Pesquisadores encontram evidências de varíola entre os vikings

Descoberta faz o início da doença retroceder mil anos nos registros históricos

Ilustração asteca do século 16 que mostra vítimas de varíola: a doença já existia no norte da Europa no ano 600 d.C. Crédito: Wikimedia

A varíola é mais antiga e mais difundida do que se sabia. Um estudo realizado por uma equipe de pesquisadores liderada pelas universidades de Cambridge (Reino Unido) e de Copenhague (Dinamarca) mostra que os vikings também sofriam dessa doença altamente infecciosa e mortal. Os novos resultados foram publicados na revista “Science”.

Através dos tempos, a varíola matou centenas de milhões de pessoas. Mas não está claro exatamente quando ela surgiu. Foram encontradas evidências de varíola em indivíduos do século 17, enquanto registros escritos sugerem que a moléstia é muito mais antiga. O novo estudo revela que a doença já existia durante a era viking, mil anos antes do que o mostrado anteriormente.

“Encontramos a evidência mais antiga de varíola. Além disso, ela parece ter sido surpreendentemente comum desde a era viking”, afirmou o professor associado Martin Sikora, do Globe Institute da Universidade de Copenhague, um dos coautores do estudo. “A varíola é a infecção no mundo que matou a maioria das pessoas. Por esse motivo, é muito importante e interessante saber como a doença se desenvolveu. Isso nos dá uma oportunidade única de entender a evolução dos vírus: como eles mudaram e se tornaram o patógeno que conhecemos hoje.”

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Disseminação maior

Os pesquisadores analisaram o DNA de 13 indivíduos do norte da Europa infectados com varíola. As amostras são mil anos mais velhas que a amostra mais antiga anterior aceita como tendo sido infectada com base no DNA original. Portanto, elas levam a linha do tempo da varíola para muito antes.

O estudo também mostra que a doença tem sido mais disseminada do que se pensava anteriormente. A ideia geral era que a varíola não era endêmica no norte da Europa durante esse período.

“Mostramos que ela não só era endêmica na Europa, mas na verdade era bastante difundida no norte da Europa já no ano 600. Isso significa que a doença quase certamente já estava estabelecida em uma época muito mais remota do que se pensava”, disse o professor Eske Willerslev, do Globe Institute da Universidade de Copenhague e da Universidade de Cambridge, outro coautor do artigo.

Os pesquisadores também descobriram que os vírus que circulavam durante a era viking eram distintos de suas contrapartes modernas, e não diretamente ancestrais dos vírus que causaram o último grande surto de varíola no século 20.

“Eles compartilham um ancestral comum, mas também têm características únicas que os diferenciam dos que circularam mais adiante na história. Acontece que os vírus que encontramos foram algumas dessas versões muito, muito antigas e diferentes dos patógenos devastadores conhecidos a partir do século 20. É a primeira vez que podemos rastrear esses primeiros vírus da varíola, comparar seus genomas e mutações e ver como a doença evoluiu ao longo do tempo”, disse Willerslev.

Catálogo de mutações

Embora a doença tenha sido erradicada hoje, ainda é muito útil saber como ela se desenvolveu e se modificou ao longo do tempo.

A varíola é o chamado poxvírus, uma grande família de vírus com muitos tipos diferentes que infectam um conjunto diversificado de espécies hospedeiras. Um exemplo é a varicela, que tipicamente infecta macacos, mas também é conhecida por causar uma doença semelhante à varíola em humanos. Portanto, é útil saber como outros tipos de poxvírus sofrem mutação e sobrevivem.

Há registros escritos de possíveis infecções por varíola com mais de 3 mil anos de idade. A doença foi declarada erradicada em 1980 pela Organização Mundial da Saúde (OMS). O vírus da doença ainda existe em dois laboratórios no mundo: um nos EUA e outro na Rússia.

“Quando sabemos como a doença sofreu uma mutação ao longo do tempo, isso nos dá a oportunidade de montar um catálogo de como esses patógenos podem sofrer mutações no futuro: quais mutações e combinações tornam esses patógenos viáveis e bem-sucedidos?”, ressaltou Sikora. “Se eles tiveram essas mutações no passado, provavelmente conseguirão isso de novo. (…) É um dos poucos exemplos em que a pesquisa genética antiga tem implicações diretas na saúde atual e futura.”

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