Por que eles não podem passar?

A crise dos migrantes que tentam chegar à Europa fugindo de guerras e da miséria coloca em xeque o sonho de integração da humanidade

Meu aprendizado sobre fronteiras, muros e seu poder de separação começou cedo. A casa onde nasci e passei a infância, em São Carlos (SP), tinha um quintal enorme, cheio de árvores frutíferas, animais domésticos, galinhas, um peru, um pato e um coelho. Confinava com o quintal do vizinho, tão grande quanto, e não havia cercas divisórias entre eles. Lá pelos meus 6 anos de idade, esses quintais representavam para mim uma floresta virgem, um universo repleto de aventuras e mistérios.

Mas um dia, sem querer, quebrei um dos bebedouros de barro das galinhas do quintal ao lado, provocando a fúria da vizinha. Dois dias depois, alguns homens chamados por ela começaram a erguer um muro bem alto. Pronto em uma semana, ele assinalou, como todos os muros, a perda de uma visão integrada de mundo e de sociedade que eu, como toda criança inocente, carregava desde o nascimento.

Erguidos para anexar ou defender territórios, combater a imigração e o terrorismo, muros e fronteiras possuem pelo menos um ponto em comum: dividem o mundo e impedem o antigo sonho da sua integração. Por meses a fio temos visto o embate entre essas visões, divisão x integração, nos países europeus participantes do espaço Schengen, o maior projeto de integração do mundo contemporâneo. Pelo acordo, atualmente todos os países da União Europeia (exceto Reino Unido e Irlanda), Suíça, Noruega e Islândia devem abrir fronteiras e permitir a livre circulação de pessoas entre eles.

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Mas a crise dos refugiados, principalmente os egressos da guerra civil que se desenrola na Síria, tem mostrado que, nessa seara, boas intenções têm limite. Quando essa avalanche de gente (vinda principalmente da Turquia rumo à Grécia) começou a bater às portas da Europa, no ano passado, a ideia do espaço Schengen mostrou quanto ainda é frágil. Dramas como o do garoto sírio Aylan Kurdi, encontrado afogado na areia da praia de Bodrum, na Turquia, até comoveram boa parte da opinião pública internacional, mas não foram suficientes para que a compaixão imperasse sobre as razões de Estado.

O primeiro-ministro da Hungria, o direitista Viktor Orban, inaugurou a fase de construção de cercas, afirmando que a Europa precisa “proteger suas fronteiras cristãs”. Do outro lado, políticos e economistas de esquerda observaram que esse fluxo migratório é, para a maior parte das nações do Velho Continente, muito mais uma solução do que um problema, já que injeta força nova em países com populações cada vez mais envelhecidas e com problemas para sustentar seu estado de bem-estar social. Mas o predomínio ainda é de uma generosidade muito modesta.

Abertura cautelosa

Dois dos países mais importantes do bloco, Reino Unido e França, são exemplos de posições cautelosas. O Reino Unido, protegido por sua condição insular, deixou claro desde o início que controlaria rigorosamente o fluxo migratório e acabou aceitando receber 20 mil pessoas em 2015. A França foi um pouco além: concordou em acolher 24 mil imigrantes nesse período. A economicamente saudável Alemanha, que despontou como um dos destinos preferidos dos imigrantes, fez a diferença no início – graças sobretudo à primeira-ministra Angela Merkel, que mostrou uma faceta especialmente compassiva em relação ao assunto.

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“Se a Europa falhar na questão dos refugiados, então não será a Europa que desejávamos”, declarou ela em setembro. Ao reprovar a xenofobia e indicar que a Alemanha estava pronta para receber refugiados, a líder alemã não só se pôs em sintonia com os ideais da União Europeia, mas obteve a aprovação de eleitores e ajudou a afastar da memória mundial o passado nazista do país. A Alemanha, que se propôs a receber 800 mil refugiados em 2015, acabou acolhendo 1,1 milhão de pessoas.

