Portugal

Pressionado pela União Européia a investir em fontes renováveis de energia, Portugal tem-se saído muito melhor do que a encomenda.

Pressionado pela União Européia a investir em fontes renováveis de energia, tem-se saído muito melhor do que a encomenda. Tem os maiores parques fotovoltaico e eólico do mundo, a primeira usina de energia das ondas do mar para uso comercial e já é um dos líderes da indústria ligada a essas tecnologias de vanguarda

Rebocador conduz um dos tubos que obtêm eletricidade a partir das ondas do mar para sua posição. As unidades ao largo de Aguçadoura, no litoral norte de , constituem o primeiro parque de ondas do mundo em funcionamento comercial.

Dono de um pequeno território no extremo oeste da Europa, pobre em recursos naturais, não teria muitos motivos para se destacar entre as nações do continente. Mas, graças a muita engenhosidade e arrojo – duas qualidades essenciais para evoluir -, o país tornou-se uma potência marítima na Idade Média e caminha agora para se tornar um líder em energias renováveis. Diferentemente de planos que nunca saem do papel (como freqüentemente se observa no outro lado do Atlântico), os projetos portugueses têm transformado a paisagem local, a um custo ambiental baixíssimo. Em 2007, segundo o Ministério da Economia português, as fontes de energias renováveis já representavam 40,7% do total de eletricidade consumida no país.

Essa orientação começou em 2004, diante de um cenário em princípio sombrio para . O país, que não tem reservas de petróleo, carvão ou gás, nunca investiu na alternativa nuclear e sempre importou mais de 85% da energia ali consumida, teve de adequar-se a uma resolução do Parlamento Europeu tomada em abril daquele ano: obter de fontes renováveis pelo menos 20% da energia consumida na União Européia até 2020. Isso significava que, mesmo explorando todo o potencial hidrelétrico português (no qual só havia um rio sem barragens), o país teria de mergulhar a fundo em fontes energéticas ainda consideradas não comerciais.

Mas os governantes portugueses enxergaram uma oportunidade enorme em meio a essa crise: o desenvolvimento de uma indústria voltada às energias renováveis. No futuro, calcularam esses dirigentes, não só produziria a maior parte de sua energia a partir de fontes limpas, mas também pesquisaria, criaria e fabricaria equipamentos necessários para isso, montando nessa área um novo pólo de conhecimento e empregos, capaz de rivalizar com os líderes Dinamarca e Japão.

COM O ESTÍMULO de investimentos governamentais, de empresas locais e estrangeiras, os planos para concretizar esse objetivo começaram em 2005, e o mais recente desdobramento desse projeto ocorreu em 23 de setembro, com a inauguração do primeiro parque de ondas comercial do mundo, em Aguçadoura (litoral norte do país). Representando o governo na ocasião, o ministro da Economia e da Inovação, Manuel Pinho, comemorou o feito: “O futuro da energia das ondas começa hoje. A Finlândia é muito boa em celulares, deseja ser bom em energia renovável. Estamos entre os cinco maiores do mundo, e estamos apenas no início do processo.”

Os aparelhos que convertem a energia das ondas em eletricidade estão localizados no mar, a cerca de cinco quilômetros de Aguçadoura. Parecem, a distância, três finas linhas paralelas perdidas nas águas do Atlântico. Quem chega mais perto, porém, observa três tubos vermelhos semi-submersos, fabricados em aço-carbono. Cada um deles possui 3,5 metros de diâmetro, 142 metros de comprimento e pesa cerca de 700 toneladas.

Pressionado pela União Européia a investir em fontes renováveis de energia, tem-se saído muito melhor do que a encomenda. Tem os maiores parques fotovoltaico e eólico do mundo, a primeira usina de energia das ondas do mar para uso comercial e já é um dos líderes da indústria ligada a essas tecnologias de vanguarda

No alto , o ministro da Economia e da Inovação português, Manuel Pinho. Acima, o parque fotovoltaico de Amareleja, o maior do mundo. Abaixo e à esquerda, parques eólicos em Cabril e na Ilha da Madeira.

