Quando a raiva faz bem

Uma das principais emoções negativas, a raiva pode ter efeitos destrutivos em quem a manifesta - mas pesquisas mostram que reprimi-la pode resultar em prejuízos consideráveis à saúde

Diversas tradições espirituais veem no domínio das emoções um passo fundamental para evoluir interiormente e espera-se que, com muito esforço pessoal, consigamos atingir esse patamar. Enquanto não chegamos lá, porém, vale a pena rever certas crenças que se têm multiplicado a respeito das chamadas emoções negativas. Diferentemente do que alguns autores propõem, sublimá-las não gera benefícios para a pessoa – essa atitude, aliás, tende mais a trazer-lhe prejuízos à saúde.

Pesquisas científicas recentes sobre a raiva reforçam essa linha de pensamento. Uma delas é o Harvard Study of Adult Development, da Universidade Harvard (Estados Unidos), que tem monitorado a vida de 824 homens e mulheres desde 1965. Segundo o trabalho, quem reprime sua frustração é pelo menos três vezes mais propenso a admitir que chegou a um ponto em sua carreira no qual não consegue mais progredir e que tem uma vida pessoal decepcionante. Já as pessoas que aprendem a explorar e canalizar sua raiva apresentam uma probabilidade muito maior de estar bem situadas profissionalmente, além de desfrutar de maior intimidade física e emocional com seus amigos e familiares.

Estímulo para a reflexão interior

Outro lado benéfico de manifestar a raiva flagrado em pesquisas recentes foi o de levar as pessoas envolvidas a refletir sobre si próprias e, com frequência, manifestar maior tolerância em relação ao motivo que originou a desarmonia. Howard Kassinove, coautor de “Anger Management: The Complete Treatment Guidebook for Practice” (Administração da raiva: o guia de tratamento completo para a prática, em tradução livre), publicou recentemente no Journal of Social Behaviour and Personality um trabalho com cerca de 2 mil adultos, dos quais mais de 55% disseram que um episódio de raiva produziu um resultado positivo. Quase um terço dos participantes admitiu que o episódio ajudou-os a ver suas próprias falhas.

“As pessoas que são alvo da raiva nesses estudos dizem coisas como: ‘Eu realmente entendo a outra pessoa muito melhor agora; acho que não a estava escutando antes'”, afirma Kassinove. “Embora a expressão assertiva seja sempre preferível a uma expressão de raiva, a raiva pode servir como uma função importante de alerta que leva a uma compreensão mais profunda da pessoa e do problema.”

Para James Averill, psicólogo da Universidade de Massachusetts Amherst, a raiva é malvista por ser erradamente associada à violência. Em seu estudo sobre a raiva no cotidiano, ele descobriu que episódios em que essa emoção se manifestou ajudaram a fortalecer as relações na metade das vezes e só levaram à violência em menos de 10% dos casos. “A raiva pode ser utilizada para auxiliar as relações íntimas, trabalhar as interações e a expressão política”, disse Averill. “Quando você olha para os episódios de raiva do dia a dia, ao contrário daqueles que apresentam desfechos mais dramáticos, os resultados são geralmente positivos.”

Exibições de raiva descontrolada são destrutivas, mas internalizar a emoção – uma atitude popularmente conhecida como “engolir sapo” – tampouco é uma solução viável: ela pode causar depressão, problemas de saúde e dificuldades de comunicação (Foto: Shutterstock)

“As pessoas pensam na raiva como uma emoção terrivelmente perigosa e são encorajadas a praticar o ‘pensamento positivo’, mas consideramos que essa abordagem é autodestrutiva e, em última análise, uma negação prejudicial da realidade terrível”, assinala George Vaillant, psiquiatra da Escola de Medicina de Harvard que passou os últimos 44 anos como diretor do Harvard Study of Adult Development. “Emoções negativas como o medo e a raiva são inatas e têm enorme importância”, afirma o psiquiatra. “Elas são muitas vezes cruciais para a sobrevivência: experimentos cuidadosos como o nosso têm documentado que as emoções negativas limitam e focam a atenção, de modo a podermos nos concentrar nas árvores em vez de na floresta.”

