Psiquiatria transtornada

Ao propor medicar enfermidades até então consideradas não patológicas a quinta edição do Manual de Transtornos Mentais (DSM-5) virou alvo de críticas e boicotes. A sociedade luta pela sua sanidade.

Mais de dez anos e US$ 25 milhões foram gastos e 1,5 mil especialistas de 39 países foram envolvidos na quinta versão do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5, da sigla em inglês), lançada nos Estados Unidos pela Associação de Psiquiatria Americana (APA) em maio. O resultado dessa força-tarefa, entretanto, está sendo considerado insalubre por acadêmicos e profissionais da saúde mental no mundo todo.

Tratar como doenças problemas corriqueiros como birra infantil, luto e ataques de gula com remédio, como sugerem os novos critérios da cartilha, beneficia mais a indústria farmacêutica do que as pessoas. Aliás, desde a primeira edição até hoje, o número de “transtornos mentais” só aumentou: passou de 106, em 1952, para 300, em 2013.

Para os críticos, faltam evidências científicas sobre os novos critérios. Além disso, os contratos de confidencialidade assinados pelos especialistas que fizeram a revisão levantam suspeitas sobre a confiabilidade do manual.

“Especialistas tendem a inflar o que pesquisam. Isso é natural. É assim que as coisas avançam. O que não pode acontecer é uma classificação ser feita com base nesses comprometimentos”, pontua Marcio Amaral, psiquiatra, professor e vice-diretor do Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Para Amaral, ao ceder a grupos de poder e ao lobby das fabricantes de remédios, é provável que a APA acabe perdendo a influência conquistada na década de 1980. “O DSM-3 foi um salto qualitativo, derrubou crenças antigas com base em resultado de pesquisas, e o mundo inteiro passou a segui-lo. Esta versão mais recente desceu a ladeira. É muito óbvio que o saber acumulado até hoje não permite as subdivisões feitas no DSM-5”, comenta o psiquiatra.

Limites da sanidade

O objetivo da quinta edição era seguir pelo mesmo caminho da terceira e basear os diagnósticos nos avanços em neuroimagens, estudos clínicos, genética, etc. Mas durante o processo, descobriu-se que, apesar de os dados biológicos serem sugestivos, não eram robustos o suficiente. Os estudos foram, então, desconsiderados.

Como resposta a isso, o maior patrocinador de pesquisas psiquiátricas do mundo declarou um boicote ao DSM-5. Em comunicado, Thomas Insel, diretor do Instituto Nacional de Saúde Mental americano, argumenta que “seria como decidir que os eletrocardiogramas não são úteis porque muitos pacientes com dor no peito não apresentam alteração no eletro. É o que estamos fazendo há décadas ao rejeitar dados biológicos porque não detectaram uma categoria do DSM.”

Para Wang Yuan Pang, psiquiatra e professor do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, existem interesses de todos os lados, portanto a situação tem de ser analisada com parcimônia. Ele destaca que, haverá beneficiados pelas mudanças no DSM-5, a princípio nos Estados Unidos, já que os planos de saúde norte-americanos passam a cobrir os tratamentos das novas doenças. “Quadros graves de TPM poderão ser tratados. Cerca de 5% das mulheres sofrem com depressão e psicose no período pré-menstrual”, exemplifica. Mas lembra que ainda vai demorar para os efeitos do DSM-5 chegarem ao Brasil, pois seu uso não é obrigatório aqui.

?No Brasil, os psiquiatras e todos os profissionais de saúde seguem a Classificação Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID), preparada pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Ou seja, são os códigos da CID que aparecem em recibos, receitas e certificados médicos.

Nas últimas décadas, as novas edições da CID têm se equiparado às atualizações do DSM. Mas, com tantas críticas e insatisfações, pode ser que a rotina mude na próxima atualização, programada para 2014.

Diante das circunstâncias, é difícil não lembrar do conto de Machado de Assis, O Alienista, escrito no final do século XIX. Na história, o psiquiatra Simão Bacamarte cria a Casa Verde, em Itaguaí, para abrigar todos os casos que julgar fora da normalidade. Não demora muito para quatro quintos da população da cidade terminarem lá dentro. A normalidade se torna tão incomum que a loucura vira normal e faz com que Bacamarte libere os pacientes e acabe se trancando na Casa Verde.

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