Criados e fabricados por uma empresa escocesa, a Pelamis Wave Power, esses conversores de energia flutuam no ritmo das ondas. Cada tubo é composto por quatro seções unidas por juntas articuladas, que se movem para cima e para baixo conforme as ondas passam por ele. Graças a seus dois geradores com potência nominal de 125 quilowatts (kW), cada junta pode converter até 250 kW. O movimento das ondas permite, assim, que um único conversor produza, no pico, 750 kW. A eletricidade gerada pelos três aparelhos é levada por um cabo submarino a uma subestação em Aguçadoura, que a distribui para a rede pública portuguesa.

NA PRIMEIRA FASE do projeto, que consumiu cerca de 9 milhões de euros (mais de R$ 24,3 milhões) – 15% dos quais financiados com recursos públicos -, a energia das ondas deve abastecer cerca de mil domicílios. A segunda etapa, com investimentos entre 60 milhões e 70 milhões de euros (de R$ 162 milhões a R$ 189 milhões), envolve a produção e a instalação de outros 25 conversores, que deverão aumentar a capacidade até o máximo de 21 mil kW, ou 21 megawatts (MW).

Quando o parque estiver concluído, terá condições de atender ao consumo anual médio de 15 mil residências – cujo abastecimento por centrais convencionais movidas a combustível fóssil levaria a uma emissão de dióxido de carbono superior a 60 mil toneladas no mesmo período.

O projeto, inicialmente tocado pela empresa portuguesa Enersis (cujo proprietário é o fundo de investimentos australiano Babcock & Brown), foi assumido em setembro por um consórcio, o Ondas de , no qual 77% pertencem a três empresas – a Babcock & Brown e as lusitanas EDP (proprietária, em nosso país, da EDP Energias do Brasil) e Efacec (também presente por aqui) -, enquanto os outros 23% são da fabricante dos equipamentos, a Pelamis Wave Power. A formação dessa parceria não se limita a impulsionar a viabilização comercial da energia das ondas; ela já sinaliza o objetivo das empresas de promover programas experimentais que sir vam como ponto de partida para uma indústria portuguesa especializada nessa fonte energética.

JÁ DE INÍCIO, o consórcio pretende que 40% da segunda fase do projeto de Aguçadoura tenha equipamentos fabricados pela Efacec. E seus planos para explorar o potencial do mar que banha são para lá de ambiciosos. “Se o governo nos der licenças, estamos dispostos a ir até os 500 MW em três ou quatro zonas diferentes”, afirmou Leocádio Costa, engenheiro da Enersis, à Agência Lusa. Segundo Costa, há diversos pontos favoráveis à instalação de parques de ondas espalhados pelos 832 quilômetros de litoral do país. Alguns especialistas consideram, aliás, que 20% da energia necessária para abastecer os consumidores portugueses poderá vir do mar.

Pressionado pela União Européia a investir em fontes renováveis de energia, tem-se saído muito melhor do que a encomenda. Tem os maiores parques fotovoltaico e eólico do mundo, a primeira usina de energia das ondas do mar para uso comercial e já é um dos líderes da indústria ligada a essas tecnologias de vanguarda

Funcionário coloca a bandeira portuguesa num dos tubos da Pelamis instalados no Parque de Aguçadoura.

Aparelhos para obtenção de energia das ondas no litoral português. Cada um mede 147 metros de comprimento e pode produzir até 750 quilowatts.

Outra área em que tem investido bastante é a energia eólica. Já existia ali uma longa tradição de aproveitar os ventos que sopram do Atlântico: desde o século 12, moinhos propiciavam a moagem de cereais e o bombeamento de água para irrigar os campos ou abastecer a população, entre outras finalidades. Mas foi só recentemente que despertou de vez para o uso dessa fonte energética. Depois de estudos para medir o potencial eólico e da instalação de turbinas experimentais em diversas serras do país, os primeiros parques eólicos (locais com duas ou mais turbinas, estejam elas ligadas ou não à rede elétrica portuguesa) começaram a ser implantados em 1996.