Vaillant considera que exibições de raiva descontrolada são de fato destrutivas, mas internalizar a emoção – uma atitude popularmente conhecida como “engolir sapo” – tampouco é uma solução viável: ela pode causar depressão, problemas de saúde e dificuldades de comunicação. Aprender a canalizar a raiva positivamente, portanto, é vital para nosso bem-estar. “Todos nós sentimos raiva, mas indivíduos que aprendem a expressá-la, evitando as consequências explosivas e autodestrutivas da fúria desenfreada, têm conseguido algo incrivelmente poderoso em termos de crescimento emocional geral e saúde mental. Se podemos definir e aproveitar essas habilidades, podemos usá-las para realizar grandes coisas.”

Opinião similar está presente na conclusão de pesquisadores da Universidade de Estocolmo (Suécia) que acompanharam 2.755 trabalhadores do sexo masculino entre 1992 e 2003. Em seu estudo, publicado em novembro no Journal of Epidemiology and Community Health, eles perguntaram aos participantes como lidavam com o tratamento injusto ou conflitos no trabalho e analisaram as respostas obtidas comparando-as a uma série de formas de avaliação física, como pressão sanguínea, índice de massa corporal (IMC) e níveis de colesterol. No questionário aplicado também havia perguntas sobre o emprego de táticas evasivas, tais como afastar-se de uma discussão, fatores biológicos e a ocorrência de dores de cabeça ou outros sintomas físicos.

PARA GEORGE VAILLANT, A RAIVA DESCONTROLADA É DESTRUTIVA, MAS REPRIMIR A EMOÇÃO TAMBÉM: ISSO PODE CAUSAR DEPRESSÃO E PROBLEMAS DE SAÚDE

Engolir sapo é um comportamento frequente no ambiente profissional, em especial nos escalões hierarquicamente inferiores, que têm menos controle do trabalho. Durante o período coberto pela pesquisa, 47 participantes morreram por ataque do coração ou doença cardíaca. Depois de analisarem os dados coletados, os pesquisadores descobriram que várias dessas pessoas persistentemente sublimaram sua raiva em vez de expressá-la abertamente. Quem adotou esse comportamento apresentou uma tendência até cinco vezes maior de ter algum distúrbio cardíaco.

Originariamente, a pesquisa também incluiu mulheres como objeto de estudo e os resultados colhidos mostraram que reprimir a raiva trazia consequências igualmente danosas para a saúde delas. No entanto, como o número de mortes associadas ao coração foi baixo entre elas, os cientistas decidiram não tirar conclusões sobre esse grupo.

Qual estratégia se deveria seguir para não reprimir a raiva e, assim, fugir da armadilha que essa atitude representa para a saúde? Os pesquisadores suecos disseram que não poderiam responder a essa pergunta, mas listaram alguns comportamentos dos participantes de seu estudo diante de um tratamento injusto ou um conflito. A relação inclui “protestar diretamente”, “falar com a pessoa agora mesmo”, “gritar com a pessoa agora mesmo” ou “falar com a pessoa mais tarde, quando as coisas tiverem se acalmado”. A escolha da estratégia a adotar é, em geral, uma questão de personalidade, mas também sofre a influência das circunstâncias pelas quais a pessoa está passando.

Talvez as repetidas confirmações da influência negativa sobre a saúde que reprimir a raiva provoca resultem em novas maneiras – inclusive trabalhistas – de abordar o assunto. Constanze Leineweber, do Instituto de Pesquisa do Estresse da Universidade de Estocolmo, que liderou o estudo sueco, ressaltou uma sugestão natural em termos profissionais que pode ser adaptada para outras situações: “Eu não recomendaria gritar com o chefe. Essa não é a melhor solução. Mas é sempre melhor dizer que você se sente tratado injustamente e encontrar soluções construtivas para isso.”