Pesquisa da USP sobre reabilitação de solos após mineração é premiada

Estudo realizado na Esalq avaliou técnica que recupera áreas exauridas pela ação mineradora e aponta alternativa sustentável para manejo de rejeitos

Localização de poços em Saltinho (SP) reabilitados no estudo (imagem de maio de 2018). Imagem SC6: área de cana de seis anos após a sexta colheita; Imagem P20: área de pastagem de 20 anos. Crédito: Reprodução/Geoderma

Os impactos ambientais negativos causados pela mineração feita de forma irresponsável se tornaram muito conhecidos dos brasileiros nos dois grandes desastres que ocorreram nas cidades de Mariana e de Brumadinho, em Minas Gerais. Mas é possível, com ajuda da ciência, diminuir o impacto da mineração e contribuir para o setor, que gera mais de 200 mil empregos diretos e é responsável por 5% do produto interno bruto (PIB) do Brasil. Exemplo disso é a pesquisa realizada na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), da USP, sobre tecnossolos, superfícies que permitem a revegetação e a recuperação de cavas (tipo de poço) abandonadas ou exauridas pela mineração.

O estudo, desenvolvido no Programa de Pós-Graduação em Ciência do Solo da Esalq pelo doutorando e engenheiro agrônomo Francisco Ruiz, com orientação do professor Tiago Osório Ferreira, recebeu o Prêmio de Excelência da Indústria Minero Metalúrgica Brasileira 2020, promovido pela revista “Minérios”, publicação que é referência no setor.

A pesquisa foi realizada na mineradora de calcário Amaral Machado, na cidade de Saltinho, em São Paulo, utilizando uma estratégia inovadora para o setor mineral no Brasil. Ela consiste em reaproveitar os rejeitos produzidos pela própria mineração para construir solos, recompondo a topografia e revegetando as áreas. As áreas recuperadas no estudo estão agora sob pastagem e cultivo de cana-de-açúcar. Durante o estudo, foram avaliadas a rapidez e a qualidade com que esses tecnossolos se formam.

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Desempenho superior

De acordo com o autor, tecnossolos com apenas 20 anos chegam a apresentar desempenho superior aos solos naturais do entorno quanto a aspectos ligados à fertilidade e ao conteúdo de matéria orgânica. “Considerando que são necessários cerca de 400 anos para se formar 1 cm de solo em condições tropicais, a taxa de formação dos tecnossolos foi muito rápida, com pelo menos 10 cm de solo fértil formados em poucos anos”, afirma. “Os rejeitos do calcário eram livres de contaminantes e propícios à formação de solo. Caso contrário, outros materiais poderiam ser adicionados para que o solo se desenvolvesse adequadamente.”

O grupo de pesquisa sobre Ciência do Solo da Esalq também tem realizado estudos combinando diferentes resíduos (domésticos e industriais) com rejeitos de mineração na construção de tecnossolos eficientes em desempenhar diferentes funções, a depender da problemática (revegetação, barreira contra contaminantes e outros). “São soluções de baixo custo, que aliam o gerenciamento de resíduos e a recuperação de áreas degradadas. É possível não apenas recuperar cavas exauridas e abandonadas, mas também mitigar mudanças climáticas e aumentar as alternativas de uso da terra para a produção de energia e alimentos. Assim, os tecnossolos destacam-se para o contexto nacional como alternativa original e extremamente promissora”, destaca Francisco Ruiz.

A pesquisa premiada da Esalq “Weathering and incipient pedogenesis of Technosols constructed from dolomitic limestone mine spoils” está disponível nas revistas científicas “Geoderma”, “Minerals” e “Chemosphere”.

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