Polinésios têm traços genéticos de índios sul-americanos

Estudo indica que cruzamento entre indivíduos das duas populações teria ocorrido por volta do ano 1200

Ilha de Páscoa em 1795, na visão de William Hodges (1744–1797): o contato de polinésios com índios sul-americanos teria ocorrido bem antes da chegada dos europeus àquela parte do mundo. Crédito: National Maritime Museum/Wikimedia

Evidências de trações genéticos de nativos americanos foram encontrados nos genomas de habitantes modernos de ilhas da Polinésia. A descoberta de uma equipe internacional de pesquisadores sugere que os antigos habitantes dessas ilhas conheceram e se miscigenaram com indivíduos originários da América do Sul centenas de anos atrás. Seu estudo foi publicado na revista “Nature”.

A Polinésia foi um dos últimos cantos do mundo em que os seres humanos se fixaram. Isso ocorreu quando, há cerca de mil anos, grupos de moradores de ilhas da Ásia e da Oceania avançaram mais para o leste. O estudo recente reforça a teoria de que os antigos polinésios tiveram contato com nativos americanos.

Os pesquisadores pensavam que isso provavelmente teria acontecido na Ilha de Páscoa (também chamada Rapa Nui), devido à sua proximidade com a América do Sul. Mas os dados mais recentes sugerem que esses encontros (ou talvez uma única reunião) ocorreram em ilhas a milhares de quilômetros de distância do continente.

LEIA TAMBÉM: O enigma de Páscoa

Abundantes evidências arqueológicas e genéticas indicam que as ilhas polinésias foram colonizadas por humanos oriundos do leste da Ásia. Mas existem algumas pistas de que essas pessoas entraram em contato com os sul-americanos. É o caso da batata-doce, originária das terras altas dos Andes, que cresce no leste da Polinésia. Amostras de batata-doce da Polinésia do século 18 compartilham marcadores genéticos com as variedades costeiras da América do Sul. E a palavra que designa a planta é semelhante nesses locais.

Ascendência mista

Um estudo genômico de 2014 descobriu que os ancestrais dos habitantes modernos da Ilha de Páscoa se haviam miscigenado com os nativos americanos. No entanto, o DNA de restos humanos antigos daquela ilha e de outros na Polinésia Francesa não registrou esses sinais.

Para ampliar a pesquisa, uma equipe liderada pelo geneticista populacional Andrés Moreno-Estrada, do Laboratório Nacional de Genômica para Biodiversidade em Irapuato, México, analisou o DNA de pessoas que vivem atualmente em Rapa Nui e de indivíduos de mais de uma dúzia de ilhas do Pacífico. “Nosso laboratório no México está muito interessado em entender a diversidade genética de populações em toda a América Latina e, de maneira mais geral, de populações sub-representadas em pesquisa genômica”, disse Moreno-Estrada, autor sênior do artigo publicado na “Nature”. “Por meio dessa pesquisa, queríamos reconstruir as raízes ancestrais que moldaram a diversidade dessas populações e responder a perguntas profundas e antigas sobre o contato em potencial entre os nativos americanos e as ilhas do Pacífico, conectando duas das regiões menos estudadas do mundo.”

Os cientistas coletaram amostras de saliva de 807 participantes em 17 ilhas da Polinésia e 15 grupos de indígenas ao longo da costa do Pacífico entre o México e o Chile. Fizeram então análises genéticas para procurar trechos de DNA característicos de cada população e segmentos que são “idênticos por descendência”, ou seja, herdados do mesmo ancestral muitas gerações atrás.

Origem colombiana

Os pesquisadores identificaram a ascendência dos nativos americanos não apenas em Rapa Nui, mas também em pessoas das remotas ilhas polinésias orientais de Palliser, Nuku Hiva (Marquesas do Norte), Fatu Hiva (Marquesas do Sul) e Mangareva.

A equipe tentou determinar quando as duas populações se haviam misturado. Era preciso distinguir o contato ‘pré-colombiano’ entre os grupos daquele ocorrido séculos após a colonização europeia da América do Sul e da Polinésia. Com base no comprimento de segmentos de DNA compartilhados – que encurta em gerações sucessivas –, eles estimam que as pessoas no extremo leste da Polinésia cruzaram com os sul-americanos entre 1150 d.C. e 1230 d.C. Na Ilha de Páscoa, a miscigenação ocorreu por volta de 1380. Os pesquisadores também encontraram evidências de mistura nos séculos 18 e 19.

Alguns pesquisadores propuseram que os polinésios viajaram para a costa da América do Sul. Mas Moreno-Estrada acha que esse contato ocorreu na Polinésia. Além disso, o contato poderia ter envolvido um único grupo de nativos americanos. A equipe calculou datas semelhantes para o surgimento de ascendência dos nativos americanos em diferentes ilhas. Outra análise descobriu que os segmentos de DNA da América do Sul nos genomas de pessoas de diferentes ilhas da Polinésia parecem ter vindo do mesmo povo nativo americano. As comparações de material genético sugeriram que a tribo zenu (ou sinu), da Colômbia, carrega o DNA mais parecido com o encontrado nos polinésios.

Evidências arqueológicas sugerem que havia rotas de comércio marítimo entre o México e o Equador nessa época, afirmou Moreno-Estrada. “Talvez uma pequena jangada de marinheiros nativos americanos tenha ficado à deriva no Pacífico.”

Contato único

“Encontramos segmentos idênticos por descendência dos ancestrais nativos americanos em várias ilhas da Polinésia”, disse Alexander Ioannidis, pesquisador de pós-doutorado na Universidade Stanford (EUA) e coautor principal do artigo, juntamente com o aluno de graduação de Stanford Javier Blanco-Portillo. “Foi uma evidência conclusiva de que houve um único evento de contato compartilhado.”

Para Moreno-Estrada, os polinésios que se estabeleceram em Rapa Nui por volta do ano 1200 já possuíam ascendência sul-americana. Mas Paul Wallin, arqueólogo da Universidade de Uppsala (Suécia), que não fez parte do estudo, questionou se grupos de nativos americanos não teriam viajado para a Polinésia posteriormente. Monumentos de pedra semelhantes a edificações sul-americanas foram erguidos pela primeira vez em Rapa Nui entre 1300 e 1400. Isso ocorreu centenas de anos antes de aparecerem em outras ilhas da Polinésia, observou ele.

Veja também

+ Invasão de vespas assassinas aumenta tensão com 2020 nos EUA
+ Anticoagulante reduz em 70% infecção de células pelo coronavírus
+ Assintomáticos: 5 dúvidas sobre quem pega o vírus e não tem sintomas
+ 12 dicas de como fazer jejum intermitente com segurança