"Quando o habitante da cidade é colocado em primeiro lugar, cresce sua responsabilidade de guardião"

Ouro Preto foi o primeiro bem cultural brasileiro inscrito na lista da Unesco, em 1980.

Hoje com 1.500 imóveis tombados, Ouro Preto (MG) conserva boa parte do conjunto urbanístico, arquitetônico e paisagístico remanescente do século 18, graças à luta de Ângelo Oswaldo de Araújo Santos, esse intelectual mineiro apaixonado, reconhecido fora do Brasil por consagrar sua vida ao desafio do Patrimônio Histórico. “A Vila Rica do apogeu do Ciclo do Ouro se transformou no século 19 em vila pobre. O esvaziamento da cidade permitiu sua conservação”, explica Ângelo Oswaldo, que já foi presidente do Iphan, chefe de gabinete do ministro Celso Furtado, no Ministério da Cultura, no qual foi ministro interino, e secretário de Estado da Cultura.

Para enfrentar o desafio da conservação dessa joia de nossa história, o mais importante incentivo vem do Programa Monumenta, criado pelo Ministério da Cultura e pelo Iphan, que recebe recursos do governo federal e do Banco Interamericano de Desenvolvimento (Bird). Os monumentos foram restaurados e mais de 100 imóveis particulares passaram por processo de restauro. “Pela primeira vez, o particular teve a oportunidade de receber um incentivo para que ele próprio restaurasse sua casa. É uma nova dimensão da política patrimonial”, explica o prefeito. A Caixa Econômica Federal patrocinou a revitalização do Museu da Inconfidência com um moderno projeto de museografia.

O BNDES está restaurando as igrejas de Santa Efigênia (1720 a 1785) e do Carmo (1766 a 1772). Próximo à Praça Tiradentes, no antigo casarão da Santa Casa de Ouro Preto, primeiro hospital de Minas Gerais e sétimo do Brasil, está sendo implantado um grande centro de arte e fazeres, o Paço da Misericórdia, que reunirá o artesanato da região desse município que tem como ponta de lança a educação, a cultura e o meio ambiente. “Estou vivendo um sonho”, diz o prefeito da cidade berço de Aleijadinho e Tiradentes. Ele lançará no ano que vem, pela Editora Bei, um livro completo sobre Ouro Preto com imagens do fotógrafo italiano Lamberto Scipioni, que registra a cidade mineira há mais de 20 anos.

O que determina o conceito de Patrimônio da Humanidade?

Compreende a proteção de um bem ameaçado, um bem para a história do ser humano, da civilização, da cultura, que se acha em risco. A proteção da Unesco chancela a conservação e a valorização desse bem. Em 1980, por se encontrar em grave crise, Ouro Preto foi distinguida como prioridade para a Unesco.

 

“Ouro Preto conseguiu conservar o conjunto urbanístico, arquitetônico e paisagístico remanescente do século 18”

 

O que pesou na chancela da Unesco referente à inscrição de Ouro Preto?

Foram três coisas. A primeira, a ameaça aos principais monumentos da cidade. Ouro Preto passou por uma grande crise de outubro de 1978 a março de 1979, em razão das fortes chuvas do verão, quase ininterruptas, que derruíram encostas e provocaram deslizamentos, ameaçando os monumentos da cidade. Os governos federal e de Minas e a prefeitura tomaram providências imediatas, e a Unesco mandou uma missão.

A segunda questão?

É a própria cidade. Ouro Preto conseguiu conservar o conjunto urbanístico, arquitetônico e paisagístico remanescente do século 18. A Vila Rica do apogeu do Ciclo do Ouro se transformou no século 19 na vila pobre, apenas uma reumática capital da província de Minas Gerais, que sugeriu a mudança da sede do governo para Belo Horizonte no dia 12 de dezembro de 1897. Ouro Preto mergulhou em um grande vazio, sustentada apenas pela presença de duas escolas tradicionais: a Escola de Farmácia, criada em 1839, e a Escola de Minas, de 1876. O esvaziamento da cidade permitiu sua conservação, pois o século 19 atravessou a cidade setecentista com tamanha discrição que preservou o legado do século 18. A autenticidade, a originalidade e a homogeneidade são três condições que pesaram para que Ouro Preto fosse a primeira inscrição brasileira na lista da Unesco.

E a terceira?

