Praga medieval não lembrava gripe e pode ter chegado à Inglaterra antes

Estudo histórico indica que a Peste de Justiniano se originou do mesmo microrganismo causador da Peste Negra e pode ter atingido a Inglaterra antes de chegar a Constantinopla

Ilustração medieval sobre a peste bubônica: evidências relativas à ocorrência da doença durante o reinado do imperador Justiniano foram negadas ou distorcidas pelos céticos. Crédito: CC0 Public Domain

Os céticos estão errados ao subestimar o impacto devastador que a peste bubônica teve entre os séculos 6 e 8, argumenta um novo estudo baseado em textos antigos e recentes descobertas genéticas. O estudo sugere ainda que a peste bubônica pode ter atingido a Inglaterra antes de seu primeiro caso registrado no Mediterrâneo por uma rota atualmente desconhecida, possivelmente envolvendo o Báltico e a Escandinávia.

A Peste (ou Praga) de Justiniano foi o primeiro surto conhecido de peste bubônica na história da Eurásia ocidental e atingiu o mundo mediterrâneo em um momento crucial de seu desenvolvimento histórico, quando o imperador bizantino Justiniano (que reinou de 527 a 565) tentava restaurar o poder imperial romano.

Por décadas, historiadores discutiram sobre a letalidade da doença; seu impacto social e econômico; e as rotas pelas quais se espalhou. Em 2019-20, vários estudos, amplamente divulgados na mídia, argumentaram que os historiadores haviam exagerado maciçamente o impacto da Peste de Justiniano e a descreveram como uma “pandemia inconsequente”. Em um artigo jornalístico subsequente, escrito pouco antes de a covid-19 se estabelecer no Ocidente, dois pesquisadores sugeriram que a Peste de Justiniano era “não muito diferente de nossos surtos de gripe”.

Ceticismo da praga

Em um novo estudo, publicado na revista Past & Present, o historiador Peter Sarris, professor da Universidade de Cambridge (Reino Unido), argumenta que esses estudos ignoraram ou minimizaram as novas descobertas genéticas, ofereceram análises estatísticas enganosas e deturparam as evidências fornecidas por textos antigos.

Sarris diz: “Alguns historiadores permanecem profundamente hostis em relação a fatores externos como as doenças como tendo um grande impacto no desenvolvimento da sociedade humana, e o ‘ceticismo da praga’ tem recebido muita atenção nos últimos anos.” Ele critica a forma como alguns estudos usaram motores de busca para calcular que apenas uma pequena porcentagem da literatura antiga discute a praga e, em seguida, argumentar de forma crua que isso prova que a doença foi considerada insignificante na época.

“Testemunhar a praga em primeira mão obrigou o historiador contemporâneo Procópio a romper com sua vasta narrativa militar para escrever um relato angustiante sobre a chegada da praga a Constantinopla que deixaria uma impressão profunda nas gerações subsequentes de leitores bizantinos”, observa Sarris. “Isso é muito mais revelador do que o número de palavras relacionadas à peste que ele escreveu. Diferentes autores, escrevendo diferentes tipos de texto, concentraram-se em diferentes temas, e suas obras devem ser lidas de acordo.”

Medidas impulsionadas pela crise

Sarris também refuta a sugestão de que as leis, moedas e papiros fornecem poucas evidências de que a praga teve um impacto significativo no estado ou na sociedade bizantina primitiva. Ele aponta para uma grande redução na formulação de leis imperiais entre o ano 546, ponto em que a praga havia se firmado, e o fim do reinado de Justiniano, em 565. Mas ele também argumenta que a enxurrada de legislação significativa feita entre 542 e 545 revela uma série de medidas impulsionadas pela crise emitidas em face do despovoamento induzido pela peste e para limitar os danos infligidos pela doença às instituições de proprietários de terras.

Em março de 542, em uma lei que Justiniano descreveu como tendo sido escrita em meio à “presença envolvente da morte”, que “se havia espalhado por todas as regiões”, o imperador tentou apoiar o setor bancário da economia imperial.

