Povo misterioso que viveu no Levante descendia de neandertais e Homo sapiens

Os aurignacianos chegaram há 40 mil anos a essa região da Ásia e por alguns milênios imprimiram a ela suas sofisticadas características culturais

Ossos de animais trabalhos pelos aurignacianos encontrados em caverna no Levante: marca cultural que durou alguns milênios. Crédito: Gary Todd/Wikimedia

O enigma da origem dos aurignacianos que viveram no Levante (a região que compreende (Síria, Líbano, Jordânia, Chipre, Israel e territórios palestinos) parece ter chegado ao fim. Pesquisadores da Universidade de Tel Aviv (TAU), da Autoridade de Antiguidades de Israel e da Universidade Ben-Gurion descobriram que esses misteriosos e culturalmente sofisticados humanos migraram da Europa para a região cerca de 40 mil anos atrás, o que abre espaço para entender melhor uma era significativa na história da região. Um artigo sobre as descobertas foi publicado na revista “Journal of Human Evolution” em outubro.

Surgida na Europa há 43 mil anos, a cultura aurignaciana se notabilizou por ter produzido ferramentas de ossos, artefatos, joias, instrumentos musicais e pinturas rupestres. Durante anos, acreditou-se que a chegada do homem moderno à Europa levou ao rápido declínio dos neandertais, seja por meio de confrontos violentos ou pelo controle conflituoso de fontes de alimentos. Mas estudos genéticos recentes mostraram que os neandertais não desapareceram. Em vez disso, eles assimilaram as populações modernas de imigrantes humanos. O novo estudo adiciona mais evidências para reforçar essa teoria.

Por meio de avançadas pesquisas odontológicas em seis dentes humanos descobertos na Caverna Manot, na Galileia Ocidental, Rachel Sarig, da Faculdade de Medicina Dentária da TAU e da Faculdade de Medicina Sackler, Omry Barzilai, da Autoridade de Antiguidades de Israel, e colegas da Áustria e dos Estados Unidos demonstraram que os aurignacianos chegaram à moderna Israel vindos da Europa há cerca de 40 mil anos – e que esse grupo era compostos por neandertais e Homo sapiens.

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“Ao contrário dos ossos, os dentes são bem preservados porque são feitos de esmalte, a substância no corpo humano mais resistente aos efeitos do tempo”, disse Rachel Sarig. “A estrutura, a forma e a topografia ou a superfície dos dentes forneceram informações genéticas importantes. Conseguimos usar a forma externa e interna dos dentes encontrados na caverna para associá-los a grupos típicos de hominíneos (subdivisão dos hominídeos): neandertal e Homo sapiens.”

Vista da Caverna Manot e close da área onde alguns dos dentes foram encontrados. Crédito: Israel Hershkovitz/Amigos Americanos da TAU
Resultados surpreendentes

Os pesquisadores realizaram testes de laboratório usando microtomografia de raios X e análises 3D em quatro dentes. Os resultados surpreenderam: dois dentes mostraram uma morfologia típica de Homo sapiens; um dente apresentou traços característicos dos neandertais; o último dente mostrou uma combinação de características de neandertal e Homo sapiens.

Essa combinação de características humanas modernas e neandertais, até o momento, foi encontrada apenas em populações europeias do início do período paleolítico, sugerindo sua origem comum.

“Após a migração das populações europeias para essa região, uma nova cultura existiu no Levante por um curto período, aproximadamente entre 2 mil e 3 mil anos. Depois desapareceu sem motivo aparente”, acrescentou Sarig.

“Até agora, não tínhamos encontrado restos humanos com datação válida desse período em Israel”, afirmou Israel Hershkovitz, da TAU. “Assim, o grupo permanecia um mistério. Esse estudo inovador contribui para a história da população responsável por algumas das contribuições culturais mais importantes do mundo.”