Pressa de tartaruga

Em tempo de Rio+20, o arquiteto Jaime Lerner, ex-governador do Paraná e criador do Plano Diretor de Curitiba, defende alternativas mais rápidas e baratas para enfrentar o caos das cidades, contrárias

 à maioria dos urbanistas entusiasmados com metrô.

Dez anos após largar a política, o arquiteto, urbanista e político Jaime Lerner, três vezes prefeito de Curitiba e duas vezes governador do Paraná, segue empenhado em encontrar soluções para o futuro das cidades. Consultor das Nações Unidas para urbanismo, Lerner é celebrado internacionalmente pela eficiência do sistema de transportes que implementou na capital paranaense. Curitiba foi pioneira mundial na introdução de vias expressas exclusivas para ônibus, em 1974. Décadas depois, Lerner não teme nadar contra a corrente e insiste que a melhor solução para o tráfego insustentável passa não só pela melhoria do transporte público, mas por uma visão integrada de trabalho-vida e de locomoção – cuja melhor metáfora é o conforto das tartarugas. Quase 75% das emissões de carbono na atmosfera são produzidas em cidades, sendo metade desse volume por automóveis. Este é o maior problema.

Em meio à mobilização social da Rio+20, Lerner produziu um curta-metragem para educar as novas gerações, A Convenient Start (“Um Começo Conveniente”, título que remete ao filme do ex-vice-presidente norte-americano Al Gore, “Uma Verdade Inconveniente”), premiado no Sustainable Planet Film Festival, em Nova York. Mas se o engajamento pelas causas ambientais continua firme, a saída da política é definitiva. “Não tenho a menor vontade de voltar para a política, porque acho que posso contribuir mais fora dela. Mas não lamento o tempo em que fiz política, porque isso deu legitimidade para fazer o que faço”, afirma.

Conheça, agora, a sabedoria das tartarugas.

Quem vive em São Paulo tem a sensação de que a cidade está à beira do colapso. Qual a sua impressão?

Não acho que esteja, mas existem, sim, áreas muito deterioradas. Há um falso dilema, segundo o qual a solução de mobilidade para São Paulo depende do carro ou do metrô. Não é nem uma coisa nem outra.

Qual é a solução?

Admitir todas as outras alternativas, porque você nunca vai poder ter uma rede completa de metrô. Investir em abrir mais vias para o automóvel é piorar o problema. Nós temos que melhorar a operação de superfície, porque 84% dos deslocamentos em São Paulo são feitos na superfície.

Mas como lidar com a lentidão política quando 700 novos carros são emplacados por dia?

A solução é oferecer melhor transporte público. Enquanto a cidade não oferecer melhor transporte público para todos, a tendência não vai mudar. Há urbanistas que dizem que o transporte público só melhora quando é usado pelos ricos.

Não partilho desse princípio. Diria que o transporte muda quando todos puderem usar. Uma coisa é fundamental no futuro das cidades: usar menos o automóvel no itinerário de rotina. Como fazer isso acontecer? Oferecendo um bom transporte público. Isso não quer dizer que você vai deixar de usar o automóvel. Vai usá-lo para viagens, para lazer, no que não é rotina. Hoje em dia se investe em novas vias e mais marginais, mas isso não resolve nada: o carro só chega mais rapidamente aos pontos de congestionamento. Por outro lado, esperar que São Paulo um dia tenha uma rede completa de metrô não dá. O importante é usar tudo o que se tem disponível. Você pode “metronizar” o ônibus: dar ao ônibus a mesma performance do metrô e até melhor.

 

Com os corredores?
Odeio essa palavra, porque implica uma visão limitada ao transporte, e a visão da cidade é outra. A metáfora que uso para explicar a cidade é a da tartaruga: o casco tem semelhança com a tessitura urbana; você tem moradia, trabalho e movimento juntos. Se você corta o casco, e tem moradia aqui e trabalho lá, mata a tartaruga. Isso é o que acontece com as cidades. Quando separamos as funções, obviamente, a cidade deixa de ser sustentável. A mesma fragmentação acontece quando separamos gente por renda, idade ou religião. Enquanto a visão de transporte for tratada de forma isolada, não será resolvida. Veja o exemplo de Curitiba: a diferença não é o sistema de corredores de transporte, mas a estrutura de vida e trabalho na qual o transporte está inserido. Enquanto São Paulo tiver guetos onde vivem pessoas muito ricas ou muito pobres, vamos complicar o problema da mobilidade.

 

O economista norte-americano Edward Glaeser é um defensor da verticalização. Diz que todos querem vir para a cidade porque, apesar dos defeitos, nela se ganha mais dinheiro e a vida é melhor.

O que o sr. acha?
Acho que a expressão correta não é verticalização, mas “mais densidade”. Densidade permite compartilhar melhor os custos dos serviços públicos. Veja as cidades europeias: são mais densas e melhores. Não é porque são verticais ou não. Cidades como Paris ou Buenos Aires são densas. A densidade é desejável nas grandes cidades.

