Quando as notas musicais escrevem história

Uma mostra na Alemanha explora a relação entre os sons e sua notação, em especial impressa. Pela Schott passaram nomes como Mozart, Wagner, Orff. Museu Gutenberg celebra os 250 anos de uma das maiores editoras de música.O Museu Gutenberg de Mainz dedica uma exposição inteira a uma única casa editorial alemã. Na verdade, trata-se de uma mostra de jubileu, que deveria ter sido inaugurada em 2020 quando a Schott, uma das maiores editoras de música do mundo, completou 250 anos.

A homenagem não é exagerada, considerando-se que contar a história da firma é também repassar estações essenciais da música erudita europeia. Mas aí, claro, veio a pandemia e, como tantas outras instituições, o “museu mundial da arte da impressão” teve que ficar meses fechado.

Contudo esse atraso só contribui para o fascínio da mostra Noten für die Welt (Notas musicais para o mundo). A começar por sua extensão temporal: para ilustrar os primórdios na notação musical, ela começa com os neumas medievais – em que era registrada a música litúrgica, como os cantos gregorianos –, e vai até partituras visualmente ousadas e artísticas dos séculos 20 e 21.

A trajetória começa com um espetacular manuscrito em neumas, datando de mais de mil anos. Contrastando com essa forma de escrita apenas aproximativa, contudo, na Alta Idade Média foram desenvolvidas a notação quadrada e losangular, mais precisas, pois expressavam as alturas relativas das notas. O próximo passo será encontrar formas de registrar os ritmos.

“Até a primeira metade do século 15, só era possível copiar música manualmente”, confirma a curadora Maria Linsmann-Dege. Para a exposição, ela revirou fundo os arquivos do museu: entre os tesouros expostos está o Psalterium Benedictium cum canticis et hymnis, impresso em 1459 por Peter Schöffer, o Velho.

Invenção de Gutenberg faz escola

Em 1450, o filho de Mainz Johannes Gutenberg (1400-1468) publicara os primeiros livros usando uma prensa móvel. Antes dele, em 1040, o chinês Bi Sheng já empregara peças móveis de porcelana para imprimir textos. No Ocidente, porém, a invenção do também ourives Gutenberg inaugurou uma nova época da comunicação e divulgação do saber.

No início do século seguinte, alguns impressores começaram a publicar obras polifônicas utilizando a nova técnica, sendo o principal deles o italiano Ottaviano Petrucci, considerado o inventor da impressão musical com tipos móveis. O mais tardar nos séculos 17 e 18, a música impressa se difundira amplamente na Europa, sobretudo na forma de livros de canto litúrgico.

No entanto, a tipografia não era ideal para textos musicais, e passou-se a dar preferência à impressão com placas de cobre que tinham que ser laboriosamente gravadas – em reverso. A conceituada editora alemã Henle seguiu imprimindo partituras por esse método até o ano 2000, embora a partir do século 19 ele já viesse sendo gradualmente substituído pela litografia.

Com o advento da Revolução Francesa, a impressão musical ultrapassou os confins da igreja. Na Alemanha, “o lied encontrava cada vez mais adeptos”, descreve Linsmann-Dege. “Os compositores se voltaram para as canções, geralmente sobre versos estróficos simples, acompanhadas de piano e apresentadas em contextos intimistas.”

Entre as fontes literárias mais populares estavam os poemas de Johann Wolfgang Goethe e a coleção de canções populares de Johann Gottfried von Herder. Quem imprimia a maioria das partituras era a Casa Schott.

Um impressor escreve história da música

O clarinetista e impressor Bernhard Schott (1748-1809) fundou no principado de Mainz, junto com dois irmãos, a próspera editora que em 1770 viria a ser batizada B. Schott's Söhne. Um dos fatores de seu sucesso foi a opção pela recém-inventada litografia como método de impressão, o que lhe permitia tiragens grandes com qualidade constante.

Acima de tudo, porém, Schott tinha excelente faro para a qualidade musical: seus primeiros lançamentos, em 1764, foram as quatro sonatas para piano e violino KV 6 a 9, de Wolfgang Amadeus Mozart. As primeiras edições e as reduções para piano das óperas O rapto do serralho e Don Giovanni, do compositor austríaco, contam entre os pontos altos da história da editora. Mais tarde, será também ela a publicar duas obras tardias de Ludwig van Beethoven: a Missa Solene e a Nona sinfonia.

A partir de 1859, o neto do fundador Franz Schott definiu a música alemã como linha-mestre da casa. Lá, Richard Wagner publicou algumas de suas mais importantes óperas, como Os mestres-cantores de Nurembergue, O anel do Nibelungo ou Parsilfal.

A atual exposição contém uma série de revelações fascinantes para os amantes da música. Além de uma seleção de placas de impressão originais de cobre e pedra, pode-se ver a raramente exibida partitura original de Os mestres-cantores, de 1866/7, um empréstimo do Museu Nacional Germânico de Nurembergue.

Uma comparação com a redução para piano impressa, de autoria de Karl Tausig, confirma não só o cuidado detalhista de Wagner – seu original contém numerosas anotações, correções e alterações – como a precisão e qualidade das impressões da Schott, mais de 150 anos atrás.

Partitura como obra de arte

Um salto nos séculos traz novas descobertas fascinantes: no intuito de expressar um conteúdo sonoro inovador, partituras de compositores modernos e contemporâneos como Paul Hindemith (1895-1963), Carl Orff (1895-1982) ou György Ligeti (1923-2006) são praticamente objetos de arte visual.

Em 2006, a Schott Musikverlag se transformou em Schott Music, sedimentando sua orientação francamente internacional. Mantendo a tradição – iniciada com Mozart – de se dedicar à música contemporânea, o catálogo atual inclui nomes como o francês Henri Dutilleux (1916-2013), o polonês Krzysztof Penderecki (1933-2020), a israelense Chaya Czernowin (*1957) ou o inglês Mark-Anthony Turnage (*1960), entre muitos outros.

Até 2014, os tesouros históricos da Schott estavam guardados no prédio da empresa, em Mainz. Quando se começou a leiloá-los em Londres, o governo federal interveio, declarando-os “patrimônio cultural inalienável alemão”. O acervo foi então vendido a diversas fundações culturais estaduais. A fundação ligada à editora emprega o dinheiro arrecadado em projetos de formação musical.

Fazendo jus a sua temática, porém, a exposição no Museu Gutenberg não é só para os olhos: na seção Musikduschen (Chuveiro de música), as notas impressas se tornam audíveis.

Noten für die Welt pode ser visitada em Mainz até 7 de novembro de 2021.

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