“Produtos rastreados são uma exigência do consumidor”

Para o diretor-geral adjunto do Grupo Carrefour, é o cliente, com seu poder de escolha, que acelera a velocidade da produção de artigos mais sustentáveis

Formado na École Nationale d’Administration e no Institut d’Etudes Economiques Electorales Et Politiques SASU, Jérôme Bédier tornou-se em 2015 diretor-geral adjunto do Grupo Carrefour, onde já atuava como secretário-geral desde 2012

Presente em mais de 30 países na Europa, América Latina, Ásia e África, a rede de hipermercados francesa Carrefour – a segunda do setor no mundo – tem no desenvolvimento sustentável um dos pilares da sua atuação. Desde 1992, por exemplo, ela possui um selo (no Brasil, denominado Garantia de Origem) que identifica os artigos que comercializa com responsabilidade socioambiental. A empresa tem-se aprofundado cada vez mais nessa área, e em agosto lançou no Brasil sua Plataforma de Pecuária Sustentável, que garante rastreabilidade a toda a carne bovina vendida na rede em nosso país. Presente ao lançamento, o francês Jérôme Bédier, diretor-geral adjunto do grupo, concedeu a seguinte entrevista a PLANETA.

PLANETA – Quando o Carrefour começou a se preocupar com a sustentabilidade e a agir nessa área de forma sistemática?
BÉDIER – Trabalhamos há muito tempo com foco na qualidade dos produtos, na sua rastreabilidade e no desenvolvimento de boas práticas. Uma dessas iniciativas, por exemplo, foi o programa Garantia de Origem, criado em 1992 para assegurar uma produção ambientalmente correta e socialmente justa. Fazemos tudo isso no âmbito de um programa de produção de qualidade, encontrado em quase todos os países onde estamos presentes. A conscientização sobre a importância desse assunto para a evolução do próprio planeta cresceu muito. Há três anos estamos trabalhando sobretudo no que refere à emissão de gases-estufa, como o gás carbônico, e à biodiversidade. Tínhamos feito muitas ações antes, mas hoje temos iniciativas sistemáticas na área de redução de emissões de carbono. Definimos uma meta de redução de 40% do nosso consumo de carbono até 2025 e de 70% até 2050. Assumimos esse compromisso no âmbito da conferência do clima de Paris, a COP21, em 2015. Fomos o primeiro grupo europeu a definir uma meta fixa de carbono. Temos diversas ações relacionadas à biodiversidade, como agroecologia, pesca sustentável (na França e em outros países da Europa) e iniciativas contra o desmatamento. Em relação à pesca, por exemplo, temos ações contrárias à captura de várias espécies, que não são mais vendidas nas nossas lojas. Também nos empenhamos para ter cada vez mais peixes certificados com o selo da Aquaculture Stewardship Council [ASC, organização criada em 2010 pela WWF e pela Dutch Sustainable Trade Initiative para certificar a aquicultura responsável – Nota da Redação]. Sobre o desmatamento, olhamos quais são as áreas em que seu impacto é mais forte. Todos os nossos produtos ligados a essa área, como móveis de jardim, são certificados pela Forest Stewardship Council (FSC), o Conselho de Manejo Florestal [criado em 1993 por várias instituições para promover uma gestão ambientalmente apropriada, socialmente benéfica e economicamente viável das florestas do mundo – N. da R.]. Essas florestas não têm impactos negativos no meio ambiente. Todo o carvão de madeira que vendemos também será adaptado ao padrão FSC.

PLANETA – A Plataforma de Pecuá­ria Sustentável chegou ao Brasil inicialmente por um concorrente, o Walmart, e o Carrefour veio alguns meses depois. Por quê?
BÉDIER – O Walmart usou uma tecnologia apropriada para isso antes de nós. Somos muito abertos sobre a escolha das tecnologias que vão nos permitir chegar aos nossos objetivos – e acredito que todos esses projetos de desenvolvimento sustentável precisam de uma dose de tecnologia muito grande. De qualquer modo, toda a carne bovina que compramos no Brasil respeita o princípio de desmatamento zero.

PLANETA – A carne brasileira comprada pelo Carrefour fica só aqui ou pode ser exportada?
BÉDIER – A carne brasileira tem uma qualidade que lhe permite uma exportação muito fácil. Todo o trabalho que está sendo feito hoje na questão da rastreabilidade, das boas práticas nessa produção, é muito útil. Em alguns países europeus, no entanto, a situação dos pecuaristas é muito difícil e se estabelece uma forma de solidariedade entre os produtores locais e os distribuidores. Por outro lado, em certos paí­ses existem oportunidades nessa área, como a China e o Oriente Médio.