Ouro Preto é a pátria do Aleijadinho. Antônio Francisco Lisboa nasceu aqui, em 1738, viveu a maior parte de sua vida na cidade natal, nela morreu em 18 de novembro de 1814 e foi sepultado na Matriz. É o maior artista brasileiro de todos os tempos por ter sido aquele que expressou o primeiro gesto criador brasileiro. Não é um artista que importava padrões europeus, foi um inovador. Sua originalidade o tornou um artista genuinamente brasileiro, o que desperta o interesse dos historiadores da arte e até dos modernistas brasileiros.

Mario e Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral viram em Aleijadinho o artista que, somando as mais diversas contribuições, criou uma expressão brasileira de arte, como os modernistas buscavam fazer também. A Unesco sempre se interessou pelo Aleijadinho, em 1950 e 1960 havia mandado missões para estudar a situação de sua obra. O interesse da Unesco é tanto que, cinco anos depois da inscrição de Ouro Preto, o conjunto do santuário do Bom Jesus de Congonhas do Campo também foi declarado Patrimônio da Humanidade.

 

“Estamos investindo no espaço urbano de Ouro Preto e na promoção da cidadania. Queremos um patrimônio cidadão”

Qual é sua visão sobre o turismo?

É a melhor resposta socioeconômica à preservação do patrimônio cultural e à valorização das atividades artísticas. Hoje, Ouro Preto é uma cidade das artes, com muitos festivais e eventos, como o Festival de Inverno, o CineOp (Mostra de Cinema de Ouro Preto), o Festival de Jazz, o Fórum das Letras, que enriquecem nosso calendário. Temos um belíssimo centro de arte e convenções que pertence à Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop), sempre sediando feiras e congressos.

Ouro Preto tem um quadro privilegiado, mas quais são atualmente as necessidades da cidade?

Ouro Preto acaba de receber no V Salão Brasileiro de Turismo o prêmio nacional de sustentabilidade social. Estamos investindo no espaço urbano de Ouro Preto e na promoção da cidadania. Queremos um patrimônio cidadão. Quando o habitante da cidade é colocado em primeiro lugar, cresce sua responsabilidade de guardião. Sendo um guardião, ele vai usufruir do patrimônio da cidade que ele achava estar destinado apenas aos forasteiros, aos turistas. Ao assumir que esse é um patrimônio cidadão, ele vai conservá-lo bem, usá-lo mais e compartilhá- lo com os visitantes. Estamos criando centros de cultura nos bairros, mobilizando a comunidade, implementando obras que trazem mais conforto e segurança para o cotidiano do cidadão de Ouro Preto, que precisa ser mais generosa e acolhedora com ele.

Amando a cidade, conhecendo mais sobre ela, ele vai se empenhar em conservá- la e terá consciência de que a cidade pertence, em primeiro lugar, a ele próprio. Muitas vezes havia um apartheid entre o turista e o morador, “Ah, isso é só para os turistas” pensava o nativo, que se sentia excluído. Nosso objetivo é integrar a comunidade ouropretana ao seu espaço histórico para que ela seja uma personagem do presente e do futuro da cidade. O ouropretano herdou um passado muito rico e precisa construir um futuro com entusiasmo, orgulhoso de suas raízes e consciente da importância da sua participação no futuro e na preservação desta comunidade.

Como está a infraestrutura de Ouro Preto?

Esse é o maior desafio, mas Ouro Preto está em um momento muito positivo porque temos feito obras de infraestrutura, de transformação, na área de saneamento básico, abastecimento de água, obras estruturantes, pavimentação de vias, alternativas que aprimoram a condição de vida e a rotina do morador de Ouro Preto. Ao mesmo tempo, tenho como foco a desconcentração das atividades.

O município de Ouro Preto é extenso, são 1.300 km2 divididos em 12 distritos, não há necessidade de concentrar tudo em Ouro Preto. Essa pressão induz a um crescimento desordenado e Ouro Preto já sofreu muito com isso.

Hoje, temos um plano diretor, leis de uso do solo, um arsenal legal para proteger o lugar, mas é importante dar oportunidade para a cidade e criar espaços novos que possam absorver essas demandas. Por isso, os distritos principais – Cachoeira do Campo, Antônio Pereira, Santa Rita de Ouro Preto e Amarantina – estão sendo preparados para a expansão. Eles hospedarão essa grande demanda de crescimento do espaço urbano para projetos residenciais, atividades industriais e comerciais, para que Ouro Preto se proteja. Temos de descentralizar, guardar a Ouro Preto histórica para a educação, a cultura, o turismo e os serviços, e ter nos distritos que nos cercam um espaço ideal para a construção de novas casas, abertura de ruas e implantação de projetos econômicos para a população.

 

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