Picadas de cobra causam 200 mortes por dia, no mundo

Organização Mundial da Saúde anuncia investimento de US$ 136 milhões em estratégia para combater o problema, considerado por ativistas como a maior crise de saúde pública oculta do mundo

Cobra Elaphe taeniura / Matthijs Kuijpers / Reprodução Instagram
Cobra Elaphe taeniura / Matthijs Kuijpers / Reprodução Instagram

A cada ano, entre 81.000 e 138.000 pessoas são mortas por picadas de cobra no mundo e outras 400.000 ficam com sequelas graves incapacitantes. A maior questão é a escassez global de antídoto para o veneno de serpentes, principalmente em áreas rurais da Ásia (57.000 a 100.000 mortes), da África e Oriente Médio (20.000 a 32.000) onde as instalações de saúde adequadas são poucas e distantes entre si. Nos outros continentes, o número de casos é significativamente menor: América Latina e Caribe, 3.400 a 5.000 mortes por ano; na Oceania entre 200 e 520; na Europa, de 30 a 128, e EUA e Canadá, apenas 15.

Considerado por ativistas como a maior crise de saúde pública oculta do mundo, a questão acaba de ganhar prioridade na Organização Mundial da Saúde. A OMS lançou na semana passada uma estratégia para lidar com o problema. O objetivo é reduzir pela metade a mortalidade e a incapacidade causada por picadas de cobra até 2030 tornando mais efetivos os tratamentos, melhorando os sistemas de saúde e educando as comunidades para prevenir mordidas (ensinando as pessoas a reconhecerem as espécies venenosas encontradas em suas regiões e estimulando-as a adotarem comportamentos simples e eficazes, como usar sapatos).

O investimento anunciado para a estratégia chega a US$ 136 milhões e grande parte dele vem da Wellcome Trust, do Reino Unido, uma instituição de caridade de pesquisa (US$ 101,3 milhões, nos próximos sete anos). Uma mudança dramática de rota, já que os investimentos para o campo não chegaram a 40 milhões de dólares na década anterior, de acordo com a Wellcome.

Um dos direcionamentos de pesquisa que os cientistas da Wellcome planejam seguir com o novo financiamento é criar um antídoto universal. O objetivo é utilizar novas abordagens para produzir um veneno que seja mais seguro, mais barato e mais eficaz.

O método atual mudou pouco desde o século 19: o veneno é extraído de uma cobra e administrado a um cavalo ou outro animal em pequenas doses para provocar uma resposta imune. O sangue do animal é retirado e purificado para obter anticorpos que atuam contra o veneno. A técnica tem taxas relativamente altas de reações adversas, sejam leves, como erupção cutânea e coceira, ou mais grave, como anafilaxia.

Instituto Vital Brazil (IVB), fundado em 1919, em Niterói, se mantém ainda hoje como pioneiro na pesquisa científica e produção de antídotos contra picada de animais peçonhentos (cobras, aranhas e escorpiões), além de outros medicamentos e vacinas. (Crédito: Carlos Magno)

De acordo com Wellcome, o mundo tem menos da metade do antídoto necessário. Até hoje só foram desenvolvidos antídotos para cerca de 60% das cobras venenosas do mundo. Na África, até 90% dos antídotos são considerados ineficazes, porque não estão adaptados às espécies locais. Isso costuma deixar as pessoas desconfiadas, e elas acabam recorrendo a curandeiros em vez de hospitais.

Outra questão é que podem ser proibitivamente caro. Em média, um frasco custa US$ 160, e um tratamento completo geralmente requer vários frascos, segundo a Wellcome. Um estudo de 2013 da Índia descobriu que mais de 40% das vítimas tinham que fazer um empréstimo para pagar pelo tratamento e, para pagar, as famílias muitas vezes tinham de vender objetos de valor.

As cobras consideradas as maiores matadoras de pessoas incluem a víbora encontrada na África, no Oriente Médio, na Índia e no Paquistão, e a víbora de Russell, encontrada na Índia e no sudeste da Ásia.

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