalente a 300 campos de futebol por hora.

Por ano, são produzidos cerca de 50 milhões de toneladas de óleo de palma, que respondem por 30% de todo o óleo vegetal usado no planeta. Seus derivados estão presentes em, pelo menos, 40% de todos os produtos encontrados em países desenvolvidos, como EUA, Inglaterra e Canadá. Na conta dos últimos 20 anos da atividade nas florestas do Sudeste da Ásia está a morte de 50 mil orangotangos, espécie que perdeu 90% de seu habitat natural na região. Estimativas da Universidade de Princeton (EUA) apontam que até 60% da expansão das plantações de palma na Malásia e Indonésia ocorreu à custa do desmatamento. Medidas mais efetivas de controle dos abusos dessa indústria só foram adotadas em 2004, quando se criou a Mesa-Redonda para Óleo de Palma Sustentável (RSPO, na sigla em inglês). Essa organização sem fins lucrativos emite às empresas certificações de produção sustentável do insumo.

“Há uma lupa enorme sobre esse tema e as empresas vêm se mexendo”, afirma Sandro Marques, professor de pós-graduação de Gastronomia: História e Cultura no Senac-SP. A RSPO representa um avanço, mas seu alcance ainda é tímido: apenas 40% da indústria de palma de óleo mundial possui o selo. Outras iniciativas, como o Grupo de Inovação do Óleo de Palma, mais recente, também vêm ganhando força. Ironicamente, e para a infelicidade da ministra francesa, a Ferrero, fabricante da Nutella, é integrante engajada de ambas. Até mesmo organizações como o Green­peace e a WWF ponderaram a fala de Ségolène e apontaram a Ferrero como uma das companhias que mais contribuíram no combate à devastação causada pelo cultivo irresponsável. Mas a causa ainda é urgente.

Indústria do desequilíbrio

É importante destacar que, a princípio, nenhuma produção de alimento é danosa. Em alguma medida, todas deixam uma pegada ambiental. Umas mais, outras menos. Mas isso tudo está muito relacionado à forma como a comida é processada e distribuída, ou seja, no funcionamento da cadeia produtiva. Desde o pós-guerra, a produção de alimentos ganhou escala industrial. É aí que mora o problema. No atual contexto global, a grande vilã é a carne. Ou, melhor dizendo, a indústria “das carnes” (rebanhos e aves). A criação de animais em larga escala tem efeitos colaterais não apenas para o meio ambiente, mas para a saúde humana. Não se podem ignorar também as implicações éticas da atividade (casos de maus-tratos são frequentes).

Desde 1970, para atender uma alta pela demanda do consumo, a produção de carne triplicou. A estimativa é que até 2050 a população mundial de gado atinja 100 bilhões, dez vezes mais do que a população humana prevista para o mesmo período. Para alimentar toda essa gente até a metade do século 21, será preciso aumentar em até 70% essa produção, de acordo com um relatório da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO). Segundo o mesmo relatório, 25% dos terrenos agrícolas do mundo estão degradados pelos maus usos da atividade e as fontes de água estão cada vez mais escassas – 29% da pegada de água do setor agropecuário é deixada pela criação de gado.

Soma-se a esses custos o fato de a atividade ser uma das grandes causadoras do desmatamento e uma das maiores emissoras de gases de efeito estufa (GEE) na atmosfera. De acordo com a FAO, a pecuária é responsável por 18% das emissões globais de GEE. O problema é ainda mais grave quando consideramos o desequilíbrio na lógica da criação industrial de animais para consumo humano. Segundo Michael Herrmann, pesquisador do Fundo de População das Nações Unidas, a produção de alimentos do atual sistema seria capaz de alimentar até 9 bilhões de pessoas, mas boa parte dessa comida não chega aos pratos, seja porque foi desperdiçada ao longo da cadeia, ou por ter sido usada para alimentar animais. Globalmente, 85% da soja é processada para fazer farinha, e 90% desse produto é utilizado em ração animal.

Uma pesquisa da Universidade Stanford (EUA) calculou que são necessários até cinco vezes mais grãos para produzir a mesma quantidade de calorias pela ingestão de carne bovina do que se esses grãos fossem ingeridos diretamente. Essa quantidade chegaria até dez vezes mais no caso da criação industrializada de animais. A solução defendida por especialistas passa pela redução no consumo de carne, mas não necessariamente por sua completa abolição. “Alimentar animais com grãos não é o ideal. Se fôssemos respeitar os protocolos ecológicos de produção, conseguiríamos, inclusive, regenerar o meio ambiente produzindo carne”, diz Glenn Makuta, representante do movimento Slow Food. “Existem modelos permaculturais e outras técnicas que permitem que a gente trabalhe até o solo. Há outras formas de produção. O problema é o modelo vigente, e não o simples fato de produzir carne.”

Virando a mesa

Mesmo com impactos menores, a produção agrícola e a aquicultura também têm seus problemas e compartilham de um denominador comum com a carne: o processo industrial. Além do mau uso do milho e da soja para a fabricação de ração animal, a agricultura mundial é baseada na monocultura, plantações extensas que implicam mais desmatamento, degradação do solo e uso intensivo de agrotóxico. No caso da aquicultura, há problemas sérios na criação de salmão e de camarão.

A pesca intensiva do salmão tem acabado com as populações selvagens. Sua criação em cativeiro traz implicações para a saúde humana e a natureza. Por ser criado em concentrações maiores do que no oceano, é preciso dar antibióticos para os peixes. “É como se você colocasse um monte de gente dentro de um vagão de trem e três pessoas gripadas lá dentro. A possibilidade de disseminar a doença é muito maior”, compara Sandro Marques. Há também o despejo irregular de dejetos animais que polui a natureza.

A criação de camarões em currais é possível apenas em manguezais, porque somente ali eles encontram condições de se desenvolver. Quando não se faz o manejo adequado, destrói-se esse ecossistema. “Acontece algo parecido com o a degradação do solo pelo mau uso agrícola. Essa cultura é muito danosa para os oceanos, já que o mangue é uma espécie de berçário do mar”, explica Marques. A solução para os problemas das cadeias produtivas de alimentos passa pela mudança de mentalidade dos governos e órgãos fiscalizadores. É necessário dar mais incentivos para formas de produção mais amigáveis ecologicamente, como a agroecologia. Mas a conscientização dos consumidores traz muita força para essa virada de mesa.

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Vá de orgânico

Uma ferramenta desenvolvida pelo Idec mostra as feiras orgânicas mais próximas de você

O senso comum diz que alimentos orgânicos são sempre muito mais caros dos que os produzidos com agrotóxicos. Um levantamento feito pelo Instituto de Defesa do Consumidor (Idec), porém, provou o contrário: se comprados em feiras, orgânicos podem ser até 463% mais baratos do que nos supermercados. Com base na pesquisa, o Idec desenvolveu uma ferramenta que facilitou a vida de quem quer ter hábitos alimentares mais saudáveis e sustentáveis. No feirasorganicas.idec.org.br, um mapa interativo reúne as feiras livres mais próximas de sua casa. Vale a visita.

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