Quais são as origens da Quaresma?

O período que antecede a Páscoa está ligado ao jejum, à reflexão silenciosa e à disciplina espiritual

Quaresma: preparação para a Páscoa, momento da ressurreição de Jesus. Crédito: aalmeidah/Pixabay

No final do inverno no hemisfério norte, muitas denominações cristãs observam um período de 40 dias de jejum e oração chamado Quaresma. Esta é uma preparação para a celebração da Páscoa na primavera, um feriado religioso que comemora a ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos.

A palavra “Quaresma” tem raízes germânicas que se referem ao “alongamento” dos dias, ou primavera. Mas os fatos sobre a origem inicial da observância religiosa não são tão conhecidos.

Como uma erudita que estuda liturgia cristã, sei que, por volta do século 4, a prática regular do jejum de 40 dias se tornou comum nas igrejas cristãs.

Cristianismo primitivo

A prática de jejuar por motivos espirituais é encontrada nas três maiores religiões abraâmicas: judaísmo, cristianismo e islamismo. Em todas as três, abster-se de comer está intimamente ligado a um enfoque adicional na oração e na prática de ajudar os pobres dando esmolas ou doando alimentos.

Nos Evangelhos, Jesus passa 40 dias no deserto para jejuar e orar. Esse evento foi um dos fatores que inspiraram a duração final da Quaresma.

As primeiras práticas cristãs no Império Romano variavam de área para área. Uma prática comum era o jejum semanal na quarta-feira e sexta-feira até o meio da tarde. Além disso, os candidatos ao batismo, assim como o clero, jejuavam antes do rito, que muitas vezes acontecia na Páscoa.

Durante o século 4, várias comunidades cristãs observavam um jejum mais longo de 40 dias antes do início dos três dias mais sagrados do ano litúrgico: Quinta-Feira Santa, Sexta-Feira Santa e Páscoa.

Evitar a autoindulgência

À medida que o cristianismo se espalhou pela Europa Ocidental do século 5 ao século 12, a observância da Quaresma também se espalhou. Alguns dias da Quaresma eram “negros” ou dias completos de jejum. Mas o jejum de um dia passou gradualmente a ser moderado durante a maior parte da Quaresma. No final da Idade Média, muitas vezes era permitida uma refeição ao meio-dia.

Além disso, bispos e teólogos especializados em leis da Igreja especificavam restrições sobre os tipos de alimentos aceitáveis: carne ou derivados, laticínios ou ovos não podiam ser consumidos durante a Quaresma, mesmo aos domingos.

A ideia era evitar a autoindulgência nesse momento de arrependimento pelos pecados. O casamento, um ritual alegre, também era proibido durante a época da Quaresma.

Renovação espiritual

Hoje, os católicos e alguns outros cristãos ainda se abstêm de comer carne nas sextas-feiras da Quaresma, e comem apenas uma refeição, com dois lanches menores permitidos, em dois dias de jejum completo. Além disso, eles também se engajam na prática de “abrir mão de algo” durante a Quaresma. Frequentemente, esse algo é a comida ou bebida favorita ou outra atividade prazerosa, como fumar ou assistir à televisão.

Outras atividades também são sugeridas, de acordo com a ideia da Quaresma como um momento de renovação espiritual e também de autodisciplina. Isso inclui fazer as pazes com familiares e amigos distantes, ler a Bíblia ou outros escritores espirituais e fazer serviço comunitário.

Embora algumas práticas possam ter mudado, a Quaresma no século 21 permanece essencialmente a mesma dos séculos anteriores: um tempo de reflexão silenciosa e disciplina espiritual.

 

* Joanne M. Pierce é professora de Estudos Religiosos no College of the Holy Cross (EUA).

** Este artigo foi republicado do site The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o artigo original aqui.

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