Em outra lei de 544, o imperador tentou impor controles de preços e salários, enquanto os trabalhadores tentavam se aproveitar da escassez de mão de obra. Aludindo à praga, Justiniano declarou que a “correção enviada pela bondade de Deus” deveria ter tornado os trabalhadores “pessoas melhores”, mas, em vez disso, “eles se voltaram para a avareza”.

Desafio real

A praga exacerbou as dificuldades fiscais e administrativas existentes no Império Romano do Oriente e também se refletiu nas mudanças na moeda nesse período, argumenta Sarris. Uma série de moedas de ouro leve foi emitida, a primeira redução na moeda de ouro desde sua introdução no século 4. O peso da cunhagem de cobre pesado de Constantinopla também foi reduzido significativamente na mesma época da legislação bancária de emergência do imperador.

Sarris diz: “A importância de uma pandemia histórica nunca deve ser julgada principalmente com base no fato de ela levar ao ‘colapso’ das sociedades em questão. Da mesma forma, a resiliência do Estado romano oriental em face da peste não significa que o desafio representado pela peste não era real”.

Ele prossegue: “O que é mais impressionante sobre a resposta governamental à Peste de Justiniano no mundo bizantino ou romano é o quão racional e cuidadosamente direcionada ela era, apesar das circunstâncias desconcertantemente desconhecidas em que as autoridades se encontravam. (…) Temos muito a aprender sobre como nossos antepassados ​​responderam às doenças epidêmicas e como as pandemias afetaram as estruturas sociais, a distribuição da riqueza e os modos de pensar”.

A peste na Inglaterra

Até o início dos anos 2000, a identificação da Peste de Justiniano como “bubônica” baseava-se inteiramente em textos antigos que descreviam o aparecimento de bubões ou inchaços nas virilhas ou axilas das vítimas. Mas então os rápidos avanços na genômica permitiram que os arqueólogos e cientistas genéticos descobrissem vestígios do antigo DNA de Yersinia pestis em restos de esqueletos medievais. Essas descobertas foram feitas na Alemanha, Espanha, França e Inglaterra.

Em 2018, um estudo de DNA preservado em restos mortais encontrados em um antigo cemitério anglo-saxão conhecido como Edix Hill, em Cambridgeshire (condado onde está Cambridge), revelou que muitos dos enterrados morreram com a doença. Uma análise posterior revelou que a cepa de Y. pestis encontrada foi a primeira linhagem identificada da bactéria envolvida na pandemia do século 6.

Sarris diz: “Temos a tendência de começar com as fontes literárias, que descrevem a peste chegando a Pelusium, no Egito, antes de se espalhar de lá, e então ajustamos as evidências arqueológicas e genéticas em uma estrutura e narrativa com base nessas fontes. Essa abordagem não funciona mais. A chegada da peste bubônica ao Mediterrâneo por volta de 541 e sua chegada inicial à Inglaterra, possivelmente um pouco antes, podem ter sido o resultado de duas rotas separadas, mas relacionadas, ocorrendo com algum tempo de diferença”.

Rota setentrional

O estudo sugere que a praga pode ter atingido o Mediterrâneo pelo Mar Vermelho, e talvez atingido a Inglaterra pelo Báltico e a Escandinávia, e de lá para partes do continente.

O trabalho enfatiza que, apesar de ser chamada de “Peste de Justiniano”, a doença “nunca foi um fenômeno puramente ou mesmo principalmente romano” e, como recentes descobertas genéticas provaram, atingiu locais remotos e rurais como Edix Hill, bem como cidades densamente povoadas.

É amplamente aceito que a cepa letal e virulenta da peste bubônica da qual descenderia a Peste de Justiniano e, mais tarde, a Peste Negra emergiu na Ásia Central na Idade do Bronze, antes de evoluir ainda mais lá na Antiguidade.

Sarris sugere que pode ser significativo que o advento da Peste de Justiniano e da Peste Negra tenha sido precedido pela expansão dos impérios nômades na Eurásia: os hunos nos séculos 4 e 5 e os mongóis no 13. O historiador afirma: “O aumento da evidência genética levará a direções que mal podemos antecipar, e os historiadores precisam ser capazes de responder de forma positiva e imaginativa, em vez de encolher os ombros defensivamente”.

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