 

Que bons exemplos de reformas urbanas podem nos inspirar?
Curitiba é uma boa referência. Qualquer cidade europeia é uma boa referência, porque nasceram e mantêm essa concepção indissolúvel de vida-trabalho-lazer. Ninguém se incomoda de morar perto de gente rica ou pobre e tudo acontece junto. Assim eram as cidades brasileiras. Por que Nova York, apesar do crescimento, está cada vez melhor? A diversidade é importante. Hoje, além de questões como saúde, educação, atenção à criança e segurança, há três problemas fundamentais nas cidades: mobilidade, sustentabilidade e sociodiversidade.

 

Onde foi que a gente se perdeu?

Nossas cidades tinham coexistência social e mistura de funções. Houve uma expansão desnecessária, que levou ao esvaziamento os centros das cidades – justamente as melhores áreas, que estavam muito bem equipadas em termos de infraestrutura. A fuga e a falta de diversidade não levam a boa coisa. Eu diria que começando a resolver a mobilidade você ajuda a resolver a sustentabilidade. Porque 75% das emissões de carbono do efeito estufa, que esquenta o planeta, se originam nas cidades, e metade desse problema vem do automóvel. Se você oferecer um bom transporte público, não tenha dúvida de que vai avançar em sustentabilidade. Regiões onde há sociodiversidade e mistura de renda são as menos violentas, porque um presta serviço ao outro, há troca, um tem necessidade do outro e existe maior relação. Há uma frase que explica tudo: tendência não é destino. No exato momento em que a sociedade detecta uma tendência não desejável começa a mudança. Por isso, não sou pessimista em relação a São Paulo. Os problemas já foram detectados. A cidade é muito voltada para o individualismo. É necessário responsabilidade pela comunidade, mais ligação com o conjunto da sociedade.

 

Não há excesso de individualismo? Cada um com seu carro e danem-se os outros?
Só haverá mudança se a alternativa for melhor. Não é culpa da pessoa. Se o poder público não oferece coisa melhor, não tem jeito. Se existir um bom transporte público, não vou ficar me chateando com congestionamentos e falta de estacionamento. O transporte público tem que ser uma alternativa melhor. Existe descrença nele porque não há prioridade por parte do governo. Continuamos a investir em obras viárias. Há muita demora de decisões. Se temos tudo à mão, por que as coisas não acontecem? Hoje a iniciativa privada responde rápido, mas o governo não decide. Demora muito.

 

O que o sr. espera da Rio+20?

Não gosto de discussões sem objetivo. O Brasil poderia dar mais contribuições ao mundo, em sustentabilidade, se encaminhasse melhor o problema das suas cidades. As pessoas querem ajudar, fazer, mas ficam presas a inventários, a relatórios de índices não comprovados e metas não exequíveis. Não adianta dizer: vamos reduzir em 20% as emissões de carbono. É preciso saber como. A melhor maneira é usar menos o automóvel, separar o lixo e morar perto do trabalho. Ou trazer o trabalho para perto da moradia.

 

Mas isso não é difícil?
Não. Sustentabilidade é uma equação entre aquilo que você poupa e aquilo que desperdiça. É simples, mas nos faltam metas e objetividade. O Brasil poderia ser o melhor exemplo, porque temos hoje o melhor know-how de transportes de superfície. Temos a melhor tecnologia – todos os fabricantes estão aqui –, há financiamento, mas as coisas não acontecem, por incrível que pareça.

 

Sustentabilidade virou uma bandeira vaga. Todo o mundo se diz sustentável. Não há muita maquiagem verde?

É claro. Há bancos que se dizem sustentáveis porque seu talão de cheques é feito com papel reciclado. Construtoras dizem que estão fazendo empreendimentos sustentáveis em condomínios fechados fora da cidade porque plantaram algumas árvores no jardim. Na verdade, o que fazem é completamente anticidade e antissustentável.
A palavra está sendo usada de todas as formas. Se 75% das emissões de carbono se originam nas cidades, resolver a questão urbana significa um avanço fantástico. Pregar a plantação de árvores para compensar gasto de combustível é uma coisa muito ingênua.

 

Sua agenda internacional é mais intensa que a nacional. Sua obra é mais reconhecida fora do Brasil?Larguei a política há dez anos. No começo havia a síndrome de um político não adotar a solução do outro político. Enquanto isso, sempre fui bem entendido no Exterior. Curitiba é referência porque foi exemplar.  Foi a primeira cidade no mundo a implantar um sistema de transporte que está sendo desenvolvido em 120 cidades, incluindo a maior do mundo: a Cidade do México. Bogotá implantou 25 anos depois; Seul, capital da Coreia do Sul, também adotou. Muitas cidades brasileiras se recusaram a isso. Algumas até por achar que se a cidade é “maior”, não poderia adotar um sistema usado numa “menor”  –  imagine! O Rio agora está adotando. São Paulo ainda resiste. Tem uma visão rodoviarista.

 

 

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