QAnon: retórica satânica para criar narrativa de ‘bem x mal’

Como uma mirabolante teoria da conspiração, que vê Donald Trump como herói da luz contra as trevas, criou raízes fortes na mais do que nunca polarizada democracia norte-americana

Grupo QAnon em evento no nordeste dos EUA em 2019: teoria da conspiração com retórica satânica. Crédito: Marc Nozell/Wikimedia

Diante de uma audiência de TV em 15 de outubro, o presidente Donald Trump declarou que não sabia “nada sobre” QAnon, antes de se corrigir e dizer: “Eu sei que eles são totalmente contra a pedofilia”.

O que ele não fez foi repudiar o que foi referido como uma “ilusão coletiva”. Parte disso pode ser devido aos seguidores do QAnon apoiando Trump como uma espécie de salvador – alguém jogando xadrez quadridimensional contra insiders políticos obscuros e personagens poderosos conhecidos como o “Estado Profundo”.

Mas isso é apenas parte daquilo em que os Anons – seguidores do QAnon – acreditam. O que Trump não mencionou são as afirmações atrozes que estão por trás dessa suposta partida de xadrez, e as imagens e linguagem demoníacas que são usadas no decorrer da conspiração.

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Como um professor de religião que dá cursos sobre o significado cultural dos monstros, vejo muitas semelhanças entre as afirmações do QAnon e rumores de pânico anteriores que empregavam retórica satânica. Além disso, dada a popularidade crescente da conspiração QAnon – e sua invasão na política dominante –, acredito que ignorar essa retórica pode prejudicar os alvos da conspiração.

Acusações do mal

A teoria da conspiração QAnon começou com uma postagem anônima no 4chan em outubro de 2017. O autor, que mais tarde assinou suas postagens como “Q”, permanece desconhecido. Desde então, Q tem postado mensagens anônimas, conhecidas como Qdrops, no 8chan e agora no 8kun – em fóruns de mensagens online e imagens.

A conspiração afirma que políticos do Estado Profundo e a “elite de Hollywood” estão envolvidos em uma grande rede de sequestros de crianças que coleta o composto químico adrenocromo – obtido a partir da oxidação da adrenalina – de crianças abusadas sexualmente e submetidas a rituais satânicos.

Os Anons dizem que o adrenocromo é consumido por alguns políticos democratas e elites de Hollywood por seus efeitos psicodélicos e antienvelhecimento e é mais potente quando colhido de uma vítima assustada. Trump, eles acreditam, está planejando um dia de ajuste de contas que verá a prisão, condenação e até a execução de dezenas de funcionários do governo atuais e antigos por seu envolvimento no tráfico sexual de crianças.

Ao analisar os Qdrops, notei um discurso do mal tecido nas quase 5 mil mensagens de Q. Apimentando os Qdrops estão afirmações como “muitos em nosso governo adoram Satanás”. De acordo com os Anons, Trump está engajado em uma batalha de significado cósmico entre os “filhos da luz” e os “filhos das trevas” e está trabalhando para desmantelar as redes de pedófilos que estão raptando crianças para rituais satânicos.

Além do nível ‘nós contra eles’

Ao usar tal linguagem e imagens, Q não retrata os adversários políticos percebidos como meramente tendo uma diferença de opinião, mas como sendo totalmente maus.

Por exemplo, em um Qdrop de 10 de agosto de 2018 intitulado “Muitos no poder adoram o diabo”, Q declara: “PURO MAL. QUANTOS EM WASHINGTON E AQUELES NO MUNDO (NO PODER) ADORAM O DIABO?”

Em 26 de agosto de 2020, Q postou uma imagem sugerindo que o logotipo da Convenção Democrata Nacional de 2020 se assemelhava a um pentagrama satânico de Baphomet, que incorpora uma cabeça de cabra e uma estrela de cinco pontas. O texto que acompanha afirma que um partido – os republicanos – discute Deus, enquanto o outro partido – os democratas – discute a escuridão.

Esse diálogo vai além do nível de nós contra eles. Em vez disso, para Q e Anons, eleva a conspiração a uma questão de bem cósmico versus mal monstruoso.