Gado rastreado brasileiro: qualidade para exportação
Gado rastreado brasileiro: qualidade para exportação

PLANETA – A política de carne rastreada é seguida pela sua rede em outros países?
BÉDIER – Sim. Ela está sendo exigida pelo consumidor. Para ser sincero, na Europa fomos obrigados a adotá-la porque houve aquela crise da doença da vaca louca [a encefalopatia espongiforme bovina, ligada à síndrome de Creutzfeldt-Jakob, doença neurodegenerativa cuja incidência aumentou na Europa no início deste século – N. da R.]. Aplicamos esse sistema de rastreabilidade lá de modo muito intenso. O interessante na rastreabilidade é oferecer ao consumidor produtos que podem ser objeto de uma escolha positiva da sua parte. Sempre digo que, no desenvolvimento sustentável, é o consumidor que vai estimular a velocidade da produção. Quando você faz sugestões desse tipo ao consumidor, ele reage de forma muito rápida. Um exemplo é o frango criado sem o uso de antibióticos, que lançamos há cerca de dois anos na França. Nossas previsões de vendas acabaram sendo multiplicadas por quatro. Foram 17 mil frangos sem antibióticos por semana. Para não se dar antibióticos aos frangos, eles precisam ser criados sem confinamento e ser tratados com fitoterapia. Demoramos dois ou três anos para encontrar essa solução. Como se vê, envolve muita tecnologia.

PLANETA – Como o sr. analisa a recente lei francesa sobre o combate ao desperdício de alimentos?
BÉDIER – Essa lei foi feita para desenvolver a doação de alimentos não comercializados e dentro da validade para associações. É o que nós, no Carrefour, fazemos na França há mais de 20 anos. O que não gostamos muito na lei são suas restrições, já que a população inteira estava resolvendo o problema com base no voluntariado. Achamos essa lei desnecessária.

PLANETA – Como o sr. avalia o desempenho das linhas do Carrefour voltadas à saúde e ao bem-estar?
BÉDIER – Hoje, desenvolvemos linhas de qualidade em todos os países nos quais o Carrefour está presente, e elas vão bem. Muitos consumidores estão prontos para gastar mais em produtos cuja qualidade eles conhecem.

Desmatamento: questão vital aqui, não na Europa
Desmatamento: questão vital aqui, não na Europa

PLANETA – Antigamente, gerentes das lojas Carrefour tinham uma certa independência em relação aos produtos que vendiam. A política de qualidade proposta é algo que precisa ser implementado em todos os lugares nos quais a rede atua. Como isso está sendo feito?
BÉDIER – A política de desenvolvimento sustentável tem grandes objetivos para o grupo em cada país. Conforme esses objetivos são definidos, esses países desenvolvem ações importantes. Um exemplo é a questão do desmatamento: ela é vital para o Brasil, mas, como na Europa não há florestas ameaçadas, seu impacto lá é muito menor. Vemos, nesse sentido, que as preo­cupações diferem de um país para outro. Estamos dando ao chefe em cada país uma certa liberdade para lidar com isso.

PLANETA – O Carrefour tem presença mundial e podem surgir casos localizados de greenwashing (“maquiagem verde”), como um de guardanapos da marca própria aqui no Brasil, este ano, ou um de roupas adquiridas de uma empresa tailandesa que usava trabalho escravo, em 2014. Como a empresa corrige esses desvios quando os descobre?
BÉDIER – Não é habitual termos problemas como esses. Quando surgiu o caso tailandês, imediatamente fizemos uma investigação e nos demos conta de que eram compras pequenas. Nossa política de desenvolvimento sustentável é fundada num princípio de materialidade, ou seja: primeiramente, trabalhamos em questões que têm materialidade maior, um impacto mais abrangente, e devemos trazer respostas a elas que também tenham materialidade, não sejam parciais. Por exemplo, em termos de pecuá­ria sustentável, não vamos fazer rastreabilidade só para a Amazônia; vamos fazer para toda a área de produção. Estamos trabalhando essas questões e, como isso está funcionando muito bem, nos obriga a ser bem seletivos, porque não vamos conseguir tratar todos os assuntos. Fizemos um documentário sobre a norma ISO 26000, de responsabilidade social empresarial, que aborda todas as consequências do desenvolvimento sustentável e da ação do Carrefour. Quando o vemos, concluímos: “Nossa, não podemos fazer tudo isso!” Então, selecionamos os temas a ser tratados mais urgentemente e encontramos as melhores respostas para eles. Enquanto fazemos isso, criamos valores para a empresa e os consumidores. Ao mobilizarmos nossas equipes, elas fazem bem seu trabalho e, ao mesmo tempo, fazem o desenvolvimento sustentável. Se você puser produtos nas lojas que têm sentido, cultura, que são bons, tornará sua produção melhor.

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