O tempo e o incessante fluxo migratório, porém, já mudaram esse quadro. No fim de janeiro, cerca de 40% dos eleitores alemães queriam a saída de Merkel, exatamente por sua política de acolhimento de refugiados. Além disso, um partido político eurocético e anti-imigração está obtendo apoio crescente e, pela primeira vez em muitos anos, pode superar a barreira de 10% das intenções de voto.

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Declarações dadas pela primeira-ministra em janeiro mostram que os tempos são outros: ela afirmou na ocasião que a presença de refugiados sírios e iraquianos na Alemanha é “temporária” e, uma vez que o Estado Islâmico for derrotado e a Síria e o Iraque voltarem a ter paz, essas pessoas serão encaminhadas de volta aos seus países de origem. Enquanto isso, outros países da União Europeia estão endurecendo suas políticas migratórias. Em 19 de fevereiro, a Áustria, vizinha da Alemanha, decidiu restringir as demandas de asilo a 80 por dia.

O país, que em 2015 recebeu 90 mil pedidos de asilo, quer baixar esse número para 37,5 mil este ano, além de limitar a 3,2 mil por dia o número de migrantes que poderão transitar por seu território para pedir asilo em um país vizinho. A Suécia, que recebeu 163 mil migrantes em 2015, anunciou em janeiro que pretende expulsar cerca de 80 mil deles. “A briga atual­ das fronteiras mostra o quanto estamos despreparados para acolher o novo laço social da globalização”, diz o psicanalista Jorge Forbes. “Até hoje a identidade dos paí­ses era marcada por esse sentido: ‘eu faço e você não faz’. O mundo mudou e os Estados insistem na velha ordem.”

A força da xenofobia

Por que países que no passado enviaram tantos migrantes a outras partes do mundo têm tanta dificuldade em lidar com o assunto? Há, é claro, receios econômicos e de segurança bem nítidos: acolher tantas pessoas novas em países com economia fraca pode tornar a recuperação muito difícil, e terroristas podem estar infiltrados entre os migrantes. Mas as motivações vão além disso. “O sentimento de xenofobia em toda a Europa ainda é bastante forte”, explica o político ítalo-brasileiro José Luis Del Roio. “Esse sentimento impregna vastas áreas da direita, sobretudo as de tonalidade fascista, que não toleram os imigrantes.”

A historiadora francesa Ariane Chebel d’Appollonia, professora de assuntos públicos e administração da Universidade Rutgers (EUA), reforça essa opinião: para ela, os acordos de 1985 que possibilitaram o espaço Schengen “foram elaborados para assegurar o trânsito de gente agradável, e não de refugiados”. O foco da União Europeia nos anos 1990, ressalta Ariane, foi “parar a imigração ilegal e baixar a imigração legal, sem qualquer consideração pelo resto do mundo”. Segundo ela, as políticas europeias para o tema não foram desenvolvidas tendo em vista um número tão grande de refugiados.

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Para Hein de Haas, professor de sociologia da Universidade de Amsterdã (Holanda) e ex-diretor do Instituto de Migração Internacional, as migrações ocorrem por motivos econômicos e familiares, e os deslocamentos por guerras são minoria. Isso significa que movimentos migratórios são, em certa medida, inevitáveis, e a União Europeia, com meio bilhão de habitantes, possui recursos suficientes para lidar com a situação. Para De Haas, a verdadeira crise na Europa não é a migratória ou a dos refugiados. “Temos procedimentos de asilo funcionando, assim como uma estrutura legal internacional”, avalia. “A crise real é a impotência europeia para responder à situação. Seria ultrajante se a Europa não conseguisse lidar com isso quando a maioria dos refugiados está em países mais pobres, como Líbano ou Turquia.”

Danilo Türk, ex-presidente da Eslovênia e professor da Escola de Direito da Universidade Columbia (EUA), endossa a opinião expressada pelo sociólogo holandês. “A União Europeia foi sacudida por essa crise em um sentido político fundamental. (…) Aconteça o que acontecer, nós na União Europeia tendemos a ter um número cada vez maior de indivíduos provenientes de outras partes do mundo. Não deveríamos subestimar os temores, e respostas reais têm de ser providenciadas.”
Enquanto respostas não surgem, barreiras, restrições e cercas são erguidas, separando povos, cidades e nações. E retardam ainda mais o sonho de uma humanidade sem fronteiras.