Isso, acredito, causa grande preocupação. Apresentar os oponentes como monstruosamente malignos os desumaniza. Por meio desse processo, os Anons podem se ver como possíveis assassinos de monstros, prontos para usar a violência para remover o mal.

Relembrando o passado

Este processo de usar a linguagem do mal para desumanizar um inimigo percebido não é nada novo. Foi visto em conspirações como os Protocolos dos Sábios de Sião. Os Protocolos, um documento fictício publicado pela primeira vez na Rússia no início dos anos 1900, vinculam uma cabala judia satânica ao Anticristo.

Examinar a retórica passada visando aos judeus revela como tal discurso lubrifica a máquina da violência – Hitler chamou os Protocolos de “imensamente instrutivos”.

As comunidades judaicas enfrentaram o libelo de sangue – a ideia de que os judeus sequestravam crianças para sacrifícios de sangue – por séculos antes de ele reaparecer nos Protocolos. Na Idade Média, isso era motivado pelo medo de magos judeus sequestrarem e esfaquearem crianças para rituais malignos. Havia rumores de que o sangue produzido nesses rituais era consumido ritualmente como bebida ou misturado ao pão ázimo. Era uma fantasia demoníaca não baseada em nenhuma realidade.

Trump: espécie de salvador para os Anons. Crédito: Gage Skidmore/Wikimedia

É digno de nota que as afirmações do Anon sobre rapto de crianças e consumo de sangue estão vinculadas a figuras judaicas proeminentes, como o filantropo bilionário George Soros e a família Rothschild.

Joel Finkelstein, da rede antiódio Network Contagion Research Institute, observou que a conspiração QAnon está se tornando cada vez mais antissemita. Na verdade, o renomado estudioso do genocídio Gregory Stanton alertou em um artigo em setembro que a fantasia demoníaca do QAnon era “uma versão reformulada dos Protocolos” e observou que a conspiração estava ganhando força nos círculos neonazistas.

“Pânico satânico”

Para aqueles que se lembram do “pânico satânico” dos anos 1980, essas narrativas do Anon soarão assustadoramente familiares. O pânico satânico foi baseado em uma série de rumores espalhados por pais preocupados e autoridades, variando de terapeutas a agências de aplicação da lei, convencidos de que uma cabala demoníaca havia se infiltrado na sociedade em seus níveis mais altos. Organizações criadas para combater essa ameaça percebida, como Believe the Children, argumentaram que as crianças corriam maior risco em creches administradas por satanistas secretos.

Os promotores aceitaram, com seriedade aparentemente sincera, as alegações feitas sobre abuso sexual infantil, túneis secretos e rituais satânicos na pré-escola McMartin em Manhattan Beach, Califórnia. Acusações sensacionais semelhantes foram feitas contra a Fells Acres Day School e a Wee Care Nursery School. As acusações foram posteriormente retiradas ou revertidas em muitos desses casos.

Como demonstram os injustos processos, o pânico satânico prejudicou a reputação e a subsistência de pessoas inocentes.

O QAnon está prestes a causar perturbações semelhantes na vida de pessoas inocentes. Já houve incidentes, incluindo o tiro aparentemente inspirado pelo QAnon em um chefe da máfia e um esforço transmitido ao vivo para “remover” Joe Biden. Os Anons estão começando a mostrar disposição para resolver o problema com as próprias mãos.

Por que isso importa agora

É tentador descartar o QAnon como muito pequeno e marginal para levar à violência associada a pânicos satânicos anteriores. No entanto, a influência emergente de Q é evidente. Isso é visto não apenas no número crescente de apoiadores – somente as páginas do QAnon no Facebook têm 3 milhões de seguidores –, mas também em Washington, com um presidente que se recusa a repudiar a conspiração e uma apoiadora republicana do QAnon, Marjorie Taylor Greene, que parece prestes a chegar ao Congresso em novembro.

O tamanho da comunidade QAnon é difícil de estimar. Não é, de forma alguma, algo de massa. Mas a experiência anterior nos mostrou que, quando uma minoria envolve sua causa em um discurso cósmico do bem contra o mal, podem ocorrer atrocidades.

 

* Paul Thomas é catedrático de estudos religiosos na Radford University (EUA).

** Este artigo foi republicado do site The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o artigo original aqui.

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