Pintura rupestre indonésia lança nova luz sobre espiritualidade humana

Arte de pelo menos 44 mil anos encontrada em caverna na ilha de Sulawesi é a evidência mais antiga de representação de coisas que não existem no mundo material

Detalhe da pintura encontrada em Sulawesi: com cerca de 44 mil anos, é o mais antigo exemplo de arte rupestre do mundo. Crédito: R. Sardi

Uma equipe de arqueólogos liderada pela Universidade Griffith (Austrália) descobriu uma pintura em uma caverna na Indonésia com pelo menos 44 mil anos de idade e que retrata um grupo de figuras parcialmente humanas e parcialmente animais – teriantropos – caçando mamíferos com lanças ou cordas, o que joga uma nova luz sobre a origem da cognição humana moderna.

Segundo o estudo sobre a descoberta, publicado na revista “Nature”, essa pintura, encontrada na ilha de Sulawesi, é a arte rupestre mais antiga da espécie humana. A representação figurativa de caçadores como teriantropos também pode ser a evidência mais antiga de nossa capacidade de imaginar a existência de seres sobrenaturais, uma pedra angular da experiência religiosa.

Descoberto em 2017, o novo sítio de arte rupestre, chamado Leang Bulu’ Sipong 4, é um entre as centenas de sítios encontrados na região cárstica de calcário de Maros-Pangkep, no sul de Sulawesi.

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Em 2014, o mesmo grupo de pesquisadores anunciou que uma caverna de calcário em Maros-Pangkep abriga um dos mais antigos motivos de arte rupestre do mundo, um contorno vermelho borrifado de uma mão humana (um “estêncil de mão”) criado há pelo menos 40 mil anos.

Corpos humanos

Como no caso dessa pesquisa anterior, a equipe atual mediu o decaimento radioativo do urânio e outros elementos dentro de formações minerais na pintura da caverna de Leang Bulu’ Sipong 4, obtendo idades mínimas entre 35.100 e 43.900 anos atrás para essa arte.

“Os caçadores representados no antigo painel de arte rupestre de Leang Bulu’ Sipong 4 são figuras simples com corpos semelhantes aos humanos, mas foram pintados com cabeças ou outras partes do corpo de animais como aves, répteis e outras espécies de fauna endêmicas de Sulawesi”, disse Adhi Agus Oktaviana, especialista em arte rupestre indonésio e aluno de doutorado na Universidade Griffith.

Esses teriantropos são retratados no ato de matar ou capturar seis mamíferos em fuga, dois Sus celebensis (mamífero aparentado ao porco) e quatro búfalos anões conhecidos como anoas. Estes últimos são bovídeos pequenos, mas ferozes, que ainda habitam as florestas cada vez menores da ilha.

Surpreendentemente, algumas figuras parecem estar usando longas cordas para capturar esses animais perigosos.

Símbolos abstratos

É a primeira vez que uma narrativa visual detalhada ou “história” é identificada em um período tão inicial no vasto registro da arte rupestre pré-histórica em todo o mundo. Pelo que se sabia antes, a primeira arte rupestre da humanidade apareceu na Europa e consistia em símbolos abstratos.

Por volta de 35 mil anos atrás, essa forma de arte simples supostamente havia evoluído para uma cultura artística mais sofisticada, caracterizada por sublimes pinturas figurativas de cavalos e outros animais. Também se pensava que conceitos inovadores de representação artística, como composições com múltiplos assuntos em interação (cenas), e a representação de entidades imaginárias como teriantropos, eram muito incomuns até cerca de 20 mil anos atrás.

“A pintura em caverna de Leang Bulu’ Sipong 4 sugere que não houve evolução gradual da arte paleolítica de simples a complexa há cerca de 35 mil anos – pelo menos não no sudeste da Ásia”, disse o professor Maxime Aubert, da Universidade Griffith e do Centro de Pesquisa Australiano de Evolução Humana (ARCHE, na sigla em inglês), um dos líderes da pesquisa. “Todos os principais componentes de uma cultura artística altamente avançada estavam presentes em Sulawesi há 44 mil anos, incluindo arte figurativa, cenas e teriantropos.”

Importância indonésia

A equipe de pesquisadores sugeriu que, juntamente com a descoberta de uma pintura figurativa de um bovino selvagem datada de pelo menos 40 mil anos atrás em Kalimantan, na ilha de Bornéu, publicada no ano passado, a Indonésia é um dos lugares mais importantes do mundo para entender o início de arte das cavernas e a evolução do pensamento humano moderno.

“As imagens de teriantropos em Leang Bulu’ Sipong 4 também podem representar a evidência mais antiga de nossa capacidade de conceber coisas que não existem no mundo natural, um conceito básico que sustenta a religião moderna”, disse o professor associado Adam Brumm, do ARCHE, que coliderou a pesquisa. “Os teriantropos ocorrem no folclore ou na ficção narrativa de quase todas as sociedades modernas e são percebidos como deuses, espíritos ou seres ancestrais em muitas religiões em todo o mundo.”

Brumm acrescentou: “Sulawesi agora abriga a imagem mais antiga desse tipo – antes mesmo do ‘homem-leão’ da Alemanha, uma estatueta de um humano com cabeça de leão, que, aos 40 mil anos de idade, era até agora a representação mais antiga de um teriantropo. (…) Os primeiros indonésios estavam criando arte que pode ter expressado pensamento espiritual sobre o vínculo especial entre seres humanos e animais muito antes da primeira arte ter sido feita na Europa, onde muitas vezes se supõe que as raízes da cultura religiosa moderna possam ser rastreadas”.

Material ameaçado

Segundo Oktaviana, suas pesquisas de arte rupestre em Maros-Pangkep com Brumm e Aubert descobriram muitos novos locais de cavernas com pinturas figurativas espetaculares que ainda aguardam datação, mas ele também observou a deterioração alarmante dessa arte em quase todos os locais, inclusive Leang Bulu’ Sipong 4.

O monitoramento pelo BPCB (agência de preservação do patrimônio cultural indonésio) confirma que as superfícies das paredes das cavernas nas quais as pinturas foram feitas estão descolando a uma velocidade espantosa, apagando a arte, afirma Oktaviana.

“A arte rupestre de Sulawesi pode contribuir com uma visão inestimável do aumento da espiritualidade humana e da disseminação de crenças e práticas artísticas que moldaram nossas mentes modernas”, ele comentou. “Seria uma tragédia se essas obras de arte excepcionalmente antigas desaparecessem em nossa vida, mas está acontecendo. Precisamos entender por que essa arte rupestre globalmente significativa está se deteriorando – agora.”

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