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Opção preferencial pelas pontes

O papa Francisco demonstrou desde o início do seu pontificado que o tema da migração lhe é especialmente caro. Sua primeira viagem apostólica no atual cargo foi à ilha italiana de Lampedusa, no Mar Mediterrâneo, o destino buscado pela maioria dos imigrantes africanos que tentam chegar à Itália. Com a visita, Francisco procurou sensibilizar a pequena ilha de 6 mil habitantes e a própria Itália para a necessidade de acolher essas pessoas e garantir os seus direitos.

Francisco no México: ataque aos muros
Francisco no México: ataque aos muros

“Tende a coragem de acolher aqueles que procuram uma vida melhor”, pediu na ocasião, elogiando Lampedusa como “exemplo para todo o mundo” por ter “a coragem de acolher” essas pessoas. Ele também foi firme ao se opor à “indiferença” dedicada a esses imigrantes que viajam em embarcações precárias para tentar o sonho europeu. “Perdemos o sentido da responsabilidade fraterna e esquecemo-nos de como chorar os mortos no mar. Ninguém chora esses mortos”, lamentou.

Uma das inserções mais recentes do tema da migração na agenda papal aconteceu em fevereiro, na viagem de Francisco ao México. Uma das paradas do pontífice foi em Ciudad Juárez, na divisa entre México e Estados Unidos. Boa parte dessa fronteira, inclusive o trecho que separa Ciudad Juárez de El Paso, no Texas, é murada (veja quadro “Refugiados de hoje e de ontem”), como uma maneira de evitar o ingresso nos EUA de imigrantes clandestinos vindos da América Latina.

Na missa que rezou no local, Francisco denunciou a “tragédia humana” em que vivem os imigrantes que fogem da pobreza, da violência e do crime em seus países, tratando-a como um fenômeno global. E aproveitou a barreira fronteiriça para convidar seus ouvintes a abater os muros de indiferença, rejeição e ódio, construindo em seu lugar pontes de comunhão, fraternidade, solidariedade e amor.

As palavras de Francisco em Ciudad Juárez agitaram a política dos EUA, já que o por ora candidato preferido dos eleitores republicanos, o bilionário Donald Trump, quer não apenas expulsar todos os imigrantes clandestinos do país, mas também murar por completo os mais de 3 mil quilômetros da fronteira EUA – México. Questionado sobre essa posição no voo que o levou de volta à Itália, Francisco foi direto: “Uma pessoa que pensa apenas em construir muros, onde quer que seja, e não em construir pontes, não é um cristão. Isso não está no evangelho”.

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Ação e reação

Por que, ao longo de uma história multimilenar, não se consegue dissociar a Europa da questão migratória? Uma resposta instigante não é dada pelas ideologias políticas, e sim pelas grandes tradições espiritualistas e esotéricas. Em uma antiga entrevista a PLANETA, concedida em 1974 no Rio de Janeiro, o inglês John Coats, então presidente da Sociedade Teosófica Mundial, explicou que o que determina a relação Europa/migrações é nada mais nada menos que a lei do carma. “Carma não significa punição a falhas ou pecados.

John Coats
John Coats

Trata-se simplesmente de uma lei física, a lei das ações que provocam reações, e ela atua tanto no plano do indivíduo quanto da família, da sociedade, do país, de um continente inteiro. Por exemplo, a questão das migrações. Nós agora, na Inglaterra, nos queixamos da ‘invasão’ de dezenas de milhares de pessoas provenientes das nossas ex-colônias. Mas, durante séculos, nós invadimos esses países e desfrutamos de suas riquezas. É natural, portanto, segundo a lei do carma, que agora o fluxo se inverta, e que agora seja a vez de os nossos ex-colonizados ‘invadirem’ nossas cidades.”

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