Um grande projeto lançado em 2006 pelo governo do país nessa área, com execução em duas partes, deve atingir a produção de 1.500 MW, o que significa mais que dobrar a produção nacional de energia eólica daquela época. O plano abrange a construção de mais de 500 turbinas em pontos diversos do território português, com capacidade para abastecer anualmente 750 mil domicílios.

Hoje em dia, já existem mais de dez empreendimentos do gênero em . Entre eles está o maior parque eólico do mundo, localizado no norte do país, perto da fronteira com a Espanha, e que conta com mais de 130 turbinas. Assim como no caso da energia das ondas, o governo incentivou o desenvolvimento de uma indústria local de fabricação dos aparelhos utilizados nesses pontos, que, segundo o ministro Pinho, emprega atualmente mais de 10 mil pessoas, de forma direta ou indireta.

O terceiro grande pilar do crescimento português em fontes renováveis reside na energia solar. O país é, na Europa, um dos mais privilegiados nesse aspecto: boa parte de seu território recebe cerca de 3.300 horas de luz solar por ano. Os investimentos no setor já incluem mais uma inserção no livro dos recordes – o maior parque solar fotovoltaico do planeta. Localizado em 2,5 km2 de uma fazenda do governo perto da cidadezinha de Amareleja, no leste do país, ele envolve a instalação de 2.520 seguidores solares (aparelhos que permitem o aproveitamento máximo do ângulo de incidência dos raios), cada qual com 104 painéis fotovoltaicos, que aproveitam diretamente a luz do Sol para gerar eletricidade. Com um custo parcial que supera R$ 835 milhões, esse empreendimento terá, quando finalizado, capacidade instalada de 46,41 MW – mais de quatro vezes maior que a segunda central do gênero, situada também em , e suficiente para abastecer 30 mil casas.

EM MENOS DE TRÊS anos, as diretrizes governamentais sobre fontes renováveis levaram o país a triplicar sua produção de energia hidrelétrica, quadruplicar a de energia eólica e a assumir posição invejável em termos de energia solar e de ondas. Garantias oficiais de preços estáveis por longo tempo nessa área deram às empresas privadas a segurança para investimentos pesados – calcula-se que eles chegarão a mais de R$ 35 bilhões em 2012. E a indústria portuguesa de energias renováveis caminha a passos largos – segundo o primeiro-ministro José Sócrates, em 2007, “pela primeira vez na história”, seu país vendeu mais tecnologia do que importou, um sucesso em parte impulsionado pela “aposta estratégica” feita em energias renováveis a partir de 2005.

Pressionado pela União Européia a investir em fontes renováveis de energia, tem-se saído muito melhor do que a encomenda. Tem os maiores parques fotovoltaico e eólico do mundo, a primeira usina de energia das ondas do mar para uso comercial e já é um dos líderes da indústria ligada a essas tecnologias de vanguarda

NO ATUAL RITMO, em 2020 não só vai cumprir seus compromissos com a União Européia como terá se firmado como um dos países-chave do mundo no que se refere a fontes renováveis. Enquanto isso, o Brasil – gigante adormecido na área, dono de um litoral enorme, de notáveis potenciais em termos de energia solar e eólica – prefere enfeitiçarse com as descobertas de petróleo na camada pré-sal. Numa perigosa sinalização nesse sentido, agora ensaia poluir uma matriz energética tradicionalmente limpa, ao depender cada vez mais de usinas térmicas movidas a combustíveis fósseis. Aos responsáveis pela situação, uma declaração do ministro Pinho que serve como lembrete: “Energia e meio ambiente são o maior desafio de nossa geração. Temos de desenvolver um modelo de baixo carbono para a economia mundial.” E um vaticínio com boas chances de êxito: “Países que não investem em energias renováveis pagarão um alto preço no futuro.”

SITES DE INTERESSE

Energias Renováveis – http:// energiasrenovaveis.wordpress.com

Portal das Energias Renováveis – www.energiasrenovaveis.com

: Folha de Dados sobre Energias Renováveis – http://ec.europa.eu/energy/ climate_actions/doc/factsheets/ 2008_res_sheet_portugal_pt.pdf

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