Pesquisadores testemunham triste fim de chimpanzé albino na selva

Filhote albino foi morto pelos próprios membros do grupo da mãe, numa reserva florestal em Uganda

Chimpanzés examinam o corpo do filhote albino: hostilidade ao diferente. Crédito: Maël Leroux

Fenômeno raríssimo, a ocorrência de um chimpanzé selvagem albino foi documentada pela primeira vez nas florestas de Uganda, por uma equipe da Universidade de Zurique (Suíça) e da Budongo Conservation Field Station. Infelizmente, os pesquisadores também registraram a morte do animal, atacado por outros membros do bando. O caso foi abordado na revista American Journal of Primatology.

O pequeno chimpanzé de pelo branco, da espécie Pan troglodytes schweinfurthii, foi visto pela primeira vez em julho de 2018 na Reserva Florestal de Budongo, no noroeste de Uganda.  Ele teria então entre 14 e 19 dias de vida.

“Estávamos realmente interessados ​​em observar o comportamento e as reações de outros membros do grupo em relação a esse indivíduo com uma aparência muito incomum”, disse o principal autor do estudo, Maël Leroux, da Universidade de Zurique, ao site IFLScience.

Presença incômoda

Os pesquisadores viram o filhote albino e sua mãe (tratada como UP) diversas vezes. Mas notaram que a presença dele incomodava outros membros do grupo. Em certa ocasião, membros de um grupo próximo da mãe e do filhote produziam ruídos característicos de ocasiões em que os chimpanzés encontram animais estranhos ou perigosos. De repente, uma discussão aflorou e um macho bateu em UP e no filhote, forçando-a em seguida a subir em uma árvore, enquanto outros animais gritavam.

Nem todos os animais foram agressivos, porém. O macho adulto chegou próximo a UP e estendeu-lhe a mão, “aparentemente para tranquilizá-la”, segundo os pesquisadores. Uma fêmea adulta se aproximou do filhote agredido e o examinou atentamente.

O pequeno chimpanzé não resistiu a novas agressões, contudo. Pouco depois das 7h30 de 19 de julho, os pesquisadores ouviram seu choro, além de gritos agressivos. O macho alfa do grupo (denominado HW pelos pesquisadores) surgiu então do meio da mata segurando o filhote, que já estava sem um braço. No mínimo seis outros chimpanzés se aproximaram e começaram a morder as orelhas, os dedos e os pés do pequeno albino. Depois, ele foi passado a uma fêmea adulta, que mordeu sua cabeça várias vezes. Foi então que o filhote parou de se mover e emitir sons.

Atenção extra

A seguir, dez membros do grupo começaram a examinar, acariciar e cheirar o corpo sem vida. O gesto em si não é raro, mas os pesquisadores consideram que a aparência diferente do filhote atraiu mais a atenção desse grupo. Uma atitude bem incomum de um desses macacos foi inserir um dedo no ânus do pequeno albino.

“Eu diria que o tempo gasto inspecionando o corpo, o número e a diversidade de indivíduos inspecionando-o e alguns dos comportamentos exibidos – ‘acariciando’ as costas, beliscando o cabelo com os lábios no corpo primeiro e depois em seus próprios corpos, ou a inserção de um dedo no ânus – são comportamentos realmente raros observados. Até onde sei, os comportamentos de ‘acariciar’ e ‘beliscar’ não haviam sido observados anteriormente nesse contexto”, observou Leroux ao IFLScience.

Posteriormente, o corpo foi recuperado pelos pesquisadores e levado para um laboratório. Na autópsia, o albinismo foi confirmado. O pequeno chimpanzé não tinha nenhuma pigmentação na pele, no pelo e nos olhos.

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